
“Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecer o lugar pela primeira vez."
(T.S.Elliot - Little gidding)
Nunca é longe
As pontadas de dor em seu fígado só não lhe incomodam muito por que o frio, debaixo da pedra, enquanto alguns soldados passam correndo pela trincheira, sem ter tempo de percebê-lo, é tão intenso que somente a ilusão de não morrer desse modo absolutamente imundo, apesar das promessas de honra, instiga-lhe abrir uma vez mais a única carta que sobrou depois que uma ou duas granadas foram jogadas em sua tenda. Matando todos que ali dormiam. Com exceção dele, pois sua bexiga sempre exigia-lhe levantar pelo menos três ou quatro vez durante a madrugada. Por ironia de alguma espécie de rumo, esta única carta é exatamente a primeira que recebera daquele que ele ainda persiste em querer lembrar como seu grande amor. Como se o olhar de ambos entrecruzando-se tivesse sido interrompido por uma parede exatamente a menos de uma semana atrás. Afinal não pode ser que já tenham se passado quase quinze anos. Parece que foi ontem. Antes que a razão lhe esfregue na cara a própria covardia que lhe calara cínico enquanto o outro aguardava um afeto de sua parte, tornara-se palpável inclusive um abraço que em verdade nem chegara a existir. Já que repetira-se repetira-se repetira-se durante estes últimos meses longe de casa, com a carta em seu sangue, que sua vida não poderia seguir sendo algo absolutamente solto assim ao léu, tão em vão, tão minúscula e insignificante. Por fim o próprio Universo defende-se dizendo que lugar de lixo é no lixo. Apesar do frio absurdo dessa madrugada e dos estrondos com riscos de luz, apesar de alguns companheiros dançando de braços abertos antes de caírem, e outros ameaçando enfiar uma bala no meio de seus olhos se ele não sair dali, agir mesmo que não possa mais sentir os pés, ainda degusta-se em deliciosa euforia e curiosidade o desdobrar das páginas da carta de amor. Seu cheiro realmente ainda está ali ou é apenas mais uma das estratégias da farsa? Assopra a sujeira como mais uma entre as artimanhas. Lendo-a, tudo em torno, apesar de permanecerem ali, não tem sequer a ousadia de incomodar o peso delicado de sua respiração. “Há tempos queria escrever uma carta de amor, mas as cartas de amor sempre me pareceram sem sentido e sempre quando as lia pela segunda ou terceira vez me pareciam estúpidas. Mas agora há a necessidade de escrever meu amor. Meu amor. Meu amor por alguém, meu amor que é terno e belo e talvez uma das poucas belezas neste mundo – que agora tem uma beleza diferente para mim. Me perco, com ele me perco, me acho. E dele veio um chorar mais belo e profundo, meu coração se acalma, minha mente borbulha. Não consigo dormir em outro lugar senão ao seu lado, todas as noites. É o amor. O amo como amo meu choro. E meu riso. Amor pela saudade e pelo calor. O amo e me alimento como que com Clarice e Caetano e Elis. O amo tanto que me entristeço porque está longe, mas quando está perto... O amo. Nunca é tarde. O amo, nunca é longe. O amo pq é presente. O amo pq não acaba, como esta carta de amor. Te amo.” Então, um pouco mais abaixo, nome e sobrenome. E já que não acaba. E já que nunca é longe. E já que nunca é tarde. Que este amor me dê certeza de que apesar de ter me comportado como lixo, não irei para o lixo; murmurou tão baixo que, com as explosões e os disparos, permanece somente a idéia do que gostaria de ter dito. Sim, por debaixo de suas unhas ainda se vê farpas de lixo. Ontem mesmo matou alguns homens e logo depois segurou os braços de uma mulher que um outro soldado penetrou com seu membro duro e grosso. Com uma brutalidade que só não incomoda tanto por que o rosto da mulher fora tapado com pedaços de coisas e cotovelos. “Lugar de lixo é no lixo”. Mas se ele foi capaz de despertar tanto amor, ele não poderia jamais ser um naco inútil. Certo? Foi um covarde. Foi? Admiti-lo parece diminuir consideravelmente a força do que brota das palavras. Silêncio capaz de acabar com a dor que tem adquirido a forma de todo o seu corpo. Dobra a carta com cuidado, colocando-a entre sua face e o chão de terra. Se a neve já levou seus dois pés descalços, bem que pode levar outras coisas. Os estrondos parecem dar uma trégua. Ou ele está morto? Quase pára de respirar por um momento, só pra ter certeza se ouviria a própria morte. Sorri. Sente-se tão inundado de felicidade que decide ser este o instante de beber os últimos goles do uísque e fumar enfim aquele cigarro. Não importando se seu fígado comece com suas mordidas. Já na terceira tragada a algazarra retorna a todo vapor. De súbito a terra treme com mais força e um soldado rola para dentro da vala, despencando com sua face bem encima da carta de amor. Breve. Absurdamente breve. Tão breve que certamente nem todo mundo teria sido capaz de perceber o brilho nos olhos do outro soldado. O tipo de faísca que se atrita quando sente que é inevitavelmente hora de sentir-se amado. Colam os lábios. Ambas salivas combinam-se escorrendo manchas nas duas páginas da carta de amor. Pequenas manchas encontrando-se e criando manchas maiores. As pontas das línguas se tocam. Apesar do outro soldado ter perdido um dos braços e grande parte do coro cabeludo e uma das orelhas, o outro soldado é quem morre primeiro. Só um deles continua tremendo de frio. Mas não por muito tempo. Os estrondos estão mais próximos. Tão perto que não pode mais ouvir. Nem mesmo respirar. Quanto mais busca ar, mais e mais um punhado de terra é socado pela garganta adentro. Terra arranhando-lhe globo ocular, enfiando-se pelas narinas, cutucando osso exposto. Soterrando os silêncios das palavras.
Silhueta no escuro
Só que dessa vez não era uma silhueta no escuro. São olhos completamente abertos. Sentiu o branco queimando, o sino pedindo pra palavra certa não ser ouvida com a sua capacidade inevitável de toque. Se ele permanecesse ali, teria que ficar em silêncio, olhando a luz com sua curva transpirando um belo nariz aquilino, com postura de rei, de mão que cura – com minha cura, também; repetiu ele com voz sem alcance no instante em que não foi possível manter o olhar. Atravessou portas com o coração na boca. Nem olhou para os rostos olhando-lhe pelas costas. A não ser quando, já no contorno do parque, distraindo-se com os edifícios, num sol da manhã, ouve a presença dele vindo pelas costas. Havia deixado seu nome no caderno aberto, na porta de entrada, com celular. Leonardo é o nome. Será que ele conseguirá se lembrar da dificuldade de um Aeglos? Quando chegou ao fim da curva do parque, entrou pela direita sem saber o caminho que deveria seguir. Sei lá - alguma coisa. Seguir enfrente. Hoje ele foi desequilibrado pela beleza. Calma, terna, quente. E o que é que há nesse raio de carne e cartilagem e nervos. Falando línguas. Por que Aeglos abaixou a cabeça e saiu dali antes que algo terminasse acontecendo? Como se saísse de dentro, bem devagar, tão devagar que, enquanto percorre-se por dentro, como uma agulha gorda e afiada, em direções aleatórias, a pele incha com a vontade de expulsar o que ainda, de tão devagar e esquivo, não pode ou não consegue sair. Ficou incomodado de permanecer parado olhando-o sem dizer absolutamente uma única palavra sequer. Apenas. Olhando. Alerta e em reverência. O olhar dele. O olhar dele era uma extensão de cada fiapo de seu corpo, solto, quieto, em movimento. Seus olhos plumas fechando-se num casulo abafando de frescor cada intenção de hálito. Assoprando tão perto. Perto. Tão perto que os resquícios quase apagados de algum segredo arcaico repousado numa dobra genética eriçou-se ao reconhecer um cheiro comum a ambos. Algum uivo de alegria ou de perigo. Cotidianos foram esquecidos, mas esse resquício permaneceu ali, despistando-se de seu fim ao planejar e executar a própria morte. Falsificando inclusive os documentos. Falsa morte. Um resquício tão distante que já não mais pode ser possível encontrá-lo; a não ser seu rastro informando-nos que por ali buscou algo. Que gancho de diamantes é este? Aproximando-nos assim. Fomos grandes amores do tipo que não se acredita atravessando séculos e um oceano inteiro, desejando-se com tamanha força que o calor alojou-se na fundura mais misteriosa de um gene? Até que então nossos segredos se chamaram – séculos depois. Já faz quase um dia que fomos cutucados e a memória dele continua deteriorando-se. Pedaços apagados pingando às avessas pelo de dentro da imagem desse pequeno grande deus. Com seu belo nariz de sobrevivente. Na medida mesma em que o restante segue-se contaminando-se, a fragrância se combina ao ambiente por onde ambos se olham. Desintegrando, com o tempo, as ramificações que conectam Aeglos à lembrança desse rosto. Ao fazer (quas`e)squecer, o tempo é uma estratégia de segurança ao que deve manter-se escondido - desconhecidamente necessário? Até que um dia, numa galeria de arte, absortos pelas cores misturadas, olhos úmidos de curiosidade, esbarram-se. Olham-se como se tivessem lembrado do vulcão devastando o vilarejo por onde, ao pé da oliveira, sentiram a mão lhes apertando bem juntos para que então aquele fogo permanecesse em torno. Mantendo-os aquecidos e vivos enquanto, em absoluto silêncio, sabem do segredo que não deve ser perturbado. Sim, a memória já está quase apagada. Mas não tenho mais o suor frenético de antes. Sei que ele está conspirando-nos pelo mais íntimo que me define. Eu; repete Aeglos enquanto caminha pela calçada. Andando sem o característico olhar afoito como se cada transeunte pudesse ser a chave. Desde o dia em que saíra do espelho, combinando Aurélio e Rastro, era assim que se comportava. Uma espécie de incomodo. Que agora parece se dissipar. Por isto sente um desgosto ao constatar que não mais reconhece seu rosto quando aperta olhos fechados. Apesar de. Apesar da certeza dos minúsculos riscos de fogo conspirando-os em algum íntimo aparentemente inexistente. No domingo tudo parece tão morto que fica mais fácil observar os prédios sujos e descascados. Estranhamente ele não se lembrava daquelas ruínas. Quem sabe é melhor voltar? Parado no meio da faixa de pedestres ele olha para o domingo que deixou para trás.
Com os passos
Quando a tarde vai pr'algum lugar. Escorrega nádegas e costas no banco de escuro azul duro. Vira-se aturdido para o assento vazio ao seu lado. O destrave em seu rosto é demasiado expressivo. Profundas rugas de tensão em torno da boca. Vontade me chama?; sussurra-se. Ruído veloz vindo do lado de fora do ônibus chacoalhando-se pelas esquinas abarrotadas de gente sincroniza-se com a insistente pergunta que lhe mergulha num mundo quase indizível. O semáforo avermelha-se bem no instante em que a última palavra enfia interrogação. Na fila de bancos da esquerda um rapaz olha-o com expressão de afronta. Imitando um rosto absorto com olhos parados, lábios despencados como que anunciando em breve e a qualquer instante um amontoado de saliva escorrendo. Lenta; seja lá qual for o canto da boca. Vem uma vontade imensa de acender um cigarro. Esfrega uma mão na outra olhando pela janela. A mulher ao lado, do outro lado do corredor, parece olhar em sua direção, mas os olhos dele fixam-se pelos riscos humanos que quase não deixam formas. Seus dedos ardem eletrificados. Fissura alarga-se dentro de seu corpo, anunciando uma tempestade que vem chegando de alguma distância. Neste rasgo fenda se desata.
O ônibus diminui a velocidade até parar. Uma senhora de bengala levanta-se e desce em passos curtos os três íngremes degraus. O que está acontecendo? Esse homem ali sentado no duro banco azul encardido fica atônito diante da vontade avassaladora que lhe infla potência. Ontem mesmo. Por Deus; afinal foi ontem mesmo que disse sim ao chamado. E novamente hoje a vontade já ordena-se presente? Não pode ser, não pode ser; repete. Repete tantas vezes que o eco dentro da cabeça se confunde com as repetições que bem agora permanece murmurando. Ele sempre tem uma trégua de no mínimo cinco semanas após as mortes. Foi ontem que ele afundou um pescoço e já hoje o ardor lhe assanha. Passa os dedos da mão no ante-braço direito, no arranhão que o braço esbaforido com acuadas mãos em garras expôs-lhe. Levanta-se com a esquisita sensação de que todos lhe observam. Desce os degraus tentando disfarçar sorrateiros gestos ofegantes. Enterra as mãos nos bolsos da calça. Não tem coragem de confirmar se as pessoas dentro do ônibus seguem-lhe com os olhos.
Atravessa o jardim com pressa febril. Destranca a porta atropelando a brecha que se abre. Vento agitado tinge rapidamente o céu de cinza. Ainda assim é visível a cor vermelho carne crua da cortina. Por um momento permanece encostado na parede, apertando a boca do estômago. Risca a sala indo direto para o quarto. Mergulha para dentro das cobertas tentando despistar o vulto que pula veloz de um canto escuro a outro. O desejo expande-se como nunca havia sido tão voraz. Ele pode quase tocá-lo, dentro e fora dele mesmo. Qualquer junção de palavras expulsando-se à tona parece insuficiente. Visão adocicada de naftalina escorre narinas adentro, avermelhando o sangue de frescor quente. Naco esponjoso incha. Estica. A única claridade é um pedaço da lua refugiando-se pelo chão ao pé da cama. O desespero, de início, esparrama-se agudo como a ponta de uma faca curiosa riscando-lhe os tímpanos, chamando-lhe pelo nome com uma doçura envolvente. É absolutamente inútil recusar-se à sedução da voz estendida em sua direção. Em torno. Sobressaindo-se de dentro de uma capa de escuridão. Sua pele inundada de suor, carne dolorida e a cabeça latejando essa imagem inusitada que se encorpa num abraço apertado. Cada vez mais e mais é difícil desvencilhar-se. É um corpo morto de tão intacto e quase mudo. Encolhido na cama. Suas mãos sedentas pelo atrito pegajoso, pelos lábios fugidios; enquanto que um outro lado seu tem as pálpebras apertadas grudadas no teto. Um presságio em sua respiração funda uma vez mais lhe sorri aqueles olhos elevados de catarata grunhindo horror tapado, aquele corpo flácido e enrugado em formato contorcido, aquele tremor atônito. Abraça-se debaixo do cobertor. Naco esponjoso lateja de tão duro. A vontade de afagar é demasiada imponente, a ponto de lhe ameaçar a própria respiração. Rende-se intacto. À medida que o tremor esvazia-se dele, o timbre que vinha vindo ao longe aloja-se ali, em doses homeopáticas. O característico aroma das idosas molha-lhe os lábios. Quanto mais aquelas coisinhas enrugadas afastam-no com suas mãos frágeis e manchadas, mais persistente é sua ânsia jogando-se para dentro de suas pernas moles. O prazer que sente a cada esvaziamento de forças da vítima atinge tal exuberância que por um instante acredita estender-se além picos celestes, atestando-se em um gosto intensamente vivo. Um prazer tão sublime que purifica-se de toda e qualquer culpa e susto perante o rosto retorcido, a ponto de quase apagar definitivamente qualquer traço humano. Mãos amarradas na cabeceira da cama. Pulsos brotando gotas avermelhadas. Quando a vitima atinge o momento em que parece ter desistido de se debater em fuga, carinhosamente, na medida em que aperta-lhe a garganta, penetra-lhe uma vez mais. Mordisca-lhe a pele, lambe-lhe o suor da face, das sobrancelhas, beija-lhe as pálpebras. Olhos escancarados à beira de um despencar de suas órbitas. Muitas das vezes ponta da língua endurecida por entre lábios arroxeados. Ele permanece com a cabeça em meio aos seios murchos até adormecer, degustando o calor que acresce-se nele à medida que testemunha o lento gosto em sua boca dispersando-se. É o momento em que inunda-se de uma agradável sensação de sonho. Sucessivamente sempre essa mesma sensação. Apesar de; balbucia ao afastar-se da cama que aninha pedaço de carne fria. Caminha pela cidade, toma cerveja. Desperta aflorando-se em uma calma que lhe reluz consistência em meio ao quotidiano afora por dias e dias. Pelo menos até agora. Até poucos instantes antes do Sol descer. Invariavelmente não mais que quase dois meses. Neste período sempre acaba acreditando que o chamado enfim cessará. Definitivamente livre da energia que lhe fisga com arrogância. Chega a arquitetar planos de constituir família, comprar carro, convidar amigos pra jantar, voltar para a faculdade, reunir-se duas vezes por semana para jogar baralho. Nos dias em que a voz rebusca seu retorno ele adquiri uma inquietude que é facilmente detectada em seus gestos. Cedo ou tarde um dedo em riste ondula-lhe ordens com a ferocidade dos que desejam ardentemente extinguir a sede, o estômago retorcido de fome. Vem chegando em doses breves. Nunca como dessa vez, assim tão abrupto. Mas agora já está adquirindo a mansidão tão característica aos que desistem de lutar contra um alicerce que parece enxertar equilíbrio, embaçar aquele arranhão no peito que está presente tantas vezes quando se vê perante o inusitado. O diferente.
Levanta-se. Coloca uma música. Apara as unhas. Toma banho. Escova os dentes debaixo do chuveiro. Perfuma-se. Veste a camisa laranja. Penteia o cabelo. Toma dois copos de água gelada. Apaga o cigarro. Antes de sair olha-se no espelho da sala. Seu rosto está ali, mas é como se um outro alguém o enxergasse de frente. Não há carne por trás do sorriso. Ouve rastros cercando-lhe dentro do espelho oval. Empertiga-se. Ajeita o cabelo repetindo seu próprio nome e sai pela porta. Caminha com os passos. Haroldo.
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecer o lugar pela primeira vez."
(T.S.Elliot - Little gidding)
Nunca é longe
As pontadas de dor em seu fígado só não lhe incomodam muito por que o frio, debaixo da pedra, enquanto alguns soldados passam correndo pela trincheira, sem ter tempo de percebê-lo, é tão intenso que somente a ilusão de não morrer desse modo absolutamente imundo, apesar das promessas de honra, instiga-lhe abrir uma vez mais a única carta que sobrou depois que uma ou duas granadas foram jogadas em sua tenda. Matando todos que ali dormiam. Com exceção dele, pois sua bexiga sempre exigia-lhe levantar pelo menos três ou quatro vez durante a madrugada. Por ironia de alguma espécie de rumo, esta única carta é exatamente a primeira que recebera daquele que ele ainda persiste em querer lembrar como seu grande amor. Como se o olhar de ambos entrecruzando-se tivesse sido interrompido por uma parede exatamente a menos de uma semana atrás. Afinal não pode ser que já tenham se passado quase quinze anos. Parece que foi ontem. Antes que a razão lhe esfregue na cara a própria covardia que lhe calara cínico enquanto o outro aguardava um afeto de sua parte, tornara-se palpável inclusive um abraço que em verdade nem chegara a existir. Já que repetira-se repetira-se repetira-se durante estes últimos meses longe de casa, com a carta em seu sangue, que sua vida não poderia seguir sendo algo absolutamente solto assim ao léu, tão em vão, tão minúscula e insignificante. Por fim o próprio Universo defende-se dizendo que lugar de lixo é no lixo. Apesar do frio absurdo dessa madrugada e dos estrondos com riscos de luz, apesar de alguns companheiros dançando de braços abertos antes de caírem, e outros ameaçando enfiar uma bala no meio de seus olhos se ele não sair dali, agir mesmo que não possa mais sentir os pés, ainda degusta-se em deliciosa euforia e curiosidade o desdobrar das páginas da carta de amor. Seu cheiro realmente ainda está ali ou é apenas mais uma das estratégias da farsa? Assopra a sujeira como mais uma entre as artimanhas. Lendo-a, tudo em torno, apesar de permanecerem ali, não tem sequer a ousadia de incomodar o peso delicado de sua respiração. “Há tempos queria escrever uma carta de amor, mas as cartas de amor sempre me pareceram sem sentido e sempre quando as lia pela segunda ou terceira vez me pareciam estúpidas. Mas agora há a necessidade de escrever meu amor. Meu amor. Meu amor por alguém, meu amor que é terno e belo e talvez uma das poucas belezas neste mundo – que agora tem uma beleza diferente para mim. Me perco, com ele me perco, me acho. E dele veio um chorar mais belo e profundo, meu coração se acalma, minha mente borbulha. Não consigo dormir em outro lugar senão ao seu lado, todas as noites. É o amor. O amo como amo meu choro. E meu riso. Amor pela saudade e pelo calor. O amo e me alimento como que com Clarice e Caetano e Elis. O amo tanto que me entristeço porque está longe, mas quando está perto... O amo. Nunca é tarde. O amo, nunca é longe. O amo pq é presente. O amo pq não acaba, como esta carta de amor. Te amo.” Então, um pouco mais abaixo, nome e sobrenome. E já que não acaba. E já que nunca é longe. E já que nunca é tarde. Que este amor me dê certeza de que apesar de ter me comportado como lixo, não irei para o lixo; murmurou tão baixo que, com as explosões e os disparos, permanece somente a idéia do que gostaria de ter dito. Sim, por debaixo de suas unhas ainda se vê farpas de lixo. Ontem mesmo matou alguns homens e logo depois segurou os braços de uma mulher que um outro soldado penetrou com seu membro duro e grosso. Com uma brutalidade que só não incomoda tanto por que o rosto da mulher fora tapado com pedaços de coisas e cotovelos. “Lugar de lixo é no lixo”. Mas se ele foi capaz de despertar tanto amor, ele não poderia jamais ser um naco inútil. Certo? Foi um covarde. Foi? Admiti-lo parece diminuir consideravelmente a força do que brota das palavras. Silêncio capaz de acabar com a dor que tem adquirido a forma de todo o seu corpo. Dobra a carta com cuidado, colocando-a entre sua face e o chão de terra. Se a neve já levou seus dois pés descalços, bem que pode levar outras coisas. Os estrondos parecem dar uma trégua. Ou ele está morto? Quase pára de respirar por um momento, só pra ter certeza se ouviria a própria morte. Sorri. Sente-se tão inundado de felicidade que decide ser este o instante de beber os últimos goles do uísque e fumar enfim aquele cigarro. Não importando se seu fígado comece com suas mordidas. Já na terceira tragada a algazarra retorna a todo vapor. De súbito a terra treme com mais força e um soldado rola para dentro da vala, despencando com sua face bem encima da carta de amor. Breve. Absurdamente breve. Tão breve que certamente nem todo mundo teria sido capaz de perceber o brilho nos olhos do outro soldado. O tipo de faísca que se atrita quando sente que é inevitavelmente hora de sentir-se amado. Colam os lábios. Ambas salivas combinam-se escorrendo manchas nas duas páginas da carta de amor. Pequenas manchas encontrando-se e criando manchas maiores. As pontas das línguas se tocam. Apesar do outro soldado ter perdido um dos braços e grande parte do coro cabeludo e uma das orelhas, o outro soldado é quem morre primeiro. Só um deles continua tremendo de frio. Mas não por muito tempo. Os estrondos estão mais próximos. Tão perto que não pode mais ouvir. Nem mesmo respirar. Quanto mais busca ar, mais e mais um punhado de terra é socado pela garganta adentro. Terra arranhando-lhe globo ocular, enfiando-se pelas narinas, cutucando osso exposto. Soterrando os silêncios das palavras.
Silhueta no escuro
Só que dessa vez não era uma silhueta no escuro. São olhos completamente abertos. Sentiu o branco queimando, o sino pedindo pra palavra certa não ser ouvida com a sua capacidade inevitável de toque. Se ele permanecesse ali, teria que ficar em silêncio, olhando a luz com sua curva transpirando um belo nariz aquilino, com postura de rei, de mão que cura – com minha cura, também; repetiu ele com voz sem alcance no instante em que não foi possível manter o olhar. Atravessou portas com o coração na boca. Nem olhou para os rostos olhando-lhe pelas costas. A não ser quando, já no contorno do parque, distraindo-se com os edifícios, num sol da manhã, ouve a presença dele vindo pelas costas. Havia deixado seu nome no caderno aberto, na porta de entrada, com celular. Leonardo é o nome. Será que ele conseguirá se lembrar da dificuldade de um Aeglos? Quando chegou ao fim da curva do parque, entrou pela direita sem saber o caminho que deveria seguir. Sei lá - alguma coisa. Seguir enfrente. Hoje ele foi desequilibrado pela beleza. Calma, terna, quente. E o que é que há nesse raio de carne e cartilagem e nervos. Falando línguas. Por que Aeglos abaixou a cabeça e saiu dali antes que algo terminasse acontecendo? Como se saísse de dentro, bem devagar, tão devagar que, enquanto percorre-se por dentro, como uma agulha gorda e afiada, em direções aleatórias, a pele incha com a vontade de expulsar o que ainda, de tão devagar e esquivo, não pode ou não consegue sair. Ficou incomodado de permanecer parado olhando-o sem dizer absolutamente uma única palavra sequer. Apenas. Olhando. Alerta e em reverência. O olhar dele. O olhar dele era uma extensão de cada fiapo de seu corpo, solto, quieto, em movimento. Seus olhos plumas fechando-se num casulo abafando de frescor cada intenção de hálito. Assoprando tão perto. Perto. Tão perto que os resquícios quase apagados de algum segredo arcaico repousado numa dobra genética eriçou-se ao reconhecer um cheiro comum a ambos. Algum uivo de alegria ou de perigo. Cotidianos foram esquecidos, mas esse resquício permaneceu ali, despistando-se de seu fim ao planejar e executar a própria morte. Falsificando inclusive os documentos. Falsa morte. Um resquício tão distante que já não mais pode ser possível encontrá-lo; a não ser seu rastro informando-nos que por ali buscou algo. Que gancho de diamantes é este? Aproximando-nos assim. Fomos grandes amores do tipo que não se acredita atravessando séculos e um oceano inteiro, desejando-se com tamanha força que o calor alojou-se na fundura mais misteriosa de um gene? Até que então nossos segredos se chamaram – séculos depois. Já faz quase um dia que fomos cutucados e a memória dele continua deteriorando-se. Pedaços apagados pingando às avessas pelo de dentro da imagem desse pequeno grande deus. Com seu belo nariz de sobrevivente. Na medida mesma em que o restante segue-se contaminando-se, a fragrância se combina ao ambiente por onde ambos se olham. Desintegrando, com o tempo, as ramificações que conectam Aeglos à lembrança desse rosto. Ao fazer (quas`e)squecer, o tempo é uma estratégia de segurança ao que deve manter-se escondido - desconhecidamente necessário? Até que um dia, numa galeria de arte, absortos pelas cores misturadas, olhos úmidos de curiosidade, esbarram-se. Olham-se como se tivessem lembrado do vulcão devastando o vilarejo por onde, ao pé da oliveira, sentiram a mão lhes apertando bem juntos para que então aquele fogo permanecesse em torno. Mantendo-os aquecidos e vivos enquanto, em absoluto silêncio, sabem do segredo que não deve ser perturbado. Sim, a memória já está quase apagada. Mas não tenho mais o suor frenético de antes. Sei que ele está conspirando-nos pelo mais íntimo que me define. Eu; repete Aeglos enquanto caminha pela calçada. Andando sem o característico olhar afoito como se cada transeunte pudesse ser a chave. Desde o dia em que saíra do espelho, combinando Aurélio e Rastro, era assim que se comportava. Uma espécie de incomodo. Que agora parece se dissipar. Por isto sente um desgosto ao constatar que não mais reconhece seu rosto quando aperta olhos fechados. Apesar de. Apesar da certeza dos minúsculos riscos de fogo conspirando-os em algum íntimo aparentemente inexistente. No domingo tudo parece tão morto que fica mais fácil observar os prédios sujos e descascados. Estranhamente ele não se lembrava daquelas ruínas. Quem sabe é melhor voltar? Parado no meio da faixa de pedestres ele olha para o domingo que deixou para trás.
Com os passos
Quando a tarde vai pr'algum lugar. Escorrega nádegas e costas no banco de escuro azul duro. Vira-se aturdido para o assento vazio ao seu lado. O destrave em seu rosto é demasiado expressivo. Profundas rugas de tensão em torno da boca. Vontade me chama?; sussurra-se. Ruído veloz vindo do lado de fora do ônibus chacoalhando-se pelas esquinas abarrotadas de gente sincroniza-se com a insistente pergunta que lhe mergulha num mundo quase indizível. O semáforo avermelha-se bem no instante em que a última palavra enfia interrogação. Na fila de bancos da esquerda um rapaz olha-o com expressão de afronta. Imitando um rosto absorto com olhos parados, lábios despencados como que anunciando em breve e a qualquer instante um amontoado de saliva escorrendo. Lenta; seja lá qual for o canto da boca. Vem uma vontade imensa de acender um cigarro. Esfrega uma mão na outra olhando pela janela. A mulher ao lado, do outro lado do corredor, parece olhar em sua direção, mas os olhos dele fixam-se pelos riscos humanos que quase não deixam formas. Seus dedos ardem eletrificados. Fissura alarga-se dentro de seu corpo, anunciando uma tempestade que vem chegando de alguma distância. Neste rasgo fenda se desata.
O ônibus diminui a velocidade até parar. Uma senhora de bengala levanta-se e desce em passos curtos os três íngremes degraus. O que está acontecendo? Esse homem ali sentado no duro banco azul encardido fica atônito diante da vontade avassaladora que lhe infla potência. Ontem mesmo. Por Deus; afinal foi ontem mesmo que disse sim ao chamado. E novamente hoje a vontade já ordena-se presente? Não pode ser, não pode ser; repete. Repete tantas vezes que o eco dentro da cabeça se confunde com as repetições que bem agora permanece murmurando. Ele sempre tem uma trégua de no mínimo cinco semanas após as mortes. Foi ontem que ele afundou um pescoço e já hoje o ardor lhe assanha. Passa os dedos da mão no ante-braço direito, no arranhão que o braço esbaforido com acuadas mãos em garras expôs-lhe. Levanta-se com a esquisita sensação de que todos lhe observam. Desce os degraus tentando disfarçar sorrateiros gestos ofegantes. Enterra as mãos nos bolsos da calça. Não tem coragem de confirmar se as pessoas dentro do ônibus seguem-lhe com os olhos.
Atravessa o jardim com pressa febril. Destranca a porta atropelando a brecha que se abre. Vento agitado tinge rapidamente o céu de cinza. Ainda assim é visível a cor vermelho carne crua da cortina. Por um momento permanece encostado na parede, apertando a boca do estômago. Risca a sala indo direto para o quarto. Mergulha para dentro das cobertas tentando despistar o vulto que pula veloz de um canto escuro a outro. O desejo expande-se como nunca havia sido tão voraz. Ele pode quase tocá-lo, dentro e fora dele mesmo. Qualquer junção de palavras expulsando-se à tona parece insuficiente. Visão adocicada de naftalina escorre narinas adentro, avermelhando o sangue de frescor quente. Naco esponjoso incha. Estica. A única claridade é um pedaço da lua refugiando-se pelo chão ao pé da cama. O desespero, de início, esparrama-se agudo como a ponta de uma faca curiosa riscando-lhe os tímpanos, chamando-lhe pelo nome com uma doçura envolvente. É absolutamente inútil recusar-se à sedução da voz estendida em sua direção. Em torno. Sobressaindo-se de dentro de uma capa de escuridão. Sua pele inundada de suor, carne dolorida e a cabeça latejando essa imagem inusitada que se encorpa num abraço apertado. Cada vez mais e mais é difícil desvencilhar-se. É um corpo morto de tão intacto e quase mudo. Encolhido na cama. Suas mãos sedentas pelo atrito pegajoso, pelos lábios fugidios; enquanto que um outro lado seu tem as pálpebras apertadas grudadas no teto. Um presságio em sua respiração funda uma vez mais lhe sorri aqueles olhos elevados de catarata grunhindo horror tapado, aquele corpo flácido e enrugado em formato contorcido, aquele tremor atônito. Abraça-se debaixo do cobertor. Naco esponjoso lateja de tão duro. A vontade de afagar é demasiada imponente, a ponto de lhe ameaçar a própria respiração. Rende-se intacto. À medida que o tremor esvazia-se dele, o timbre que vinha vindo ao longe aloja-se ali, em doses homeopáticas. O característico aroma das idosas molha-lhe os lábios. Quanto mais aquelas coisinhas enrugadas afastam-no com suas mãos frágeis e manchadas, mais persistente é sua ânsia jogando-se para dentro de suas pernas moles. O prazer que sente a cada esvaziamento de forças da vítima atinge tal exuberância que por um instante acredita estender-se além picos celestes, atestando-se em um gosto intensamente vivo. Um prazer tão sublime que purifica-se de toda e qualquer culpa e susto perante o rosto retorcido, a ponto de quase apagar definitivamente qualquer traço humano. Mãos amarradas na cabeceira da cama. Pulsos brotando gotas avermelhadas. Quando a vitima atinge o momento em que parece ter desistido de se debater em fuga, carinhosamente, na medida em que aperta-lhe a garganta, penetra-lhe uma vez mais. Mordisca-lhe a pele, lambe-lhe o suor da face, das sobrancelhas, beija-lhe as pálpebras. Olhos escancarados à beira de um despencar de suas órbitas. Muitas das vezes ponta da língua endurecida por entre lábios arroxeados. Ele permanece com a cabeça em meio aos seios murchos até adormecer, degustando o calor que acresce-se nele à medida que testemunha o lento gosto em sua boca dispersando-se. É o momento em que inunda-se de uma agradável sensação de sonho. Sucessivamente sempre essa mesma sensação. Apesar de; balbucia ao afastar-se da cama que aninha pedaço de carne fria. Caminha pela cidade, toma cerveja. Desperta aflorando-se em uma calma que lhe reluz consistência em meio ao quotidiano afora por dias e dias. Pelo menos até agora. Até poucos instantes antes do Sol descer. Invariavelmente não mais que quase dois meses. Neste período sempre acaba acreditando que o chamado enfim cessará. Definitivamente livre da energia que lhe fisga com arrogância. Chega a arquitetar planos de constituir família, comprar carro, convidar amigos pra jantar, voltar para a faculdade, reunir-se duas vezes por semana para jogar baralho. Nos dias em que a voz rebusca seu retorno ele adquiri uma inquietude que é facilmente detectada em seus gestos. Cedo ou tarde um dedo em riste ondula-lhe ordens com a ferocidade dos que desejam ardentemente extinguir a sede, o estômago retorcido de fome. Vem chegando em doses breves. Nunca como dessa vez, assim tão abrupto. Mas agora já está adquirindo a mansidão tão característica aos que desistem de lutar contra um alicerce que parece enxertar equilíbrio, embaçar aquele arranhão no peito que está presente tantas vezes quando se vê perante o inusitado. O diferente.
Levanta-se. Coloca uma música. Apara as unhas. Toma banho. Escova os dentes debaixo do chuveiro. Perfuma-se. Veste a camisa laranja. Penteia o cabelo. Toma dois copos de água gelada. Apaga o cigarro. Antes de sair olha-se no espelho da sala. Seu rosto está ali, mas é como se um outro alguém o enxergasse de frente. Não há carne por trás do sorriso. Ouve rastros cercando-lhe dentro do espelho oval. Empertiga-se. Ajeita o cabelo repetindo seu próprio nome e sai pela porta. Caminha com os passos. Haroldo.
Em torno do quase
Não há Lua. Noite fria e escura. Mais tarde, na televisão, seria dito que desde a década de setenta não fazia tanto frio. Inclusive seria anunciado que em alguns pontos da cidade chegara a ameaçar uma espécie de neve. A cidade não está acostumada a tamanho negrume gélido - certamente não há outro motivo para este silêncio. Este - é que quase sempre jamais é assim. Dá até calafrio; pensa enquanto esfrega uma mão na outra. De súbito do escuro espesso mina um corpo curvo pendendo para frente. Desponta-se devagar e torto, brotando com dificuldade. Na medida em que vem na direção de Aeglos, desfaz-se pouco a pouco mais aconchegante. Ambos. Ainda uma silhueta quase confundida na noite. Quase desfeita de corpo. Distância sendo engolida pelos passos de ambos desata uma experiência interior à beira. Prestes. Mãos enfiadas nos bolsos. De uma pressa tão estranhamente idênticas. Tão absurdamente semelhantes, eles, que o desconforto aparentemente súbito proporciona alívio. Sangue alerta. Querendo algo além da vontade de despistarem o frio escuro nessa noite. Não ignora-se aconchego. Como se o afeto minado quando um diante do outro seja uma conseqüência tão inevitável como o é a Lua, hoje não vista, sendo arrastada pelo efeito provocado pelo giro que a Terra pesa. Olham-se visivelmente assustados, rijos como se a qualquer instante pudessem pular um no outro. Punhos cerrados. Ou fugirem pro escuro, correndo esbaforidos e com o tipo de potência que nem mesmo sabem-se capazes. Têm o mesmo rosto, mesma marca no início da sobrancelha direita, cabelo em desalinho, dedo indicador dobrando-se de modo bem específico. Mesmas vestes. Olham-se longamente, arriscando. Encaram-se mais tranqüilos antes de um abraço. Apertado. De uma distância que não parece física. O ambiente dobra-se sobre eles, habitando-lhes de estranheza familiar. Receia perguntar-lhe o nome, apesar da imensa curiosidade. Há um certo nada, uma espécie de vazio. Batidas cardíacas acompanham-se. Uníssonos. Só não absolutamente iguais porque uma fenda rompe o círculo. Círculo que só não é perfeito como círculo porque empena-se espiral. Ainda que à imagem e semelhança um do outro, ali, algo os desloca. Despregam-se ainda que ainda tão penetrantes no abraço. Algo os incita desprenderem-se. Só para que então permaneçam-se, ao olharem-se, identificando-se. Curiosos. Escapam-se um do outro sem que o instante perca-lhes do calor que os aquece na perspectiva inegavelmente palpável do braço. Cabeças afastadas dando espaço para que a noite aperta-se entre seus corpos juntos, esforçando-se para que o escuro entre eles adquira-se cada vez mais e mais gordo. Enquanto cada um habita cada início de extremo desse escuro, imagens inusitadas confundem-se ali. Não quer exigir demais. Não quer exigir que sua mãe, aquela de cabelo vermelho que olha pela janela enquanto tochas aproximam-se esparramando enxofre, ou não sabe exigir aquilo que sua mãe nem sabe reconhecer. É que quando ela percebeu que sua barriga estufava sinais de vida, ela então desejou-se além, enfim ser mais do que poderia ser. Assim - ela acreditou que por poder criar uma coisa viva dentro ela, poderia sim pouco a pouco ser mais do que ela própria era. À espera de que o outro contribuísse para seu cultivo. É como se o outro, olhando-o pelo canto dos olhos, como ele próprio, tivesse por esse momento pensado o mesmo que acabara de lembrar. Foi quando, no mais quente do abraço, tão junto que é como se não houvesse linha divisória, acreditaram-se diferentes. Apesar de.
Desalinho nos cabelos segue o rumo dos ventos.
Beijam-se. No abraço os rostos foram se apertando, sentindo vontade de continuar escorregando até que os lábios se tocaram. Há calor, saliva, língua. Ainda com todo o quente molhado, bocas não se encostam. São como que um dos dois enfrente ao espelho? Ainda que se toque a imagem, ali, há o espelho. Apenas um? Mas há. Esse germe serpenteando-se por dentro. O vento torna-os quase visivelmente ariscos. Esforçando-se serenos. Afastam-se sem tirar os olhos do cabelo um do outro. De mãos dadas. A dança que o cabelo faz é igualmente a mesma em ambos? Olham-se como que de frente para o espelho ou olhando algum alguém? Outro? Cabelos tomam rumos que ventos tocam. Cada qual ocupando sua específica posição. Ali, no frio, eles não se esclarecem. Tensão escoa-se por entre eles. Algo que os quer juntos apesar da espécie de reta pela qual seguiam-se - Chamando. Empenando-se. Olham-se bem numa espécie de meio fugidio dos olhos. Algo cutuca umidade. Que pode ser interrompida se desviarem o olhar. Mas não. Insistem. Hesitam-se ainda que de mãos dadas. Torna-se forte de súbito a vontade de ar e luz. Desatam-se. Intersecção os atrita calor. Continuam-se pelo caminho sem olhar para trás. Tensão permanece. Fiapo de Sol destrava. Atravessa vão entre edifícios e cai ali. Neles. Ambos de costas um para o outro. Estacam-se sem os passos de agora, bem agora mesmo antes do Sol. Retornam-se num giro sereno, com a extravagante sensação supostamente ofegante de verem-se assim que se olharem. Aproximam-se ouvindo-se. Vamos ensaiar-nos. Respiram fundo, aquecendo-se no hálito. Noite ressoa-se pelas curvas. Pelo silêncio que olhos tocam. Ensaiando-se - juntos. Fecham os olhos, degustando a delícia de ao abri-los verem-se muito além do delírio com cheiro e suor. Na medida em que se aproximam, Sol apaga-se. Deve ser alta hora da madrugada, pois o frio intensifica-se. Bocas não se encostam. Até quando há como negar? Afinal, cabelos tomam rumos que ventos tocam. Aeglos está frágil. Quanto mais torna-se difícil respirar, mais e mais o corpo esfacela-se num lento desaparecimento. Arrastando consigo a umidade que agora Aeglos confunde com sua própria. Rastro do estranho é rasgo no escuro. Confuso. Difícil conseguir distinguir essa fresta. As luzes da rua e das casas também não funcionam. Abaixa os olhos enquanto seu corpo anuncia um tremor que depois de começar parece não ter como desatar - ao menos não com o tempo necessário à tua carne. É agora?; indaga surpreso e ansioso. Prende a respiração, à espera. Olhos não piscam. Salta menos de um passo para dentro da fundura. Sente que há o instante exato de mergulhar ali. Quase engasga. Antes de pousar o pé, flutuando pelo escuro, pode-se enfim ver um pingo de lapso de luz moldado no corpo que bem agora a pouco estava aqui. Então, antes de pisar no chão Aeglos já sabe em que direção ir. Grita e o reflexo parece não ouvir. Idiota. Nem mesmo o nome; insiste numa voz arranhada, quase irada. Depois que o dia nascer, nos meios de comunicação, além da neve, falar-se-ão também de um vírus que tem deixado as autoridades de prontidão. A cidade manterá o silêncio que surgiu com a noite, mesmo depois desse Sol forte.
Se fosse antes, antes de morrer, Aeglos jamais lembraria. Não com essa vivacidade, de uma tal expressividade que a sensação de que tudo ocorreu realmente permanece como um cheiro. Sabor de comida aos domingos; acrescenta olhando o teto. Nu. Estica as pernas bocejando. Derruba o último pedaço de coberta no chão. Antes Aeglos ressuscitava toda manhã. "Não se chora em seu próprio funeral", lembra de repente sem saber de onde já ouvira isso. Agora coisas minam do escuro. Pela janela aberta a Lua entra. Soergue-se na cama pisando no chão. Fica um tempo assim, olhando a Lua em seu pé. Caminha até a janela e finalmente vê aquilo que antes não estava ali. Cabelos tomam rumos que ventos tocam. Não consegue mais saber dos detalhes naquele rosto do outro. Ainda que demasiado idênticos, ainda que de uma similaridade incontestável, esquece do seu rosto. Um diante do outro querendo saber qual deles é o original. Um deles sabe que quando o outro deixa um recado, uma mensagem no celular e ele não responde, é porque lá no fundo, lá no fundo tem mesmo é receio da rejeição que na intimidade virá. É uma agonia. É uma luta. Virá esse hábito de perder o corpo depois que o ganha? Mas. É como se fosse um imã sugando. É que parar de respirar é difícil. Vento forte joga seu cabelo para trás e para a esquerda. Aquece-se num abraço, tentando espantar o frio que a janela aberta flagra. No caminho para a cama sorri lembrando a manhã. Uma força vence dentro dele, à espreita. Deita buscando o jeito mais quente debaixo da coberta.
Cada passo é um pedaço
O menino finalmente abre os olhos. Vê-se como se estivesse dentro de uma bolha transparente delicada e fosca, procurando meio que sonâmbulo rompê-la. Do outro lado ele constata-se pálido por não poder se mover. Por fim o menino de pés descalços consegue se levantar. Esfregando os olhos e ainda assim atento aos seus passos, acende a luz. Abre a porta com cuidado e de cabeça baixa observa o quarto com falsa distração; fecha-a com tamanha delicadeza que o clic da porta permanece tinindo dentro da cabeça.
No meio da sala observa a árvore de natal com tensão palpitante. Cuidadosamente empertigada no canto ao lado da janela, com seu tronco estranhamente fino e retilíneo, de ramificações esverdeadas e opacas, a árvore estabelece-se com artificialidade. O menino admira seu vigor. Aproxima-se de corpo inclinado para frente e com braços jogados ao léu, como se caísse de cabeça no assoalho. De perto observa os pacotes coloridos espalhados ao pé da árvore; imagina qual deles seria o seu e se realmente entenderam o seu pedido. Desalinha na bola de natal a careta que seu irmão abomina; seu reflexo distorce-se além absurdo, nariz gordo, cílios esticados, olhos ainda mais faiscantes. Imagina-o se contorcendo e berrando de raiva e se vê contendo uma saltitante gargalhada.
Poucas bolas de natal. Divididas em duas cores, dependuram-se em um vermelho rubro e um amarelo ouro que não lhe é muito familiar. Lá encima um anjinho todo estático, prateado, de braços abertos como se fosse uma estrela, sempre pronto a mergulhar no que deveria ser um buraco fundo demais. Só o homem grande de mãos enormes fora capaz de colocá-lo no topo da árvore. Esse menino, de pernas tão finas e mãos tão minúsculas, sonhava em se tornar gigante para um dia poder pegar aquele anjo lá das alturas.
Recua em sobressalto refugiando-se embaixo de um dos galhos. Ouve vozes familiares - de sua mãe e de seu pai. Falam pouco, meio que sussurrando. Esquiva-se pé ante pé pela sala e pela penumbra do corredor. Encontram-se na cozinha. Silêncio; apenas seu coração estremecendo-se de curiosidade. Não é necessário enfiar a cabeça pela passagem da porta entreaberta para vê-los sentados à mesa. Garrafa quase pela metade, pratos sujos, vela brilhando, taças úmidas. Os dois se olhando, desviando o olhar e sorrindo. Não abrem a boca para sorrir, apenas as bochechas levantam-se meio que descambadas e depois murmuram suspiros hesitantes, um após o outro. Dizem coisas. O pai com os cotovelos e os braços jogados sobre a mesa, a mãe com uma mão solta sobre a perna e a outra apertando um pedaço de gordura com a ponta do garfo.
Eles parecem estar brincando. Uma espécie de jogo que o menino não desconhece de todo. Recordou-se de seus brinquedos, aqueles que já haviam perdido a graça e que insiste em guardar e dissimular esquecer para depois brincar com euforia e êxtase. Amanhã será o grande dia. Desfigurará o embrulho até chegar ao brinquedo, pela primeira vez. O tremor é de uma voltagem que considera única. Tem até o habito de prolongar a abertura do presente pelo máximo de tempo que seu desejo suportar. Uma ânsia de beber água aperta-lhe a garganta. Esse gosto seco na boca surge todas as vezes que decide desbravar o sussurro da madrugada. Cada passo é um pedaço subterrâneo que quase petrifica-lhe de medo. Mas não poderia entrar na cozinha, interrompê-los no meio da garrafa, bagunçando a brincadeira. Seriam berros com arregalados olhos. Não é hora de estar acordado.
Fica ali bem quieto. Os dois também não se movem. De alguma forma ele também participa do jogo, levantando as bochechas quando é o momento certo e mergulha no transe dos olhares enlaçando-se. Lança-se com tamanha profundidade na cena que é como se nada mais existisse à sua frente. Concentra-se em sua própria respiração como se ela nem sequer existisse. Sente o ar quente de seus pais invadindo-lhe a traquéia, ativando em seu corpo um calor intensamente veloz. Um ardor inusitado espalha-se pelo seu corpo pequeno, partindo em infinitas peças de um quebra-cabeça o mais doce e fundo daquilo que ainda não sabe sentir. Seus músculos dilatam-se involuntariamente. Minúsculas veias exorbitam-se em um ato exibicionista e vigoroso. A mulher empurra-se para longe da mesa num movimento brusco. Bóia um pouco. Reúne os pratos dando a impressão de que lavar a sujeira grudada na louça é o passo seguinte. O homem apaga o brilho da vela. Vai até ela, que anda da mesa para a pia, da pia para a mesa. Toca-lhe as ancas, apertando-se contra suas nádegas. O menino corre para a árvore. De súbito encara atônito seu rosto ora vermelho ora amarelo, nas bolas de natal. Curva-se com rapidez e agarra uma entre as caixas embaixo da árvore. Escapole arrastando-a pela sala. Pensando porque é que sempre que vai dormir não existe nenhum presente ali, mas todas as vezes que acorda de madrugada, os embrulhos estão todos esparramados. Ali. Apaga a luz quando entra no quarto. Com o coração pulando dentro dos ouvidos enfia-se pelo escuro. Ouvindo também o papel de presente se enrugando. Empurra a caixa para o meio da cama. Depois sobe.
Dorme abraçando-a com força miúda.
Magnólia
Quando lhe perguntaram o nome ela estava na frente da TV. Disse sem pestanejar que era LG, afirmando logo em seguida que qualquer dia desses poderia ser outro. Tudo dependeria da promessa de sua patroa, onde sua remuneração seria ratificada depois de intensificada reavaliação. Trabalha com uma envergadura robusta nas costas. Mãos grossas para que se comprove a coragem de suas atitudes braçais; certa de que isto está sendo contabilizado nos autos que confirmarão sua recompensa.
Uma de suas características mais exaltadas é jamais abrir a boca em público, no ponto de ônibus, enquanto acompanha a patroa no shopping, até mesmo na igreja. Observa as pessoas com curiosidade, jamais sem deixar à mostra gengivas de lábios largamente sorridentes. É verdade que ela não retruca quando seu homem bate-lhe na cara com a ponta de seu cotovelo, forçando-lhe a enrugar-se de boca fechada. Ainda assim, jura de pés juntos uma das testemunhas, vê-se um contorno de bochechas satisfeitas, como quem guarda em segredo a pétala seca do buquê de flores que a amiga recebera no dia dos namorados.
Ela não tem filhos, nunca fizera exame médico ou sentira dor de cabeça ou tomara anticoncepcional; está convicta de que se trata de castigo Divino. Abaixa a cabeça ao discorrer sobre uma época de menina em que enfiara os dedos em sua vagina esfregando-a como se aperta massa de pão-de-queijo. Foi um susto, sua mãe bateu-lhe na cara, nos dedinhos e mais na cara antes mesmo que pudesse sentir o fim da fragrância cavernosa. Deus a salvou do fogo eterno. Sorri com firmeza na espinha ao dizer que jamais trai a mão que lhe mostra o caminho.
Seu homem acabara de lhe dar um safanão dizendo para se afastar; Êta fedô do cão. Tinha acabado de acordar. Confessou que não sabia por que passara a noite inteira sonhando consigo mesma pegando fogo; o sinistro é que não se queimava, mas as chamas continuavam se espalhando e ela pulando feito doida. Seu homem riu tanto que em agradecimento enraba-lhe o traseiro avantajado. Ah, ela não sabe gemer, fica contanto de um a sete e recomeça quantas vezes sejam necessárias. Há ocasiões em que pára no número dois, outras vezes no cinco, acha estranho nunca terminar no número seis. Seria algum sinal de Deus? Sorri uma vez ou outra quando ele, antes de dar-lhe socos nas costas e grunhir feito um animal, a chama de vagabunda. Como é que ele sabe que é exatamente assim que seu pai dizia ao entrar em seu quarto? Muitos sinais demonstram a conexão íntima e infalível afirmando-o como o homem de sua vida.
Ela tem paixão por plantas, permanece horas sentada no banco defronte ao prédio da patroa, estupefata com as alturas das árvores e com a diversidade de verdes e mais cores. Não pode negar que dependendo da posição do sol a paisagem torna-se por vezes radiante e em outras, quando as sombras se dramatizam na grama, pressente um calafrio que lhe instiga levantar os pés do chão. Foi em um desses rituais de observação, durante uma tarde inteira chuvosa, que sua patroa, após insistentes chamados para que retornasse ao apartamento, sem contar que era terça-feira e que havia muita roupa para passar e lavar, contactou a Administração de Controle relatando as atitudes daquela mulher e os motivos pelos quais ela deveria ser levada a interrogatório. Homens engravatados, com luvas e capas de chuva permaneceram distantes observando-a atenciosamente, fotografando e fazendo anotações. Discutiram o assunto entre si e só então se aproximaram. Não houve resistência quando o homem de cabelos loiros encaracolados pediu-lhe que os acompanhasse. Ela sorriu, acenou para a patroa e para os vizinhos que se encontravam empoleirados nas janelas e os acompanhou. Um deles é de uma gentileza estrondosa, possui olhos verdes, cabelos lisos encaracolados e grandes mãos que fecharam-se nas dela durante todo o percurso da viagem.
Levaram-na para um cômodo sem janela e sem móveis.
Perguntaram-lhe o nome de batismo; Batista é meu marido, eu sou Magnólia. Eles transmitem tamanho vigor em seus questionamentos, no balé de seus movimentos, na entonação de suas vozes que ela decide se calar, ouvindo-os com respeito e deslumbramento. Então?; pergunta o anjo espalmando as mãos na parede, com o rosto bem próximo, frente a frente ao seu. Ela avermelha-se toda inusitada. Abaixa a cabeça e pede desculpas; será que a patroa descobriu que um de seus filhos gosta de socar a carne dura do meio de suas pernas em sua boca? Mas como, afinal o menino sempre lhe pede que não conte pra ninguém. E além do mais ele fica tão feliz que a patroa não iria se importar. Ou será que tem algo haver com aquele pedaço de rocambole que ela devorou de uma só vez. Não havia ninguém no apartamento, todos já haviam se degustado de um café da manhã que cheirava bem demais. Bebeu de olhos bem abertos a última metade de um copo com suco da própria laranja que umedeceu os pedaços de rocambole grudados na goela. Rocambole, êta nome estrambólico. Sentada à mesa imitava a patroa em seus trejeitos, repetindo a estranha palavra em meio às gargalhadas retorcidas. Magnólia chora. Tapa o rosto com as duas mãos, deixando em evidência inflamações que por anos seguidos carcome-lhe os dedos ao redor das unhas. Pede desculpas quando percebe que seu cheiro fede - é que aqueles homens ali cheiram perfumes tão gostosos que ficou evidente o seu cheiro de coisa azeda. Mais uma vez pede desculpas.
O anjo puxa seus cabelos envergando-lhe o corpo. Seu joelho acerta-lhe a face bem encima do nariz. Ela cai de joelhos engolindo golfadas de sangue. Os outros enchem-na de pontapés. Sapatos de bico quadrado atingindo-lhe seios, barriga, costelas, coxas, testa, dentes, orelhas. Pisam-lhe pés, mãos, joelhos, cotovelos. Anjo levanta-a pelo pescoço mordendo-a nos lábios. Suas vestes são retiradas com a mesma rapidez que lhe forçam a rachadura entre as pernas, um após o outro. Todos com camisinha e a expressão facial de funcionários que são obrigados a fazer o serviço pelo qual são pagos. Cospem em seu umbigo e saem. Magnólia não ouve a porta se fechando. Balbucia números dentro de sua cabeça; mesmo depois de horas estirada no chão movediço ainda não sabe quando parar. Uma coisa ela aprendeu, aprendeu a gemer. Quando decidiram desgrudá-la do rubro mar coagulado surgiu um grito vindo de dentro que foi além sua própria percepção. Ficou ali, mole, observando a si própria emitindo um som que não estancava, afinando-se insistentemente em uma eloqüente falta de cumplicidade entre ela e ela mesma. Na verdade, pensa enquanto a carregam, nunca foi capaz de vestir-se e esticar-se insinuante, feliz em caminhar enquanto os outros olham-na. Deve ser por isso que enfiaram-se assim, afundando-me com os punhos e os dentes, para dentro. Não há dúvida de que sempre fora um bicho estranho, sem o poder de disfarçar espantos nas caras das pessoas.
Despejaram-na sobre a vegetação enfrente ao prédio de sua patroa. A noite cai lentamente. Dispersa sobre a grama verde ela sorri quando folhas escorregam pela sua face. Vento sacudindo galhos que tremulam sombras por debaixo da imensa brancura da lua. De repente, para sobressalto de alguns poucos entre os que por ali transitam, uma intensa luz racha a lua ao meio e pousa sobre o corpo de Magnólia. Raízes rompem o limite terreno, rastejantes em busca da mulher apodrecida e viva. Ainda viva, ainda viva!, grunhem quebradiços os minúsculos insetos curvando-se antes de destacar-lhe o véu dos olhos, a unha dos dedos, os fios de cabelo, os bicos dos seios, o macio dentro das narinas. Sob ela o solo se abre em poros. Germes arreganham-se eufóricos. Mas antes. Antes que seus lábios inchem, meio que sorrateiro, do escuro frio mina um homem. Sem perceber que um pedaço de Magnólia ainda permanece pelo lado de fora, todo cambaleante, retira o pinto e mija. Nela. Arrota e depois vomita em seu rosto. Líquido espumando frenesi afoga globo ocular. Pela primeira vez ela sente que seu cheiro é outro bem melhor que o de antes. Com preguiça Magnólia combina-se pela terra úmida.
Pedaços invisíveis
I
Enquanto sobe pela escada rolante Helena não sabe exatamente aonde ir. Quase enfia a ponta do sapato no último degrau comprimido. Segue pelo fluxo de luzes e vitrines, contornando e sendo contornada por pessoas. Seu rosto estampa uma expressão arqueada de mulher vaidosa, bem cuidada, cabelo sedoso, caminhando maleável e envolvente pelo assoalho aparentemente escorregadio. Por pouco não desaba e deixa bem evidente a perplexidade em que se encontra. Enfia o dedo embaixo da alça, ajeitando a bolsa no ombro. Disfarça-se de envolvida e atenta diante da vitrine de uma livraria. Apertando-se entre os seios com cuidado, com a cautela dos que enfiam dedos dentro de um vão de carne fermentando germes sedentos. Mapeando o ponto de pele mais próximo ao salto cardíaco. Aquela localização onde se acredita quase tocar o coração. Teria que arrancar os seios. Mas antes de cavoucar as unhas pela carne tomaria um daqueles comprimidos que desloca-lhe de tudo o que lhe arde as rótulas e os nervos. Mas nem dormir parece escapulir-lhe do redemoinho apertando-lhe por dentro, espetando-lhe impostura. Que ela despista em movimentos quase bruscos. Será que fizera as escolhas erradas? Será que sofre de uma realidade irreal? Irreal no sentido de que o tempo a tornara obsoleta. As perguntas que faz são quase como que pontadas submergidas de inconsciência. É tudo tão surpreendente; diz Helena olhando-se no reflexo gasto com uma expressão que é quase tormenta. Tormenta esquivando-se submersa pela paisagem serena. Helena estranha seus próprios olhos quase desaparecidos. Armando. Armando. O ato de ser mãe preencheu-lhe de uma certeza de autonomia que ela, hipnotizada, regozijante, nem percebeu ser um embuste. Estúpida; balbucia. Socada pela carne daquele estranho que lhe trouxe o estranho. Morde a ponta da língua com ódio de seu orgulho. A vontade de gritar é tão incontrolável que a única solução é entupir-se de sangue destravado, espalhando-se por todos os vãos e frestas. Tem a sensação repentina de estar por tempo demais plantada ali. Move a cabeça e o titulo bem à sua frente incomoda-lhe: AIDS & humor – charges. Enerva-se.
Helena atravessa-se para dentro da livraria. No balcão pede um café com creme. Desliga o celular enquanto não vem. A garçonete desbotada com brilho suado no rosto não a olha nos olhos. Na verdade não olha ninguém acima do queixo. Recorda-se de uma de suas alunas, sempre olhando onde ninguém parece olhar, ruiva em seu canto quieto. Sacode a cabeça. Paga o café antes que ele chegue e caminha entre os livros. Caminha sem muitos movimentos. Uma criança cutuca-lhe a perna perguntando onde estão os livros de criança. Olha ao redor e aponta. Criança aflita, minúscula em meio às enormes estantes, o teto altíssimo, as cabeças olhando-lhe lá de cima. Imagens aparentemente abstratas, recortadas em cores laranjas e verde musgo; uma espécie de junção de linhas quase reconhecíveis e letras negras esboçam-lhe um chamado, não na prateleira, mas nas mãos de um homem estranhamente recurvado um pouco ao fundo da livraria, quase que fora do alcance de sua visão. O livro aberto iluminando-lhe a face de homem. Grandes mãos, braços fortes. Uma curiosidade incomum apossa-se de Helena. Sem pressa olha. Distrai-se pelos mais vendidos com olhos atentos às mãos do homem segurando o livro com força. Cobiça a vontade de segurar algo assim. Um apelo incontrolável que ela quer. Sua face ergue-se de súbito na direção de Helena. Despista-se abrupta pelo entorno, incontrolável, esticando o braço. Alça um livro qualquer ordenado na prateleira ‘estrangeiros’, abrindo-lhe ao léu. Põe-se a ler a primeira frase que desprende-se aos olhos: ‘Quem não morre antes de morrer, está arruinado quando morre’. Um solavanco automático retorna-lhe ao início da frase repetidas vezes, seguindo-se do fim ao começo da sentença obsessivamente, descontroladamente como se não soubesse como parar. Finca-se ali como um disco furado. Ancora-se nas palavras, no ritmo que exala do atrito entre elas inchando-lhe a cabeça de um peso que curva o pescoço. Estática e trêmula. Seu cérebro ordena que todo e qualquer nutriente e oxigênio devam incondicionalmente ser desviados para seus entremeios cefálicos iscados pelo odor daquelas palavras. Naquelas palavras.
Rosto pasmo. Aromas em ganchos submergindo de algum tipo de obscuridade pegajosa tragando-lhe para longe do equilíbrio iluminado de claridade exalada pelo amontoado de corpos. Sente uma pontada cortante na área uterina. Contrai a boca. O alto falante toca uma música que soa quase reconhecível, ao longe; tão perto e ainda assim esvaecendo-se ao longe. Alguém movimenta-se próximo, bem junto, enfiando-lhe o cotovelo; seu corpo já em tormenta desarticula-se do livro que despenca. Helena acrescenta um gemido pálido ao baque do papel duro no chão. Na capa estendida para cima lê o nome Jacob em voz alta. Um braço cortina-lhe a visão. Seus olhos acompanham o livro sendo alçado. Um homem estendido bem diante dela, com as mãos fechando o livro. Posso ajudá-la?; acrescenta ao seu espanto. Helena aturdida, zonza, à beira do inexpressivo com a acuidade repentina da percepção sendo martelada pela precisão aguda dos cheiros, sons, deslocamentos de corpos. As palavras percorrendo-lhe no compasso das pancadas cardíacas. Num gesto rápido o homem coloca o livro na prateleira segunrando-lhe antes de cair. Preciso beber algo; diz com dificuldade. Helena arrasta-se dali apoiada nos ombros do homem, enganchando os pés moles pelo chão. Antes de cruzar a porta de entrada brota-lhe a ânsia de voltar, fervilhante, em perseguição ao fugidio aroma iscando-lhe às entrelinhas daquelas palavras ainda repercutindo comando – que, na medida em que não obtém resposta, alucina-se.
Ela até que suportaria mais um lance de escada rolante, não mais que este, um apenas, mas se não sentar agora, de imediato, sei lá, algo estranho pode acontecer; um berro de descontrole, um puta-que-pariu à postura. Um uivo estridente. Meu Deus eu estou quase morta de medo. Sua mente rodopiando. Recurva-se sobre a mesa. Destoada, angustiada de náusea. As palavras ainda coladas na sua dicção sussurrada, na tela distante de sua mente, cutucando-lhe. O homem lhe toca. Oferece-lhe uma garrafa d’água, um copo. As palavras vão sendo varridas para longe. Ainda permanece um eco, apenas um eco arranhando. Helena respira fundo e mais fundo e mais fundo. A água vacilando-se garganta adentro aflora-lhe uma sensação que lhe arrepia famintos tentáculos de pulsação; os músculos da face, ao redor dos olhos, descontraem-se numa espécie de ritual de louvor à umidade. O homem sorri um quase susto à espreita de uma alegria. É que o dia continua oferecendo-se tão vasto de possibilidades; diz Helena de repente.
Ainda é começo de noite. O homem toca-lhe a mão. Helena reergue-se, despista-se da respiração entre as palavras. Jacob; murmura. Aperta os olhos e balança a cabeça. Num gesto rápido abre a bolsa. O homem toca seu cotovelo, quase de leve, quase um empurrão. Helena de súbito dá-se conta do homem sentado à sua frente. Espalma as mãos sobre a mesa; a da direita bem próxima aos pêlos de seu antebraço. Vem-lhe a lembrança do vigor com que segurava o livro. As nervuras apanham, acatam o tênue chamado da veia que lateja. Sorri quase infantil, como se a obsessão de sílabas fincadas umas nas outras pela força da atração imponente espantasse-se vigorosa. Seus olhos congestionados vêem o homem ainda mais. Quase sorri; afrouxa a gravata. A voz que deslocara-lhe vertigem pelos músculos dispersa-se na mesma proporção em que os sons da área de alimentação devolvem-lhe consistência às imagens em torno. Mantêm-se em silêncio - até rompê-lo. Meu nome é Haroldo. Helena. Olham-se com o escândalo de um encontro mudo, faiscados por algum peso que o encontro entre eles curva, prestes a se desviarem de um incômodo movimentando-se pelo intervalo atiçado entre seus olhares; atados um pelo outro numa aproximação que apesar do calor acrescendo-os bem de perto de perto de perto, ainda assim uma espera alargada exige-lhes encontrar palavras, palavras interrompidas, coisas ditas que não lhes fermentem desatenta ansiedade articulando-os em esbaforidos quotidianos de ressonâncias preguiçosas e frias. Gastas. Haroldo desata de vez a gravata verde musgo, colocando-a sobre a mesa. Ousam-se numa ininterrupta espera renovada - olhos nos olhos. Há uma fundura nas palavras de Jacob que encaixam-se com alta perfeição nos lábios fechados do homem à sua frente. As palavras intensificam-se acesas apesar do escuro tapado que as engole. Sinta-me viva. Mas ela pensou em dizer faça-me viva. O odor das entrelinhas continua enterrando-se por caminhos subterrâneos. Jorrando com força em outras palavras. Olham-se quase enlouquecidos. Cada instante de silêncio depois da vontade de falar é um acumulo de anos. Algum germe exibe sem pudor o dom de sua autonomia; ao menos a vontade irrepreensível de lembrar. O esquecimento como impulso fervilhando dentro de seu ventre ausente. É isso. O inaudito em Helena é essa morte de tão seca, mergulhada para dentro de si. Interrompe antes de recuperar-se num sorriso agradecido ao estranho. Quer saber? Helena destrava-se enfim arqueada. Enfim? A nossa visão da morte chega tarde da noite porque o prazer pode ser a morte do outro. Haroldo enfia a cara mais perto de Helena, dizendo. A vida é o preço que se paga para esquecer as ramificações do medo da morte. A morte em vida que uma mulher de quarenta e cinco anos, assim, seca por dentro, tem. Helena? Encantados. Ela não consegue falar ainda o inaudito; e quando quase o diz vem essa mulher selvagem, olhando pelos cantos dos olhos com vontade de machucar e lamber os beiços, a ferida. Porque não? Mas tem que ser com alguém que não tenha medo de vermes; curva a cabeça e quase sorri, quase mesmo.
Não está mais turva apoiando-se no encosto da cadeira. Família. Quer saber? Família pode até ser algo que possa ser claramente essencial, mas família é esse bando de testemunhas caladas que não sabem o que fazer de si próprios e ficam ruminando-se uns nos outros para confirmarem-se que a escolha feita é a cara que não apenas vêem quando escovam os dentes – olhando a água escorrendo pelo ralo. Despistam-se da barbárie com a incredulidade lubrificando esse jogo de comparsas; complementa Haroldo. Somos essas merdinhas agonientas inventando descaminhos que nos apagam. Acendendo-nos. Calam-se desconfiados. Há uma espera que quer ser eterna enquanto dure o deserto entre eles. Entre os olhos d’água exibindo sedução, estendidos, há vulto respingando umidade imposta querendo expulsar palavras quaisquer pelas gargantas amaciando-lhes as mandíbulas enfiadas e duras. Haroldo também bebe água. Ainda que apagados alguma coisa se acende! Ainda que não ao alcance das mãos. Por isso falamos tão infantis?; parecem dizer. Olham-se surpreendidos por um barulho de trinco se fechando. Haroldo lembrou-se das armadilhas para rato que sua mãe espalhava debaixo da pia, pelas dobras, na curva escura da cortina vermelho carne. Que estado é este em que tudo soa besta? Veio-lhe a sensação de Armando trincando-se pelo ventre. Veio-lhe a sensação do calor debaixo das cobertas. Por onde anda paixão? Apesar de. Quero água com gás, alguma coisa para você? Tomo com você, eu pego. Não. Entre a garrafa de água que daqui a pouco coloco na mesa e o viro-te as costas é um mundo que arrepia-me asco. Fico arredia nas interrupções. E que tal se nos esquecêssemos de uma vez por todas? E se aqui e agora começássemos uma vida silenciosa? Só em ruídos com o que for inevitável. Helena passa a mão pelo ventre e sorri triste. O homem quieto, escutando, parece tão vencido. Mas é mentira, vira-se abrupta levantando. Cada pancada do salto alto é uma vontade de acreditar combatendo-se com repulsa.
É um descomeço; diz Helena enquanto enche os copos. Bebem. É quando se olham de volta que Helena chora. Chora até bem depois parar. Não quero saber de nada, por enquanto; pois sei que o que me faz ser até hoje irá voltar com força. Vamos. Estamos. Qual de nós dois irá doer menos? Helena fica com tanto medo do que acabou de dizer. Pode ser que amanhã este capítulo de nossas vidas seja apagado. Mas é isso que eu não quero mais. Eu só não sei se meus olhos já estão abertos. Abertos ou não será que algo é diferente? Apenas me use. É isso, apenas me use. Dê-me o seu prazer. Não queira adivinhar o que eu gosto, apenas me pegue e me afunde seu prazer. Eu me abro enquanto afundo-te o meu. Meu útero seria minha vingança. Meu útero seria minha vingança. Seria. Nem me importaria em saber que os dentes da coisinha miúda se tornariam fortes para que eu não presenciasse os jatos ácidos ruindo-me num tombo bem devagar. Já não mais teria tempo para ter que discordar da farsa. Ter?; Haroldo enfia os dedos entre os cabelos repetidas vezes, puxando-os para traz. Seu olhar repetido são flechas invisíveis atiçando incômodos. Há o inusitado esquivando-se esquivando-se esquivando-se ininterrupto. A vida sempre procura vida. Diz Helena enquanto ajeita a bolsa no ombro, levantando-se. É assim; mas isso se eu tivesse a vingança. Tivesse? Helena apenas vira e caminha sem olhar para trás. Estou curiosa para saber que tipo de vida vai romper esse terreno árido. Haroldo permanece sentado antes de segui-la, olhando-a quase sumir em meio aos outros.
II
Seu olhar é meio que débil enquanto balbucia; e meu filho já não é mais meu. Helena olha-o em afronta. Daquele lugar, com aquela luz, as rugas parecem se cavar ainda mais fundas. Haroldo calado, com lábios entreabertos. Quem sabe fomos feitos um para o outro? Você aceita alguém com mortes entre os dedos? Marchetadas pelas digitais. Você quer filhos? O homem sorri quase infantil, de um consentimento tal que a mulher afunda as unhas no meio da palma. Eu já não mais posso ter filhos jamais, tornei-me áspera por dentro. Tem um oco aqui. É só um buraco vasto com pedaços de coisas tentando se segurar. Depois de Armando. Depois de Armando fugindo de mim, meu útero se recusou tanto a morrer que secou. Teve que ser decepado, cuspido antes que iluminasse todo o resto de um fundo descabido. Vomita-se o farrapo. Inconfessável.
Por muito tempo ficam em silêncio.
A minha vontade sempre foi não responder às suas perguntas. Às chantagens devastando-me repugnância. Te confesso que quando eu a matei, por um longo instante eu estive bem consciente do que fiz e a paz que senti foi o melhor sentimento que já tive. Depois veio uma náusea que só desaparece quando essa paz retorna. Retornava? Muitas vezes já me perguntei se poderia ter atingido tamanha delícia de estar tendo-lhe dito nãos, ainda que sutilmente disfarçados de sims. Pode ser. Sei que a vontade vem de um tal modo ensurdecedor que só sei que não a quero depois que ejaculo. Não, não é bem só depois que ejaculo, pois fico assim em estado de graça decifrando cada partícula de calor do corpo esvaindo-se. Depois que esfria, ainda que o horror ainda esteja contorcido na face, com meus dedos afundados em teu pescoço, e meu pênis ainda duro dentro dela, ainda assim me dá nojo. Eu parto. Haroldo fica calado, olhando ponto cego. Mas era dela que falava; Helena recupera-se num tom abrupto. Ela. Minha mãe e eu não tínhamos irmãos. Pensei que depois de sua morte eu pegaria a estrada e começaria a vida em qualquer lugar. Não consegui sair dessa casa. Ainda assim vem-me lapsos por onde parece que tenho toda a certeza de um impulso para o que lá fora deseja-me vívido. Quem sabe você seria a chave para que eu possa começar a esquecer toda a geometria caótica que aquece-me um resquício útil. Mão de Helena espalmada sobre a boca. Seus dedos com cheiro de vagina. Ainda assim quero ser capaz de sentir algo além desse pavor do selvagem em mim que retira-me a possibilidade de que o presságio jamais atinja-se ao menos miragem. Sim. É que agora sei que é uma possibilidade bem palpável que eu não possa ser mais que uma miragem. Não mais; e que esse evento real de agora, amanhã, esse veneno que destacou de mim, será miragem; uma miragem que é um tropeço no nada. Que permanece em mim, configurando-me. Ponto cego. Ando com essa vontade de querer decifrar os prazeres que o cotidiano distribui. Eu também posso parar com esse papo de merda e ser simplesmente o que meu desejo desata? Também posso matá-la facilmente tão agora. Seu marido viria até mim. Quem sabe ele seria uma solução ainda outra? E porque é que eu não posso ser?; Helena murmura-se em palavras espalhadas pela mão que ainda empurra-lhe a boca. Aí depende de você. Helena inclina-se cambaleante. Lembre-se que eu não me esqueço, eu estou aqui e não tenho nada a perder. Tanto quanto você; diz Helena afastando as mãos da boca. Segura seu pênis estendido mole sobre a palma. Aproximam-se num beijo de corpos mansos. Helena em mãos ternas e atentas. Haroldo permiti-se ao toque buscando-se desviar do desejo que assanha suas mãos despregando-lhe sufoco; emergindo-se, nesse entrave voluntário, a um calor que barra-lhe o sangue esparramando-lhe o pênis em estaca alucinando desafio à morte. Helena beija-lhe a pele, os mamilos, língua dentro do umbigo, pelo saco caído junto com o pênis. Haroldo. Morto. Enfim ergue Helena fechando-lhe dentro dos braços; morde-lhe nuca. Arranhando-lhe dentes até a ponta do queixo. Aperta-lhe a garganta até quase tapar a passagem do ar. Retina em retina. Permite um resto de fiapo de ar, um algo que fica, um resvalo quase mínimo de sobrevivência. Quer-lhe atenta. Os olhos de Helena incham-se para fora, sua língua expulsa-se entre os lábios. Haroldo mama a ponta de sua língua. Lábios se tocam. Empurra ar para dentro dela. Lambe face, pálpebras, ponta do nariz. Volta a aperta o pescoço. Seu pinto vai ficando duro, forçando-lhe vão entre as pernas. Rijo e mais rijo a cada desespero de Helena, anunciando bem próximo o instante em que vai se sacudir como um animal cego, um corpo convulsando-se contra o empecilho que interrompe-lhe vivaz. De súbito Haroldo sente à flor da pele a delícia no quase. Antes que Helena escapula-lhe, afrouxa os dedos; e no instante mesmo em que começa a recuperar o fôlego, aperta novamente os dedos. Suas nádegas no braço do sofá, a mão esquerda deslizando-se pelo encosto, a direita desregrando-se solta pelo vazio. Soca-lhe o pênis enquanto mastiga-lhe o cabelo. Esfregam-se faces. Empurram-se rudes pela parede. Helena quer essa pulsação, recuperando-se fôlego todas as vezes em que a visão turva-se. Pedaços invisíveis dela ressurgindo com força, atiçando-lhe vontade de arriscar-se. Pondo a própria respiração em risco. De algum modo ela acredita que a possibilidade de recuperar-se é viável.
Ambos gemem trêmulos. Pressionando dedos nas carnes um do outro. Em vertigem ao chão, despregando-se na medida em que escorregam-se. Ruidosos de respiração descompassada. Molhados. A ponta dos pés de Helena enfiada por baixo da cortina vermelho carne. Pulso de Haroldo preso entre a nuca de Helena e o chão. Retira fios de cabelo de entre os dentes. Puxa mão para si quando começa a formigar. Lua vaza pelas aberturas discretas, despertando o ambiente. Olham-se em silêncio, ouvindo-se descompassos, pelo calor um do outro, pelos cheiros. Helena pensando que qualquer dia desses quando não mais sentir-se tão desatinada, num belo dia saberá livrar-se dele; o envolvimento terá que ser discreto, sempre entre quatro paredes. Só para que não desperte rastros do absurdo. Soergue-se com destreza, despistando-se de expressão facial alarmante. Haroldo, apesar da dúvida afiando-lhe, tem certeza de que esta é a chance de superar-se para um outro modo de ser-se, afugentando-se de vez a náusea que lhe consome depois de saciar o desejo em sentir o hálito se apagando, nos corpos de carne murcha. Só de carne mole?; pensa quase audível. É quando Helena fala; vamos tomar banho? Assente despregando, devagar, as nádegas avermelhadas; gotas de suor esticando-se entre a pele e o chão. Fio quase invisível arrebenta-se. Gotas acumulam-se, juntando-se umas nas outras pelo chão e pela pele. Um fiapo de vento forte entra pelas fendas. Cortina vermelho carne vibra-se quase imperceptível. Ambos de costas a caminho do banheiro. De costas para a penumbra da sala. De costas para o espelho. Ambos. Viram-se de súbito, esquecidos um do outro. Olham cada um para si próprio, desapercebidos por breves instantes da existência um do outro. De súbito olham-se no olho. Sexo de Haroldo incha. Lábio de Helena repuxa-se. Mão salta para pescoço de Helena. Arrastando-a. Morde-lhe o pescoço. Quase enfiando-a pelas dobras dos azulejos. Olhos turvos acumulados de suor. Gestos quase moribundos. Quase. Denunciando-lhe uma espécie de prazer na dança contorcida de seu corpo. Acrescendo-lhe pouco a pouco o desfrute de uma inusitada autonomia. Segura-lhe um dos seios derramando-o por entre os dedos. Helena solta um pedaço escorregadio de coisa quase sem nexo sonoro, atiçando-lhe mão afundando-se pela curva mole de suas ancas. É quase que improvável o estilhaço que os ata. Ambos em ruína vigorosa. A claridade do banheiro recusando-se a tudo que não é tormenta. Mas ambos olham-se numa eternidade de linha esticada. Breve – ainda que. Absurdamente suave. Ambos não toleram. Antes mesmo; sim; mas antes mesmo que um desejo de vômito definitivo os estaque parado, esticam-se batidas cardíacas contaminando fenda que escoa probabilidades, possibilidades de tremor aproximando-se, fervilhando-os inevitáveis de saltos de vida. Sua nádega esquerda como que trava o escorregão, afundada pela cola que o azulejo liga. Helena geme de língua esticada para fora, já caída. Umidade espreme-lhe escorregadia. A memória imediata entrega-os sensações, engole automaticamente vultos faiscados do atrito. Precipitam-se pela pulsação que os nervos cerebrais, estimulados, empurram. A solenidade que ali reage-se não pode ser detectada como absolutamente alheia, retida numa contemplação de espécie indiferente. Renunciam-se sob o signo do prazer. Ou ainda, geram-se sob o signo do prazer. Quanto mais se acolhem mais e mais o pacto empena-os sôfregos um pelo de-dentro do outro. Orbitam-se como que livres em articulações com juntas úmidas. Umidade virulenta – não há trégua entre um membro e outro, onde então os pedaços de órgãos, distintos, são-se envoltos e embrenhados por um perfume dissolvendo-lhes os joelhos, bordas, rótulas, pele.
Deslizam-se pelo vidro do box. Helena é pedaço de carne presa por um fiapo curvo de ferro. Braços dependurados sacudindo-se; mãos espalmadas desgrudam estalos pelos azulejos. Mão tremula erguendo-lhe pelo pescoço. Ele a lambe, mordisca-lhe orelha e cílios, cutuca-lhe unhas pelos seios, barriga. Ela não busca afastá-lo. Já está muito cansada. Seus braços vez ou outra erguem-se frenéticos. Pés escorregam. Pulsam-se, eles, um como andaime do outro. Uns. Grito desesperado sai da boca dos dois. Como se fosse o mesmo grito. Que a vida acata. E ele não pode deixar de demonstrar sua surpresa encantada, repuxando-lhe alegria, enquanto ela, de olhos abertos, ferve viva em seus braços. Ambos borbulhantes.
Corpo desabitado
A garçonete gorda retira com pouca desenvoltura os pratos vazios dispersos sobre a mesa. Com peitos tão enormes que tem-se a impressão de que os botões estrangulados da blusa serão arremessados a qualquer instante aos confins da obscuridade. Seus óculos de grau com lentes grossas equilibram-se tortos pela ponta do nariz escorregadio. O rapaz que acabara de se sentar a observa com atenção, como sempre o faz desde o dia em que passou a almoçar ali, o restaurante da esquina perto de seu trabalho. Ela jamais retribui olhares. Ao se distanciar ele observa as espaçosas nádegas se movimentarem redondas e ondulantes. Saia estendendo-se até os joelhos deixando à mostra uma pele alva. Branco encardido. Ele não compreende porque retorna todos os dias àquele restaurante com uma excitação quase adolescente em querer revê-la. Ela possui uma falta de charme febril. Uma insegurança latente que o enfurece, despertando-o a um incomodo desejo de tê-la nos braços, despindo-a em rasante volúpia e amaciando repetidas vezes o interior de sua carne tenra. Imagina-a com aquele angustiante ímpeto de trazer grandes quantidades de comida à boca, em qualquer lugar e a qualquer hora, não importando em se esquivar pelos cantos da cozinha do restaurante, de um corredor qualquer, pelas escadas e pelos cômodos de sua casa.
Ele faz o pedido como de costume, pensando por alguns instantes antes de se decidir. Não que estivesse indeciso, mas porque quer observar de perto esses olhos parados. Teria ela consciência da sensação de estranhamento que causa nas pessoas? Inclina a cabeça admitindo a distância mais aceitável possível. Seu cheiro é peculiar, não só gordura e suor, há algo mais. Não, não é bem isso, seria algo de menos, uma espécie de aroma ausente. Sua respiração pesada atravessa ruidosamente as grandes narinas e emite uma sucessão de sons primitivos. De súbito ela se agita grosseira, uma das mãos rodopiando pelo ar na tentativa de afastar um inseto que insiste em pousar ora em seu ombro ora em sua testa. Acalma-se pouco depois. Não mais se importando com aquele mosquito devidamente acomodado em sua testa.
Ele completa o pedido. Ela adentra a cozinha e entrega-o ao cozinheiro. Aguarda apática. Vapores quentes borbulhando das panelas, funcionários se movimentando em meio a fôlegos esquivos. Cuidadosamente estática ela observa o próprio reflexo na disforme bandeja de metal que apóia sobre o balcão. O mosquito decide desbravar a escuridão por debaixo da manga de sua blusa. Entregam-lhe uma refeição quente, um prato com salada e um copo com suco de laranja. Certifica-se de que o pedido está em ordem. Expele-se dali.
Ele a aguarda ansioso. Ela esparrama atentamente a comida enfrente ao freguês. Ele agradece. Ela nada diz.
O dia está relativamente calmo, sem a balbúrdia usual. Suspira aliviada; se sente embaçada quando é obrigada a se movimentar com rapidez, em especial quando o gerente berra cusparadas na sua cara. Vira-se para as rosas expostas nas mesas vazias. Poderia ocupar-se dispondo-as nos vasos esverdeados com um pouco mais de inspiração. A idéia havia sido dela, o proprietário não se importou, então a partir daquele dia passou a comprar rosas todas as manhãs, não se incomodando em sair mais cedo de casa para que tivesse tempo de sobra para ornamentá-las sobre as mesas. Observa o arranjo atentamente, aproximando-se com cuidado. Seus dedos rechonchudos exigem de si atenção redobrada.
Ele já havia terminado a refeição quando ela se aproximou da mesa ao lado. Tocando as rosas com reverência ajeita os talos almejando uma simetria que reflita a iluminação que descortina o ambiente. O mosquito levanta vôo, decidido a pousar em uma das rosas. Ela não se atreve espantá-lo. Percorre as pétalas com destreza, arrepia as asas e desaparece por entre aqueles longos lábios avermelhados. Surge por entre as folhas e instala-se em um espinho. Encarando-a de frente. Parecem se comunicar com incontestável lucidez. O rapaz procura escutar o que lhe escapa. As expressões infantis de suas bochechas volumosas coexistem em uma espécie de harmonia destituída de conexão com sua aparência física adulta. Ainda segurando a faca com força termina o último gole de suco. O mosquito arremessa-se de volta ao seu braço. Seus óculos vacilam à beira do despencar, sua língua incha-se esponjosa na aspereza seca de sua boca. Seu corpo transpirando insistentemente, o uniforme enrugado sobre a silhueta arredondada. Ela caminha até a janela escancarando-a de uma só vez. Oscila ao dia o braço nu como se acenasse em despedida. As asas do mosquito sacolejam-se maleáveis ao vento quente, dispersando-se em debandada pelo dia. Partículas de ar arremessam-se como uma bofetada sobre sua face virgem, seu pulmão comprime-se involuntariamente, impedindo-a de respirar. Ela abre a boca na ânsia de engolir algo que parece escoar como água por entre dedos. Ruídos próximos e distantes acentuam o inusitado silêncio no interior do restaurante. Por um efêmero espaço de tempo os dois olham-se com exatidão. Ele se levanta para pagar a conta, ela fecha a janela antes que o gerente a importune.
À espreita
Não importa como. Sensação de tempo perdido. Sendo perdido no instante mesmo imediato em que transpiro. Parece sempre que é o caminho errado, como se tivesse sempre que ter sido outro. Helena de cócoras à janela. Chega uma hora em que parece que a gente nem mais quer entender. De perna aberta encaixando-se pelo pênis já retorcido. E a gente nem sabe por que rumina-se; acrescenta Haroldo. No fundo a gente sabe. Será que é castigo? Inevitável lógica dominó? Como assim? Balança a bunda. Um dos pontudos ossos cutuca os ovos de Haroldo. Contorce um gemido de borbulhos, como se a garganta estivesse untada de catarro. Quando minha mãe se separou de meu pai eu vi a gente morando em lugares cada vez mais barulhentos e menores com cheiro de couro-cabeludo suado por dias e dias. Saí de casa e nunca mais vi minha mãe. Não procurei. Minto. Certa vez eu a vi na rua; fiquei à espreita, ela estendida, acotovelando-se em meio ao amontoado de gente. Não senti nada de especial. Arranquei minha mãe, cavei alguém de dentro de mim, constituí família, arrancou-se útero e ovários. Sempre tive medo de migalhas. No começo dormi em sofás gastos, fraturei órgãos bem próximos das costelas, engoli espermas pelas esquinas dobras de paredes cantos de poltronas de cinemas pornográficos, até o dia em que pintei o cabelo e mudei de cidade. Encontrei o homem com quem senti a coisa mexendo-se dentro de mim, compartilhando-se de meu sangue. Me senti pela primeira vez em casa. Maldito lar - quase tapa a boca num repuxo à beira do involuntário. Por vezes, arredondando minha barriga estufada com as mãos, eu olhava a lua cheia. Espetada pelo espetáculo. Vidrada. Sentia-me incomodada e acariciada. Agora sei. Se eu desejasse dissecar, olhar de perto cada etapa desse espetáculo, dessa lua navegando lenta com nuvens ligeiramente rebeldes, eu seria esmagada, meus olhos empurrados para fora. Seria o inferno tocar a lua, atento a cada transpiração. Sentir os estágios até a lua seriam fendas minúsculas esguichando-me por todos os lados. Viver a metamorfose de chegar até a lua, como é-se nos segredos de alguém, despedaça, dilacera - fígado tímpano pulmão. Então. Colaborei com o esquema, com o esquecimento de mim mesma. Parei de escrever. Fiz com que Aurélio, antes do casamento, esquecesse a fotografia. O horror veio em longo prazo, mas. Veio? Ao menos sei que não posso ser outra coisa a não ser o que estou; e que jamais seria novamente aquela, aquela antes da tintura nos cabelos.
Morte salta. Helena geme silêncio. Irrompe-se muda de tanto que um grito atravessa-lhe voraz, impulsionado para todos os lados e cantos, com uma velocidade tal que o toque e a sensação causados não se encontram. Ou quase não. Helena levanta-se dali, escorrega-se pela dobra da parede roçando a cortina, enrola-se para dentro de si mesma enfiando dedos dentro da vagina. Deslizando digitais pelo borda e quase dentro do anus. E fica parada, olhando a fenda que se desprega quanto mais arreganha as pernas. Deve ser vermelho porque é quente, propenso a ferver o alimento que brota. E o mais asco, o que me treme é que há uma certa ausência tal pedindo que algo vivo saia de mim. Ainda que o naco que cospe o corpinho tenha sido extirpado; ainda assim o corpo chama. Burro imundo – é que vou ter que encontrar escoamento; diz-se sem ouvir-se. Sou daqueles que têm que construir o que não existe - tal e qual o humano, que é a intersecção entre o animal e aquilo que ainda nem sabemos o que é. Ou quase não sabemos. Ou quase estaremos sempre sabendo. Acho que adivinhamos; diz sem olhar para Helena, quase num murmúrio. Exige-me fertilidade irremediável a ponto de que do mundo arenoso, fazendo-me caminho ao ar, uma tal espécie de arcaico réptil inusitado entre em erupção. Aflita; carne esgueirando-se entre pedras. Carne estilhaçando-se ao toque da terra, das minúsculas raízes, dos insetos. Tudo tornando-se intimamente úmido. E seco. De um seco que obedece-se ao molhado que esparrama e junta. É coisa germinando-se. O silêncio empedra-se vivo, esticando-se, contaminando o ambiente enquanto o Sol estilhaça-se parado, atiçando-se pelo de-dentro de si mesmo e assim esgueirando-se em todas as direções para fora de si, tapando o olho que derrama luz solar pelo ambiente. Haroldo se levanta. Na travessia até o interruptor ninguém vê seu espanto à beira de um sorriso gargalhante descontrolado, alheio. De um excessivo que ele tapa. Esparramando paralisia quase maleável pelos ombros. Pernas articulando-se débeis. A lâmpada explode-se em tochas cegando-lhe a visão do ali. Aqui. Face de pavor que Helena esfrega. Quando a luz se espalha do teto. Deu-me vontade de ver, escondida em alguma partícula, em algum verme, alguma perna quebradiça de inseto dobrando-se. De ver minha mãe masturbando-se. Vê-la viva. Ainda está viva? Como é que ela se sente viva se ela não tem um neto para acreditar, exercitar-se útil? Então demonstrar-se que é muito mais capaz que antes. Chance renovada de poder tentar mais uma vez ser melhor do que realmente é. Unha cutuca carne viva úmida pela borda funda da fenda vermelha. Bem, assim a vida descobre, desponta um escoamento; qualquer naco de carne e sangue será o escolhido – e o horror enfim disfarça-se de morto. Haroldo estende-se inteiro, erguido em seu próprio corpo. Estendido pela vontade de não mais querer ver a brancura dos olhos estatelados esburacando-se de pingos avermelhados à medida que a carne velha perde calor para o ambiente. E se teu corpo não ouvir meu corpo? – então lembro-me da saliva cristalizando-se pelas fendas, puxando fios de batom escondendo lábios secos. Meu medo levanta trégua. Não quero mais o horror. Esse. Meu corpo tem aprendido a não precisar do cheiro de naftalina. De minha axila já escorre o calor que asfixia-se entre meus dedos. Eu não sei, mas expor-me assim solavanca-me a respiração. Falar do que são mãos estrangulando. Olha as próprias mãos. É uma desintoxicação de mim; e isso desata meu andaime. Arrisco-me. Helena olha-o com atenção, carinho fundo. Eu não admito, não aceito dizer que somos migalhas um do outro. Sei que estou inteiro, esvaziado de sangue latente, à beira do horror que quase abre comportas. Quero vibração assanhando-me tremor fresco, um gesto de vida que não vai recuar de minha face. Será que isso é capaz? Será que meu sentido tem que ser cego? - sou farpa. Eu só te amo e me abro desprevenida e à beira do desvario calmo e quase quieto porque fui desfalcada do álibi que me provoca mulher e porque você é esse homem desejoso de uma fêmea decepada? Porque você se afasta de mim dizendo assim? Há coisas que não se sabe dizer e coisas que não se pode dizer. Helena esparrama suor. Eu já deveria ter me cansado de querer antecipar. É que parece que há esse germe, alguma coisa, uma coisa bem lá longe de minha nuca ancorada alfinetando; e que depois, de tanto esticado, súbito?, retorna como um tombo; é alguma imagem atada, fincada em algum grau dentro do globo ocular. Haroldo permanece de braços soltos, buscando o menino que barganha com o calor (revirado) que quer procriar-se. Acende a quentura que Helena por pouco quase esquece. E diz: tem medo da vida?, então vá embora. Mas é um risco que ele atira como quem expulsa náusea olhada com olhos cada vez mais e mais abertos na medida em que a náusea nauseia-se. Ainda que eu queira, eu quero algo mais. E tenho medo de que se eu não prever acabarei tropeçando em algum sabor que meu corpo, por secura, essa secura oca, de um vão ainda sem forma, acostumando-se com o buraco que cria-lhe vazio, não saberá mais combinar. Ou pior, não poderá mais combinar. Helena ergue os braços jogando as pernas abertas pelo chão. Um chão que se não insistisse ali, eis que suas pernas cairiam em queda livre rodopiando-se extravagantes e ininterruptas. Fraturando-lhe os ossos, rasgando corrimento e esguicho vermelho pelos rasgos na carne. Haroldo cambaleia. E se recupera nos passos que vacilam até Helena. Abraçam-se. Beija-lhe a testa. A fronte. Enfiam-se um pelo outro. E permanecem-se sentindo os calores atritando mais e mais calor. Arriscam-se, ousam-se diante ferida que o olhar em cada um aponta - ainda tão à beira, à espera de que algo os arremate. Decida por eles - mas eles foram chamados ao juízo final em plena carne viva, com a predisposição de, ao o atravessarem, poderem deleitar-se com oásis. E depois? Apertam-se em dedos. O que faço desse ódio que me assanha? Olham-se ainda mais desejosos, já tão embebidos um do outro. Sedentos pelo beijo um do outro. Aqui dentro pode-se dar as mãos, caminhar como desvairados dando reviravoltas até o corpo pedir umidade que brota distante. Pode-se lamber o que escorre. E engolir, sentir o gosto.
E lá fora? Que tal a gente ficar aqui dentro por enquanto? Na gruta o que é nela refugia-se. Enovelam-se. Entre eles escorre água empossada, fincada por chuviscos acumulando-se grossos antes de caírem das folhas. Há uivo rasgado inatingível confundindo-se com o silêncio (o silêncio) do ambiente, combinando-se à vigorosa dor tingindo-lhes náusea confundida com algo que lhes aquece. Ao longe distante uma criança solta elástico esticado, sendo arrastada por fiapo gritante. Inchando. De súbito pescam vislumbre de alegria. Estrela cadente contaminando-lhes. Ambos giram como que num mesmo olho. Num certo quase mais ínfimo possível a verem-se, estarem-se. Arrebatam-se cada qual num mesmo olho. Lábios e saliva.
Reviramento de olhos
Pela janela a mulher com seu passo torto. Empenando para fora, à beira de uma queda. Ela caminha assim, com juntas lacradas, barradas pelo que ignora, pelo espanto que acumula entulhos nas veias, estancando agilidade em seu lado esquerdo. Que amarra o direito, minando-o ao que ainda não sabe. Seu tronco sendo fisgado para os lados que os tornozelos não toleram. Caminha assim desde o dia em que o marido exagerou na dose de analgésico, além de ter tomado anticoncepcional por anos afio, como disseram os médicos mais tarde. Nesta noite – na noite do analgésico – ela havia decidido se separar dele, determinada a finalmente retomar algum tipo de rumo em sua vida. Anos antes, enquanto ainda casada, ao retornar do supletivo, era trancada pelo lado de fora, no alpendre. Então, havia decidido acabar de uma vez por todas com o peso enraivecido diante da pia luzindo gordura.
Um dia, bem depois, enquanto o endurecido desembolava-se dentro dela, entrou para a Faculdade de Direito. A mão fechada esmurrou ao céu, saltitante de euforia vitoriosa. Quase que numa dança mórbida, repleta de um vigor que foi-se esvaindo em doses abruptas: estrondosa de medo diante de uma sala de aula olhando-a, à espera. Voltou pra casa querendo afeto. Seu marido gravou-lhe o ronco e no dia seguinte, enquanto repetia o ruído, disse que ela não lhe servia mais, pois precisava de uma mulher que pudesse ser muito mais que somente limpa e asseada. Ela ficou ali, afundada no sofá do apartamento, com cara de estúpida, amassando a boca com a mão sã, ouvindo o ruído tantas vezes que muito tempo depois parecia poder ouvir o sacolejo de seu próprio ronco enquanto dormia. Separaram-se. Penhorou as jóias, aposentou antes de completar quarenta anos, dependurou o diploma na parede. Nunca trabalhou como advogada. Passaram-se anos e ainda hoje ela limpa os pés e pede licença ao segurança que estende-se perto da porta automática de algum shopping center.
Caminha como um equilibrista que mesmo após anos e anos de experiência ainda possui um suor persistindo-lhe sobressaltada. Cada passo é um mundo inteiro que passa debaixo do Sol. Constrangida, apertando os lábios, longe de acompanhar a velocidade uniforme com que alargam-se dela. Ansiosa mastiga o chocolate que guardou na bolsa, orgulhosa por comê-lo agora, e não quando todos da casa esbaldavam-se - vou deixar o meu pra depois; sussurrou para si mesma num sorriso que faz a gente abaixar a cabeça. Esse modo de abaixar a cabeça, esquivar-se, traz-lhe lembranças. Em verdade um pavor tão medonho que só muito raramente se permite lembrar do nojo da cara de seu marido diante de seu gozo de perna e braço desarticulado, endurecido e em pontadas enroladas para todos os lados.
Do lado de fora, onde o brilho Solar diverte-se pelo céu, ainda que por detrás de nuvens, um tipo de céu azul iscando-lhe o olhar, enfim eis que nesses contornos vazios entre os edifícios de três andares, enquanto segue o rumo, crianças zunem-se em bicicletas. Um dos meninos, o menor deles, descamba-se em gargalhadas insistentes, esbaforido como calda que os meninos maiores desejam arrancar, mandar de volta para a casa da velha que vez ou outra berra seu nome e fuma cigarro na janela. Lá vai ela cuidar dos dentes. E da gengiva vermelha e inchada com cheiro que todo mundo disfarça, inclusive ela própria com seu reviramento de olhos. Os olhos. Brancura de seus olhos esburacada por pingos ajuntados uns nos outros, dando a impressão de manchas avermelhadas que esquadrinham-lhe um ar de asfixia, a não ser quando bem de pertinho.
Nesse mesmo dia, antes de driblar passos ao dentista, o Sol havia acabado de se descobrir de insistentes nuvens quando ela então mexeu da cama, depois de um sono na frente da televisão, logo após o almoço. Soergue-se pedindo oxigênio, engolindo a própria língua como se alguém a tivesse empurrado pelo abismo pelo qual caminha distraída, imediatamente chamando pelo neto que costuma dormir na cama vazia, ao lado. Toda manhã o neto aperta-lhe, sente-lhe o cheiro, amaciam-se um no outro. ‘Amanhã vou comer doce’; são as palavras que saem em meio ao Solavanco de acordar-se abrupta - caroços de ronco entalaram-se garganta abaixo. Perante o silêncio desconcertante ela apressa-se em completar para si mesma, num tom quase inaudível, ‘minha pressão cai e então durmo’. Apruma-se. Dependura em uma espécie de coque o cabelo de um louro acinzentado, deliciosamente envolvente de tão esbaforido, com um amontoado de fiapos brancos na raiz. Unta de filtro Solar o rosto e o colo esparramados de sardas, mistura o batom rosa com o laranja terra. Lápis azul claro delineando olhos pontiagudos. Convulsa-se com seu rosto envelhecido, essencialmente por estes dias, já que depois de vender os túmulos da família comprou óculos de grau, caros e importados.
A mulher tem pavor de ver-se a si própria reagindo-se diante de si mesma.
Entorta de leve o pé. Seu guarda-roupa é de um perfume aconchegante. Há os instantes de luminosidade tranqüila onde sorri e abraça. Instantes estes que necessitam de um nome, uma ocasião, algo tipo despedidas, encontros, jogo de futebol, Natais, aniversários, caso contrário espeta-se balística. Civilizar-se com utensílios e comparsas que retiram-lhe autonomia sobre si é o modo de desviar-se do espanto sem apagar-se. Sozinha, no silêncio, ela jura para si mesma que não é uma merda de mecânica, pois tem abSoluta certeza de que fez o que acreditava, esticando o braço até onde o seu corpo sentia. E o ciúme, meu Deus, a inveja. Tem dias que essas coisas não são mais uma afronta que ela rejeita. Que ela transforma em obras. Tem dias, ou meses, ou anos, que a raiva é o seu próprio modo de existir entre as pessoas. Uma ira de sons graves despistada de afeto em 'vai escovar os dentes menino', 'tira a blusa do uniforme antes de almoçar', 'seu pé tá imundo'.
Foi só ela sair com seu rastro lento que o Sol tornou-se intimo, fervilhante, percorrendo-a pelas dobras mais apertadas. A surpresa é sempre o tropeço assombrando-lhe torções, como uma peça que se prega em alguém e a reação, apesar de, renova-se a mesma – ou quase, mas sempre requintada de expressões indignadas. Procura o guarda-Sol na bolsa, irritada consigo mesma por ter esquecido de passar filtro Solar nas orelhas, que a esta altura estalam. Ali, com pessoas que ela sabe esquivarem-se entre as cortinas dos prédios, empertiga-se rumo ao ponto de ônibus, mantendo olhos ao mesmo tempo grudados no chão e no horizonte, desejosa em precaver-se de qualquer inclinação no chão que lhe retire a habilidade de manter-se de pé, a caminho. Seu neto a vê afastando-se ao longe. Corre como nunca para dentro de casa para pegar o saco de bolachas do café da manhã da avó. Sorri estonteante ao imaginar-se admitido no grupo. Aproveita e pega dois ovos - é que é aniversário de um dos garotos e enquanto rondava-os ele entendeu a surpresa melada que planejavam ao aniversariante.
Tão lenta que sua sombra sempre parece querer ultrapassá-la. O ponto de ônibus está logo adiante. Perto e longe. Ao chegar enfurna-se na sombra, acende um cigarro e espera. As pessoas olham-se sorrateiras. Ela arranca a brasa do cigarro na lataria do ônibus. Antes de começar a subir as escadas joga o cigarro dentro da bolsa. Estremece inteira diante da cara feia do motorista como se ainda tivesse que levantar a mão para se proteger da perna da cadeira que o marido afunda-lhe no crânio. Ou melhor, ex-marido, como orgulhosamente proclama. Atravessa o ônibus com seu passo enferrujado, encarando os assentos preenchidos com uma raiva ameaçadora. Uma mulher de poucos amigos. Gente demais por tempo demais sufoca-lhe. Numa virada brusca ela cai, rolando sobre seu próprio corpo enquanto o ônibus serpenteia seu rumo. Os passageiros permanecem estáticos por um breve momento, admirados com a mulher girando sobre si mesma conforme os solavancos. De súbito um grito ressoa, e mais outro e outros; até que o motorista afunda o pé no freio, vingando-se de uma vez por todas daquele Sol insuportável esbofeteando-lhe a nuca. Rola com fúria. Pessoas corem em sua direção, ajudando-lhe a se recompor. Ela se encolhe no banco ofertado engolindo imensos caroços de ar, avermelhada, com uma vontade de se levantar altiva. Agilidade que não atinge. Enquanto ajeita o cabelo ela sorri. Aval para que alguns dos passageiros tornem-se ainda mais simpáticos. O bando de meninos debate-se por sobre seu neto, explodindo as pernas num salto. Arremessando-se dali para o mais longe que consegue, com o viscoso no cabelo desfazendo-se pelo pescoço. Gargalhante em enormes olhos radiantes, em fuga. Automaticamente a mulher mete a mão dentro da bolsa na procura de mais um bombom. O último entre os dois últimos que enfiara apressada para dentro, espreitando sombras, convicta de que ela decisivamente merece muito mais do que qualquer um daquela casa. Durante toda a sua vida dividiu comida ou até ficou sem comer para que os filhos “jamais passassem dificuldades”. Ela mastiga recurvada, engolindo o bombom de duas vezes. Quase de cara pregada na janela. A mulher não quer ninguém revistando-lhe o pavor e o ódio retorcidos alinhavando-se em gotas de suor pelo rosto.
Do lado de fora carros e pessoas são riscos quase indecifráveis.
Seu olhar num ponto cego. Alguma coisa dentro dela atrai os pedaços do ambiente, uns pelos outros, desenhando-lhe quase reconhecíveis os movimentos da rua. Levanta-se de um lento esbaforido, a ponto de perder o local da descida. Arroxeada de tanto que a respiração estancada mantém-lhe atenta ao descer os degraus. A porta se fecha com sua mão segurando o cano. Acelera. No arrasto o bico do sapato se prende no bueiro, torcendo-lhe o pé. Seu rosto espreme dor. Os passageiros sacodem gritos indignados. O ônibus pára com uma suavidade desconcertante. A porta se abre no instante em que solta o cano, certa de que pode enfim pisar na calçada. Despenca de cabeça. Espantosamente a mulher coloca-se imediatamente de pé. Desvencilhando-se das mãos e dos braços afugenta-se da escassez de espaço. O Sol trincando-lhe os olhos infectados de alguma bactéria que nenhum médico sabe dizer do que se trata. Uma pedra cai do alto e acerta-lhe o crânio, bem acima da nuca. A mulher empena-se ao chão em doses homeopáticas, espatifando-se com todo o peso que o lado endurecido de seu corpo denuncia. Seus dedos enrolados cutucam o fundo da palma da mão. Face direita esfolando carne descasca um jorro vivo. Unha arrancada pela metade. Foi um suplício para o homem que manca entrar dentro da gorda membrana de pessoas, agachando-se ao seu lado. Ergue-lhe a cabeça enquanto repete ‘eu sou igual a você’ tantas vezes quanto seu desejo de convencer não consegue acreditar. Ele hesita, hesita mais umas duas vezes. Mas então beija-lhe a boca. Ela sorri sem disfarçar o amargor pesando-lhe uma das pontas dos lábios; ‘que vergonha, meu Deus, que vergonha.’ O fervor de um emaranhado de perplexidades incha-lhe o peito e ela arrasta o beijo num empurrão. De súbito o ar que entra não é chamado de volta. Seus olhos abertos incrustados no corpo quieto gotejando calor para o ambiente. Sem oferecer resistência ao abraço sugando-lhe a umidade. Como um passarinho; responde um alguém remexendo-lhe a bolsa. Mais uma pedra cai do alto claro. Mais outra e mais outras. Outras ainda maiores. Progressivamente maiores. Incontáveis delas. Pessoas debandam-se silenciosas, grunhindo, aos berros. Um gigantesco cometa faísca a Terra em nacos de cores exuberantes, apreciados com arrepio e fervor pelos humanos de um planeta na galáxia vizinha. Há regozijo na força da atração que um amontoado de olhares na mesma direção pode aquecer.
Por detrás das nuvens
I
Ela penetra a praça como de costume. Tonta. Com a cabeça baixa de tão atenta segue pelo caminho que circunda o jardim e desemboca em si mesmo. Fica assim a acompanhar seus próprios passos em um devaneio circular e esclerosado. Sua sombra rastreando-lhe o rumo. Vento escorrega pelas dobras do corpo, confundindo-lhe a memória. Seus cabelos brancos contorcem-se em um balé desnorteado. O frio não é intenso, mas ela enterra as mãos nos bolsos inclinando-se com súplica. Tremo calafrios.
Naquela tarde ela se sentou ao meu lado. Abaixei a cabeça com receio de que se virasse em minha direção. Tive a nítida impressão de que minha presença a incomodava. Com a ponta de meu dedo divaguei um círculo na palma da mão, uma espiral contínua arrastando-me por inteiro. O Sol alterando sua posição. Fazendo-se inoportuno. Seus raios alinhavam-se bem diante de nossos olhos. Éramos quase inocentes de tão estáticas. Meu olhar se fixou na sombra de uma árvore. Diante de nós um mundo de vermes e sussurros fitando-nos com desfigurada repulsa. Silêncio a espreita.
Eu nunca havia tido a oportunidade de sentir o seu cheiro. Um aroma amargo, descompromissado consigo próprio. Sua roupa cheirava a naftalina. Veio-me a imagem de um guarda-roupa de madeira com curvas antiquadas, insinuantes. Uma porta sem fechadura que deve passar a maior parte de seus dias entreaberta. Um quarto manchado pelo mofo, um assoalho de madeira velha, partida e que range. Baratas! Grupos delas que se reúnem nos cantos do quarto para discutirem uma forma de expulsá-la. Baratas rajadas de asco por aquele corpo que não tem a decência de espantá-las.
Seu perfil é de uma doçura imponente, seus olhos claros me lembram os olhos esbugalhados dos peixes vendidos nos supermercados. Tento adivinhar seu nome, curiosamente não me vem nada plausível. Ela alonga os músculos contraídos da face em uma tentativa de sorrir. Olhando-me de frente. Sorriso desfocado. A boca se entreabre calada, com a língua arqueada em si mesma. Esforça-se para dar um ritmo equilibrado à respiração, como que querendo provar que ainda há resquícios de umidade em seu ventre árido. Comprime as mãos contra o rosto esfregando olhos enevoados. Levanta-se de imediato. Ossos movediços murmurando apelo oco.
Avança por entre as pessoas que vão e vêem de direções diversas. Pára repentina. Enfia a mão dentro do bolso do casaco e retira um pequeno bloco de anotações e uma caneta. Escreve. Destaca a folha estendendo a mensagem às pessoas que investem em sua direção, de modo que possam ler. A maioria delas não percebe a situação, algumas fitam-na com curiosidade, outras aceleram os passos. Livra-se da página e rabisca uma outra. Repetindo o mesmo gesto. Seu rosto parte-se gradativamente em uma estridente e desembaraçada gargalhada. Algumas pessoas riem contagiadas, inclusive eu. Contudo, há algo de sinistro no coro que se instaura, frenético e repentino. Os ruídos, tão únicos e comungados entre si, tão alheios à sua própria existência singular, se contorcem em movimentos grotescos. Quase caricaturais. O sol parece a tal ponto envergonhado da encenação que prefere se refugiar por detrás das nuvens. Encharcadas de indiferença elas demarcam uma penumbra tão certeira quanto a cegueira. Uma criança surge do meio das pessoas e com a mesma delicadeza de uma borboleta transparente arranca-lhe o papel da mão. Recuo o olhar para as minhas mãos, as dela oscilam. Sorvo-me em calafrios. Um inseto esquadrinha minha saia de linho branco com a petulância de um recém-nascido. Esmago-o em fúria. Uma nódoa conformada, irregular, murmura um desejo azedo. Engasgo com minha própria saliva.
As pessoas se dispersam quase afoitas, observá-la a distância é menos arriscado. A mulher empertiga-se, apóia-se com firmeza em si mesma e escreve. Breve, visceral. De pé. Seus olhos grandes e suaves, incisivos. Ergue o braço com nobreza ofertando a hóstia a todos os presentes. Uma atriz no final do último ato. Recordo um daqueles filmes em preto e branco: uma garota se despedindo em uma estação de trem enfumaçada, lenço bege comprimido na palma da mão vacilando ao vento. Aguarda inerte. Instinto flamejante. Levanto-me estilhaçada. Permaneço apoiada na bengala com todo meu peso. Falta-me ar. A folha de papel cai atordoada, acomodando-se no chão. Vento sepulcral. A mulher de cabelo esvoaçante esquiva-se por entre as pessoas. Combina-se à multidão. Não mais a reconheço. Continuo ali sem poder me mexer. Sangue empurrando-se com força. Gotas frias de suor dispersando-se pelas dobras de meus dedos. Avanço em passos largos. Nó na garganta e boca salivando. Curvo-me com precisão e agarro a folha de papel.
II
Na noite passada, sonhei com ela. Acordei em agonia, transpirando um suor pegajoso. O quarto está terrivelmente impregnado com seu cheiro, mais do que nas noites anteriores. Acomodo-me no travesseiro ajeitando a coluna que lateja de dor. A enorme cama de casal parece querer me expulsar para as dobras do chão onde a empregada não alcança. Ajeito a coberta com a máxima atenção, só a cabeça fica desprotegida. Tenho essa mania desde criança, sempre tive receio de me cobrir por completo. Fico horrorizada só de imaginar que um dia vão me lacrar em uma caixa e jogar terra por cima. Quero ser cremada. Convenhamos, não é uma terrível falta de consideração? Logo eu que sempre fui tão vaidosa e limpa, desde criança. O ar que entra pela janela me traz um frescor distante, de outros mundos. Faço de conta que não ouço meu nome. Fecho os olhos e me viro na cama. Nua. Apalpo-me por debaixo da coberta refugiando-me nas curvas quentes de meu corpo.
Aquele fim de tarde persiste em retornar. Por um instante imobilizadas. Ela parada, braço em riste, pés enraizados no concreto. Levanto as pálpebras e vejo seu vulto enfiado pela penumbra do quarto, em pé, bem na minha frente, observando-me com uma espécie de expressão facial. Indiferença? Sorrio extasiada, exatamente como quando dei a luz ao meu primeiro filho. Há muito não me sinto tão transbordante, aliviada de uma coisa que me cutuca por dentro e que não compreendo. Levo um imenso susto com minha própria voz impecavelmente impostada. Não, por favor, não se aflija. Eu também te amo.
Olha-se à beira do aflito
Antes de girar a maçaneta Helena hesita. Partir de vez? Logo do outro lado da porta, atravessando o jardim, o portão, pela rua, esquinas, está sua vida de antes. Face de seu filho e de seu marido prometendo-se, já previsto a cada avanço de Helena pela sala na direção da porta. Fisgadas embolam-se em torno de uma singularidade solta pelo vazio em seu ventre. Esses corpos adquirindo formas cutucam-lhe gritos cultivando tremores que por enquanto são suores resistindo brilho incômodo esparramado pela pele. Haroldo olhando pela fresta da cortina também dói - ainda que quase inexistente. Casa quase vazia apossa-se dele com imposição que, até o instante em que Helena segura a maçaneta, não acredita relevante. Cheiro de naftalina é espectro de uivo tão longe que bem pode ser algum vento escorrendo por algum algo qualquer. Mas não é tão fácil assim; Haroldo sorri. Já experimentou-se nestes dias em tantas formas outras. Olhos contorcem arranco buscando ruído de vulto em torno de si. Mortos babam, regozijam-se, sacolejam salivas alongando-se em riscos curvos, escapam-se de ataduras com uma tal exuberância em corpos descrevendo esperneios, desenterrando membros em enlaces que dão medo de olhar apesar da curiosidade que não se esgota na medida mesma em que asco surpreende. Por um instante gargalhada de vozes esnoba suor na mão de ambos. Helena sacoleja num susto. Em Haroldo também uma fenda escapa, demarca-se como um germe abrindo caminho pelo de-dentro da carne. Quase se olham. Deveriam ter se olhado? Só para que os mortos soubessem do lugar que lhes pertence? De até onde alcança a influência que lhes reconhecem-se vivos? Esfarinhando coerência. Rompendo mudez da voz quase enterrada pela distância que pode tanto procriar um brilho já morto como apagar um brilho na verdade transfigurado.
Baque da porta destrava aperto em Haroldo. Segura o próprio pênis entortando-o. De onde está, olhando para o corredor, de nuca para a janela, vê pedaço da parede oposta inscrita num naco do espelho. Pelo caminho mortos agonizam-se. Apreensivo introduz-se pelo espelho. Já de imediato percebe isca forte, faísca viril em sua face impondo-se lonjura aos mortos; que por sua vez lançam-se, escorregam-se em estilhaços surdos. Dançam de bocas arreganhadas. Por onde recuperam-se em potência. Arqueiam-se. Conflito prescrevendo-se cada vez mais violento e íntimo. Ainda que até então de arredio levíssimo. Chama aquecendo-se em labaredas cada vez mais inchadas. Tochas. Ambos extremos extrapolam-se quando necessário ao equilíbrio do embate. Haroldo esfrega o rosto tentando deslocar nariz, lábios, ossos, sobrancelhas. Ata-se à isca. Instantes de prazer onde o outro, depois do reviramento de olhos, gradativamente recupera fôlego. Calor. Entre todos esses instantes há um outro que é único, isolado, à beira do alucinado, revelando-o numa possibilidade inata de estar com o outro sem náuseas considerando-se inevitáveis. É que é tão esgueirando-se quase apagado pelo mais ínfimo de teu fundo. Incha o peito quando lembra de si sem blefes e suave e solto e num aperto de carícias e sangue fervendo empedrado pela carne esponjosa e o olhar do outro e de si sem afrontas e de pernas cruzadas apertando pênis sem que virilidade deslize-se de si. Sua arma é lembrar, contaminar-se desse cheiro ímpar. Já quase afugentado. Acender-lhe velas, encaixar palavras em prece específica e precisa. Dar nome a esse calor. Repetindo-lhe. Chamando-lhe em voz alta ou funda e funda toda manhã antes de abrir os olhos. De olhos abertos também. Lembrar enraíza asfixia nesse único instante - também; pensa o mais baixo e disfarçado que imagina poder. Olha-se com um afinco diferente, de uma violenta procura de um encontro com o elo que manteria esse esse esse instante estável sem que os mortos e os vivos o perturbassem ao prazer no outro esvaindo-se enquanto dentro e nesses braços sem nome. Afunda-se em sua imagem. Disseca-se. Rugas espetam-lhe arrepio. Quer lembrar-se desse olhar forte com âncora mesmo quando distante do espelho. Maleável e seco de umidade. Pela primeira vez enxerga-se assustadoramente normal. Olha-se. Seu modo muscular de olhar modifica-se aos poucos. E mesmo que a memória recente busque a potência de a poucos instantes, ainda assim o outro reflexo fabrica retorno. Reconhece-se achegando-se; e um aconchego desdobra-se. Olha-se à beira do aflito. Haroldo atravessa o espelho e sai de seu próprio alcance pelo lado oposto em direção à cozinha. Na calçada Helena olha para a janela. Sabe que a cortina está quase completamente fechada porque bem agora a pouco estava do lado de dentro. Do lado de fora vê refletido quase nada do lado de fora.
Os mortos, ou ainda, em caso de hierarquia, de camadas, o morto aproxima-se de Haroldo como quem exige o retorno da tocha roubada. Mera escolha natural onde as variações se harmonizam conforme o embate de pesos que enfim marchetam uma herança transmitida. Culpa; associa-se a ela dissipando-a ou confia-se num estado de marginalidade que não a obscurece ou a mata? Bebe água. Enche copo mais uma vez enquanto acende cigarro. Mortos nunca estiveram mortos. Pouco a pouco mortos combinam-se ele. A decisão que o estende em pé precipita-se por qual caminho de menor resistência? Qual encontro é Haroldo? Helena. Caminhando pelo desavergonhado Sol desse dia pergunta-se até onde as possíveis probabilidades de encontros e rumos inusitados pode ampliar-lhe num aperto no peito menos cortante? Teria-se tempo para mais combinações com novos personagens? Raiz enfiada é arrancada de seja lá qual for o tipo de terra que já assimila-se. Helena olha para o céu, fisgada de súbito numa torção para cima, para logo em seguida perceber-se sacudida pelo ruído forte de um desses aviões incrivelmente velozes. Devo aceitar esse ventre carcomido. De uma vez por todas. Quase respinga saliva numa quase gargalhada quando ouve a própria voz. Estrutura biológica em ambos vai decidir escape perante aflição? Caminhando pelo canto mais distante da rua pisa numa poça d'água barrenta, parada e quieta. Pedaço escuro da calçada. Vai pelo lado oposto. Sol cega-lhe passos contra pessoas desavisadas seguindo seu caminho. Haroldo toma mais um copo d'água. Esbarra-se esbaforido mirando-se ao quarto. Veste-se. Sai pela porta da frente sem sequer lembrar-se do espelho. Cabelo em desalinho. Trôpego e ofegante avança-se por entre as pessoas. Avista Helena ao longe, desconexa, cabeleira loira esfacelada pelo vento, sacudindo perna. Esbarra-se nas pessoas sem o menor pudor, deslocando-os com violência. Atirando-se ao ponto que empena-lhe rumo. Segura Helena pelo braço. Não se assusta. Transpirando ofegância em lampejos escorrendo pelo rosto. Eu te amo, me diz que me ama. Segura-lhe o outro braço. Olhos fixos nos olhos. Seus olhos – desesperados. Pedindo ao carrasco que não o mate. Batidas cardíacas deslocando os carros e as pessoas de lugar. Inclusive o vento. E se você quiser o que eu não posso? Eu vou ter sempre que arriscar-me, sou esse assim, arremessar-me à fragilidade. Pode ser que em certos dias terei que arrancar a pele antes mesmo que tenha-se atingido em cura. As minhas unhas crescem; e então Helena se cala. Sem você eu. Eu já sei. Preciso de você, dessa sua vontade escapante de me matar; acrescenta Haroldo. Se eu não pulsar assim (abre os braços e fecha os olhos e pisa firme - e abre olhos para se certificar que Helena permanece ali) eu sei que vou enfiar-me para dentro do flácido até provocar corações sem sentido, engolidos pelo próprio sangue. Tenho que seguir esse trilho antes qu'eu apague-me - dessa faísca. Me diz. Eu te amo; num sorriso quase envergonhado pela alegria inevitável, enfim. Circundando voz de Helena inquieta-se algo. Exuberância em ambos os impede de executarem-se nessa imponência sonora que os ouvidos não sabem processar. Algo em Helena e Haroldo compactuam com a insuficiência-de-percepção como que palpável dessa presença escorregadia; por sua vez capaz de obstruir-lhes a alegria do instante atraindo-lhes ao beijo. As dobras molhadas no atrito dos lábios ressoam isca contaminando-lhes de crescente vontade em apertarem-se um contra o outro. Algo neles procura contentar-se com a potência inquietante que deles acontece. Brotam-se íntimos sem perturbarem a pele do momento. Manejam-se com o palpável que não lhes faz repudiarem-se. Animam-se de seus fundos mais expostos. Necessários. Estendem-se distraídos pelo imperceptível - ou quase, já que na dobra do olhar algo pula. Apóiam-se, embalam-se naquilo, nessa pele que desata-lhes caminho. Quase testemunham-se. Quase? Pênis duro com vontade em ser penetrada torna-lhes compatíveis. Encontram-se. Libertam-se frescor. O que faço agora?; persegue Helena. Permanecem-se, em meio ao vai-e-vem de pessoas, sem se darem conta do homem próximo observando-os. Por vezes fotografando-os. Ouvindo-os nitidamente. Ambos tão demasiadamente atentos aos seus desesperos. Helena surpresa com o que começa nela - ainda nele. Por um momento (quase imperceptível) ela não lhe reconhece face, enquanto ele, de imediato, não reage a esse sorriso. De algum modo, agora, o modo de tocar parece um delírio. Um agora sem retorno. Vozes, escapamentos, talheres, rádio, respiração, copo no retorno à mesa, juntas articuladas - estalos, folha de papel arrancada, clic. Tudo no ambiente alia-se. Ainda que como que imperceptível; Helena e Haroldo ouvem-se com o entorno. Admirados com a reinvenção que se segue. Igualmente admirado o homem próximo mantém-se ouvindo-os. Observando-os com íntima atenção. Guarda caderneta. Clic. Parte no mesmo instante em que ambos, de mãos dadas, caminham, os três, pela calçada. Mesma direção. Não que ainda necessite persegui-los. Já é mais que suficiente por agora. Espalma a mão sobre o bolso da calça como se fosse fazer alguma anotação. Não persiste; não imaginava que ficasse tão abalado ainda que tranqüilo com os últimos minutos. Voltar para casa, tomar banho e possivelmente dormir. Os últimos dias não haviam sido fadigantes, atraíram-se corriqueiros. Degusta com certo alívio vê-los virar a esquina. Um silêncio aterrador ameaça-lhe sangue saindo pelas narinas. Olhos pasmos dispersos em saltos pelo ambiente. Passos inusitados acusados pelo destrave provocado por 'Eu te amo'.
Seu rosto é o diabo
Aconteceu-se o cutucão. Figura grotesca acumulara-se com o passar dos anos. Germinando lentamente, até que de súbito rompeu-se à superfície. Sua resposta a qualquer toque rivaliza-se à involuntária reação ante brasa que chamusca carne viva. Sua pele transformara-se em uma espécie de escama encobrindo ferida. A ínfima e eficaz comunicação entre a ponta de seus pêlos e sua essência funda estabelece a presente dependência de sua reação a algo que encapsulou-se em si. Seu único e insistente desvio, um instante remoto fixo e exato que enovelou-se na dobra-forte de seu corpo. A partir dali raízes prolongam-se insistentemente, ramificando-se pela carne como veias que se alongam e irrigam longínquos membros arenosos. Os tendões musculares dos braços e das pernas contraíram-se a ponto de visualizar uma espécie de recolhimento. Não mais há o discernimento quanto à distinção de dedos, onde tudo é parte de um único pé de sola grossa aparentemente incomunicável. Mãos são garras recurvadas, pontudas, duras, cintilantes. Seu corpo, dentro de vestes inconvenientes e em farrapos, adquiriu um inchaço oval. Tronco retorcido em forma de concha. Guelras se abrindo e se fechando ininterruptamente em uma espécie de pescoço que se estica e se contrai, dependendo da sensação de perigo e de prazer aguçando a corrente sangüínea. Rosto impecavelmente em forma de gota com uma única antena tremulando no topo da cabeça. Olhos sem pálpebras, ligeiramente pontudos para frente e de um negrume azulado.
A mulher ao seu lado, sem lhe virar o rosto, oferece-lhe pipoca. Uma parte considerável dele não compreende o real significado deste ato. Simples abrir e fechar de garras arremessa distante a cabeça de pele macia. Uma cavidade na parte inferior da face assemelha-se à da forma humana meramente em função de uma espécie de língua afiando-se para fora. Glândula estrategicamente exposta no céu dessa cavidade lança fétido líquido digestivo por sobre o corpo que se sacode. Pára abruptamente quando seus olhos se fixam na aliança dourada que aperta o dedo de sua esposa. Recorda a bela mulher sorridente pedindo-lhe que feche o zíper de seu vestido - já está tarde demais, pode ser que percamos o início do filme. Toca com sensibilidade a mão convulsante, tomando consciência logo de imediato do disparate daquilo que treme. Com a ponta das garras arranca o dedo. Náusea perfura-lhe.
A escuridão da sala de cinema não impede que o homem de bigode pardo veja a seus pés uma cabeça com olhos estatelados. Antes mesmo que seu corpo exprimisse todo pavor repentino descrito naquela presença, movimentos e resmungos obscuros fizeram-se nítidos bem diante de seu hálito. Fica estático, sangue avermelhando-lhe rosto de calor aflito. Imagina-se parte de uma piada de extremo mau gosto. Alguém usando uma máscara absurdamente inusitada e disforme. Apertando o braço da poltrona em crescente potência muscular, o homem afunda-se na poltrona. A imagem que surge da tela é uma paisagem empalidecida, contrapondo-se em assombrosa dimensão com a coisa que, ao pendular a cabeça, esbraveja grunhidos que ecoam como um berro lacrado. Atravessa a tela de um lado a outro. Brotando uma espécie de rosto com contornos aflitos.
Ele segue lento e de súbito em direção aos luminosos que indicam o toalete, logo abaixo da tela. Arrasta-se confuso, empenando os pés de um modo para dentro que lhe sacode o corpo todo. Braços ondulantes como que sem ossos, com mãos ancorando-se arredias em miragens. Permanece quieto diante da porta. Ergue os olhos para a tela. Já quase branca. Com resquícios de uma mulher que parece ser Helena. Vacila um passo erguendo as garras na direção da imagem. Num único passo apagam-se seus últimos traços. Por um momento parece sentir seu perfume. Minúsculos pêlos revestindo toda a carapaça mole de suas costas arrepiam-se em todas as direções. Cheiro azedo defuma o ambiente. Abaixa os olhos sem a possibilidade de tapá-los. Guelras ofegantes. As garras não conseguem girar a maçaneta da porta. Fiapos de ruído agudo arranham-lhe tímpanos marchetados na raiz da antena. Compassando-se de um pé após o outro joga-se com tremenda violência por sobre a porta. O estrondo da madeira sucumbindo-se no piso e a luz invadindo a penumbra da sala alerta espectadores atentos às cenas na tela. Claridade pesa absoluta sobre seu corpo. Braços alongando-se desordenados almejam proteger olhos que ardem sem lacrimejar. Entra cambaleante. Luz. Perturba-se na direção da luz, descascando-o ininterruptamente. Brilho metálico das torneiras, azulejos brancos, espelhos que ampliam o campo de propagação comungam-se em crescente potência, investindo claridade sobre ele com vigor inflexível. Sombra finca-se estática. Murmúrio na platéia não impede que ele se observe no espelho com infalível convicção. Seu coração não tolera a exigência de seu medo. Cai como que empurrado por um violento soco. O frenesi em seu corpo causa arrepios na pequena platéia acotovelando-se na porta do banheiro. Salta várias quedas como peixe fora d'água. Ouve-se com horror o ruído de seus ossos amaciando-lhe a carne. Nervos. Crânio. Orelhas contundindo-se pelas lascas expostas da cerâmica. Assemelha-se a uma marionete controlada pela ferocidade abismal de um tufão. Tragado a um incisivo desvario corpóreo. Fica-se com medo de olhar. A miséria em seu rosto é o diabo. Súbito mumifica-se todo encrespado. Espatifado. Da mão em garras de dor escapole a aliança dourada. Espiralando-se pelo chão.
Homem do saco engole meninos feios de boca suja
Eu venho com a mão da mãe que me toca; depois. Depois eu me toco. Depois alguém. Me toca. E este alguém é tantos tipos de acontecimentos de me tocar. Isso é o que está dentro e quase-fora da cabeça. Agora o homem resolve falar um pouco mais alto a ponto de não só ele próprio com seu saco arrastado ouvir. Rosna, ali, com a bochecha grudada no poste. O sopro vem de tão longe e com tanta força que o cheiro de carne apodrecendo incomoda-lhe os olhos. Apesar de que por muito tempo já pensa ter-se combinado ao que a fermentação desenterra. Vermes permitem que se pense pelo caminho de vermes. Cala-te tu também, verme; diz esmurrando o peito. Voz atropelada por um acumulo de catarro. Desfigura-se numa sombra calada. A palavra desmembrada sempre tremula pelo sopro que significa-lhe – mas não se preocupe, pois que trabalham vinte e quatro horas por dia para que o cutelo do vigia permaneça tinindo. Negrume escamoteado. Mão com um de seus duros em riste (ou mais de um se for necessário) demarcando a fenda por onde escoa-se. O rasgado em pontas de rabos de enervantes linhas quase-fechadas minhoca-se por uma fresta desapercebida. Por onde – enquanto atenta-se por onde não pode jamais estar – resvala-se a contaminação que arqueia pulsação. Só na imagem que as mãos espalmadas não atingem é que há umidade; balbucia fundo. Com o rosto de um profeta que acabou de acordar do calor no imundo.
Certo menino brinca na rua quieta. Seus amigos apertam-se atrás do poste que o homem do saco quase escora. Ali, neste aconchego ensolarado pelos lados, o homem do saco estabelece-se vivo, murmura coisas. Tudo é tanto silêncio que um dos meninos engole seco, prende a respiração, alcança a pedra exposta ao sol, estica os olhinhos fechando o ponto da mira. Espeta a pedra na nuca avermelhada quase escura negra. O homem do saco soca palavras para dentro, arredonda uma boca arrotando caretas, sacudindo passos largos. As crianças amolecem-se umas nas outras com tamanha alegria apavorada, alisando olhares gargalhantes, à beira de um susto asfixiante. Tropeçam pernas aos lares.
Certa mãe finca o dedão do pé na lasca do azulejo partido. Na beira da pia trinca a têmpora que vaza berro grosso. O menino, nesse mesmo dia, invadindo o banheiro segundos antes do tropeço, engasgado de um encanto assustado diante do homem do saco, registra as fases da queda na face da mulher. O homem do saco engole meninos feios e de boca suja; dizia-lhe a mãe. Queda em uma câmera tão lenta tão lenta tão lenta que o menino acaba por aprender a roubar almas. A fundura expressiva que se enraíza dali, da queda, sacode o menino. Reorganiza-lhe a saúde. Através dos anos ele estende a mão e atinge uma câmera fotográfica. Ponteiros escorrem insistentes. Ele então também aprende que a luz de estrelas mortas ainda pode aquecer a Terra. É que um olhar fixo provoca fenda num círculo, que então começa a se esticar como uma mola.
Os meninos desfalcam-se em um - ainda que por perto, em clics. Meninos que agora são braços e pernas longas afundando em pontapés as costas do homem do saco de pele curtida de fedor. Arrancam-lhe o saco esparramando trapos, panelas acinzentadas, pontas de cigarro, chaveiros, colher e garfo enferrujados, folhas em branco, livros, canetas. Uivos masculinos acuam o tremor do homem sem saco na dobra da viela - clic. Homem sem saco elabora caretas nas quais os meninos grandes cospem pauladas e tríceps estufados e nós de dedos - clic. O homem sem saco tira calça e camisa - clic, clareando aquele naco de viela com um arroxeado ossudo, um pênis embolado em meio a fios de cabelo. O homem dobra os longos talos finos com bolotas de joelhos até quase tocar no chão as bandas despencadas da bunda - clic. Lentamente expulsa em espiral um pedaço longo de merda tão fedorenta que nem as trincheiras do inferno suado da guerra que os grandes meninos mais tarde farão parte, podem ousar calar. O homem nu pega a merda com as duas mãos, avança-se rumo aos ruídos gargalhantes estilhaçados em distintas direções. Nas mãos espalmadas a merda arquiteta-se num rosto de mulher, olhando o homem com olhos atônitos enquanto ele diz que ela não é mais mulher apesar de ser tão limpa. Porquê o coração não tem perna?; murmura num assovio audível, arranhando longe, sacudindo braços esguios. Relembrando sua dúvida em pequenos lábios esticados e olhinhos à beira de serem cuspidos das órbitas. Impressionado. Realmente assombrado. Quando a professora pediu para colorirem o coração. Dizendo-lhe para apagar as pernas que ele havia desenhado no coração vermelho. Deus sou eu; diz o homem quase já em passos largos e esbaforidos, depois de se dobrar para baixo forçando-se avermelhado com veias protuberantes como que engolindo num soco empurrado para dentro o ar que deveria sair, expulsando um último pedaço de bosta sem peso suficiente para despencar-se pela dobra entre o asfalto e a calçada. Olhando os rapazes já quase no fim da viela, sacode ameaças com mãos untadas e voz ríspida; há um horror em acordar enterrado.
Antes de enfim apagar-se pela fenda
Sobre a mesa esparrama-se fotos, anotações pela caderneta aberta e folhas avulsas arrebatadas em rasgos aparentemente afoitos. Quieto, entranhado, lento, quase sem respirar tal é a lonjura entre puxar e soltar ar, já com uma espécie de certeza que o instante de como que esquecer a percepção de antes, aquela? de quando seguia Haroldo e crescia a vontade certeira de amarrotá-lo do outro lado das grades, instante por onde um deserto chamando-se úmido se impõe, revelado após o eu te amo, sim, e a mão, sim, a mão alçando o braço e depois o outro com uma fome tão estampada nos olhos e não apenas no rosto como em todo o corpo, instante proclamando não apenas uma probabilidade que permite-se consumir-se sem antes ansiar atiçar homicídio àquilo que faiscou-lhe quente, empenando exigência que não quer evitar uma percepção inusitada - mas não estranhada como se não estivesse nele. Com a ponta dos dedos Prinspe abre um leque de imagens largadas umas sobre as outras ainda que sendo inevitável o impacto da cena em cada uma delas. Nuas. Mulheres. Avós, solteironas de cabelos ralos e esbranquiçados, peles rasgadas e manchadas de apertos que não se largam. Gritos espatifados com toda força ao chão, lacrados em cada uma das faces. De cada uma das dezessete fotos em protuberantes cores. Lábios retorcidos, perfurados por dentes só largados dali quando o calor já se foi. E o cheiro já inicia-se outro. Unhas afundadas pelo pescoço. Ossos amassados. Braços e pernas engolidos por rumos que não lhes pertencem. Fúria à imagem e semelhança do eu te amo rendido em ardor rivalizando ao pé da letra com o desinibido Sol do dia. Esse mesmo dia que ainda entra pela janela aberta.
Já havia entrado em sua casa há algumas horas e só agora se dá conta do incômodo. Retira o revólver enfiado entre a calça e uma das nádegas. Vermelhão cutuca osso. Segura a arma de modo mecânico, ainda absorto pelos pensamentos. Algo perde o sentido; quase diz. A gravidade daquelas mortes combinadas à atração provocada pelo eu te amo distorce o equilíbrio em Prinspe a ponto de encolher-lhe a espinha. Músculos saltam em tremeliques. Pela primeira vez em anos ele quer tirar o dia para uma profunda exclusão de tudo que o enraíza-se ele até então. Apagão este ainda assim explora um contínuo embate de perguntas formulando perguntas e daí mais e mais perguntas. A solução é insistentemente uma busca ininterrupta. Olha a câmera fotográfica sobre a mesa enquanto detalhes de imagens ainda insondáveis perseguem-lhe. Prinspe caminha pelos cômodos sem encontrar um depois. Pensa nos colegas de trabalho no Departamento de Investigações Especiais. Desgoverna-se em torções acomodando-se por fim pelo sofá. Estaciona-se excedendo qualquer raciocínio capaz de manter-lhe acordado. Nariz fincado na axila. Sua mão dependurada em rumo ao chão com dedos enfiados pelo escuro que a luz do teto não consegue lembrar. Nuca enganchada pelo curvo braço do sofá.
Visão de Prinspe vai se acostumando com a espessura do ambiente nebuloso. Combinado a essa espécie de fluído turvo, passa a distinguir-se. Neste sonho eis que Prinspe é uma máquina não menos máquina que o teclado de um computador, ainda que perceba-se uma máquina rigorosamente humana. Transpira, formiga-se pênis, cisco umedece olhos. De súbito uma mão gigante eleva-se pelo turvo, enfiando um dos dedos em um olho seu - massa ocular e sangue expulsam-se em respingos. A capacidade em tolerar a dor nesse clic quase expulsa firmeza de seu tornozelo. Berro mudo propaga-se. Grandes dedos torcem clic em um dos braços. Grito prolonga-se corrosivo. Prinspe se sacode brusco buscando desvencilhar-se da asfixia. Seus olhos tremem sob pálpebras cerradas. Quase indistinta fronteira entre ambos Prinspes. Seria o Prinspe no sonho uma fagulha atraída pelo Prinspe que dorme? Ambas extremidades convergem-se em torno de um único - fogo. Ambos argumentam-se simultaneamente. Quase? O que os torna simultâneos é em função de uma tenacidade protegida pela imagem que os foca semelhantes ou um único mesmo el'eu?
Brecha começa a arrastar a carne em torno. Isca-se as margens trazendo consigo lonjuras de minha carne. De borda em borda vou sendo tragado para dentro da escuridão perfurada pela luminosidade de fiapos brilhantes mergulhados em ponto estendido pelo buraco - estirpe de olho faiscado no infortúnio inalcançável de existir aberto. Olho rola dentro do globo ocular. Olho que resta olha os efeitos do apocalipse. Entre horrores por onde a dor avessa-se ininterrupta em paralisia como que insípida, lábios são rasgados pelo anzol que suga. Olho tremula numa estridência crescente e então salta já numa implosão riscando-se à singularidade na cavidade. Braços e pernas são sacudidos com dedos em ganchos até se dissolverem em fios escorrendo ao clarão concentrado. No último instante ínfimo que ainda reconhece-se, antes de enfim apagar-se pela fenda, a dor é de uma tão espantosa fundura que barganho o fim da dor com a vida que quase me resta. Antes de sumir(-me) por definitivo vejo corpos que antes (eu) só pressentia. Prinspe destampa os olhos erguendo-se pelos cotovelos. Boca aberta numa desconexa sucção de ar que o faz engasgar arrancos capazes de lacerar capacidade de emitir sons inscrevendo palavras reconhecíveis. Joga a cabeça para traz e a lua no teto sela-lhe as pálpebras. Prinspe não se lembra do sonho. Permanece a sensação de uma ação expelindo-lhe para algum ponto dentro de si empenando-o inclusive além do momento que parece não haver mais nada a ser atraído. Prinspe está tão molhado de suor que o banho parece inevitável. Há também o cheiro. Por três dias não toma banho, esgueirando-se obsessivamente pelos arredores mais íntimos de Haroldo. Por um momento pensa que, sem quase não se dar conta disso, masculinidade é, entre outros retesamentos, manter o tornozelo sem a permissão que escorrega pernas para dentro. Caminha até o banheiro já se esquecendo da discussão - dentro da cabeça. Incontáveis imagens (tão sem medida, por escapulirem-se velozes) grudadas pelo lado de dentro da pálpebra. Tira a roupa com uma inusitada desenvoltura tranqüila. Água. Pedaços do corpo são carregados ralo abaixo. Ainda assim o tempo que leva limpando o corpo inadequa-se à vontade em sair dali. Água morna rivaliza-se com calor da pele. Fios de água são serpentes esquartejadas na medida em que percorrem a pele. Eu te amo não move montanhas quando tudo que é corpo articulando-se movimento não acende-se à vontade quase incomensurável de agarrar-se à correnteza como sendo o próprio rumo da ondulação. Abre o box e pega a toalha. E quando ondas espatifam-se umas nos peitos e nos ombros umas das outras? Tem esse hábito de vestir-se enfrente ao espelho. Ao fundo vê a foto de seu último relacionamento amoroso. Há quase cinco anos que ele ainda permanece ali, olhando-o vez ou outra. Mas nunca antes houve um corte como o de agora. Convenhamos, nenhum dos dois, apesar de terem morado juntos, jamais se assumiram como companheiros. Mas depois que a união acreditou-se finalizada, então Prinspe adquiriu a postura de repetir-lhe o nome. Invocando Bárbara como íntimo escudo ao tempo destravando-lhe cabelos brancos. Prinspe, como qualquer um, é filtro, e aquilo que não passa pelo filtro é exatamente o que lhe mantém Prinspe? Toma susto repentino ao nitidamente ouvir o próprio nome em uma entonação sonora que não possui o menor resquício que remeta-lhe Prinspe. Quase tropeça.
Não é em torno. É como se um rastro de imagem (dentro da imagem pela qual estende-se) perambulasse-se dentro de seus olhos, ainda que não ali - nos olhos. Não somente ali. Não é somente em torno dele. Rastro com uma espécie tal de invisibilidade que seus vestígios, apesar da penumbra desfiando rompimentos em Prinspe, causam dúvidas provocando-lhe momentos de silêncio. Para então seu corpo sacudir-se em articulações desconexas, confinado num informe que premedita reaproximação das partes dispersas. É impossível descrever a sensação que marcheta nele. Permanece no duelo entre imaginado e o que não é. Prinspe inquieto, arrebatado por uma insistente persistência corpórea devastando-lhe quase tranqüilo. Ainda que por vezes um surto provoque-lhe um passo fora do compasso pelo qual escorrega-se. Prinspe olha o instante em que seus passos ainda não pisaram, sabendo que há um blefe demonstrando-lhe em recuo. Uma tetanização provocando-lhe aflição. Em busca. Aproxima-se da mesa. Junta as fotos. Pensa em cadáveres empilhados. Mas ainda que ele, em movimentos corpóreos com precisão viril, de uma potência que o sustenta equilíbrio, ainda que com os lapsos, ainda assim não há como desviar-se de agitações violentas cutucando raízes tanto em sua carne como no cultivo de pensamentos iscando pensamentos. E no mesmo instante um embate entre a falta de compostura do corpo e o arrepio pelo qual o cérebro intervém. Eu te amo impõe-se contaminando qualquer existência equilibrada. De cabeça quase baixa, com olhar entre sorrateiro e calmo, da extirpe de quem aguarda a inevitável aproximação da presa, sem que esta entre os dentes seja sequer cogitada, começa a exigir uma formulação, uma atitude que enfim não será abalada em seu nó vital. Que porra de merda! Numa brusca curva pega uma das folhas de papel, pendida, esta, entre permanecer na mesa e cair no chão, segurando-a com a força que afunda o braço de Helena, e então. Lê. Em voz alta, numa cadência quase insolente. Poética, tamanha é a vontade de provar vida pelas palavras. Pára. Quieto, saboreia o silêncio com as pálpebras cerrando mais da metade da parte superior dos olhos. Abre a janela por inteiro. Vento o empurra enquanto continua a leitura. Útero. Não foi bem essa a palavra dita por Helena, mas no decorrer do instante foi essa a ausência que permaneceu. Sua mãe nunca foi encontrada. Estaca-se e com rapidez olha pela janela, com uma rapidez tal que os olhos levam um certo tempo para se afixarem. Brilhos tremulam-se tochas. Nem um único vestígio sequer que o conecte a ele ou a qualquer outra probabilidade. Simplesmente desapareceu. Já que não possui irmãos ou outros filhos e ligação de espécie alguma com o pai de Haroldo. Que ela por sua vez sempre se recusou a mencionar, a dar uma pista sequer que fosse.
O esforço é empenar-se pelo rumo que resvala-se sem baques asfixiantes. Adquire-se no prazer que é-se. Cede-se. Apesar disso encontra-se quase cambaleante. Manuseia as fotos uma após outra. Desperta-se cada vez mais forte. Ciente do que deve ser exposto para que então a perturbação se dissipe. Empurra-se ao este el'eu que voluntariamente já é-se. Possui-se pelo que sempre será? Eu te amo é uma ventania violenta ocupando-lhe de fragilidades, crise de consciência deslocando-lhe de seu destino. Prinspe - obediente a si perante a tormenta que não tolera; tormenta irradiada no timbre devassado pelo eu te amo. Abre os braços pelo vento que entra. Linhas de suor escorrem da axila. Na cozinha abre a geladeira e pega uma vasilha com cubos de melão. Regozija-se com o frio que sai da geladeira. Come. Veste roupa escura, perfuma-se, escova os dentes, dependura câmera fotográfica no ombro esquerdo; por cima, estrategicamente encobrindo a câmera, enfia os braços dentro de uma outra camisa, mantida solta e aberta. Bloco de anotações e caneta num bolso da calça, celular em outro. Oculta o revólver como de costume. Atravessa a porta da entrada pensando no dia em que interrogará Haroldo entre quatro paredes e o quanto lhe dará prazer chamá-lo de verme desgraçado.
Enquanto luz estiver por perto
Aquela coisa queima. Não pode ser tocada e está ali. Toda diferente e insinuante com seu corpo invisível, mas que dá um toque de sua existência quando pousa em algum lugar, e ainda assim é como se não estivesse ali. Só se sabe que ela ilumina, clarifica; espeta quente. E foi assim que o menino de menos de quatro anos fisgou-se fora do ambiente pelo qual estendia-se com seu possível corpo. Um certo tipo de quase-esquecimento que é tão fundo que é como se lembrasse de tudo, inclusive o que ainda não se vê. Inflado de curiosidade, olhando o raio solar esborrachado e embaralhado na sua mão, sacudida pelo ar como que se para disfarçar o arrepio que inchava-se dentro de sua minúscula carne. Seus olhos arregalando-se curiosos enquanto o calor pica-lhe a pele.
Um pouco antes o menino então ouve as coisas do mundo. Diante dele formas velozes de um homem e uma mulher empurrando-se em verbos, caretas ondulando as faces não só do homem, também da mulher que o menino não conhecia daquele jeito fera, de olhos bem arregalados e pontiagudos. O menino não decifrou como todo aquele movimento se deu. Tudo foi rápido demais; ou será que ele é que havia sido pego tão de surpresa. A ponta da cadeira de ferro sacudiu a cabeça da mulher. Ela cai em saltos cada vez mais de uma face de dor. O menino nunca viu aquela mulher com os olhos tão fechados e as partes do rosto tão compactadas, espremidas umas nas outras a ponto das linhas caírem para baixo; pesadas de susto? A mulher cai, despencando-se em expressivas imagens afixadas quadro-a-quadro durante a queda; assimiladas pela carne fresca e alva do menino de menos de quatro anos.
O menino não sabe o que fazer. O homem é grande. O menino empedrado olha-o de baixo. O grito cria espinhos grandes, que vão se espichando, derramando-se por dentro em fios. Há uma mancha no homem parado, enquanto promete-se sair pela porta da frente. Sua carne enfumaça-se nauseante, apertando-se por dentro, comprimindo os espaços internos que, antes, arejavam-lhe braços estirados maleáveis ao léu. Mas agora tudo mudou; como que se em um estalar de dedos a água concentrara-se viscosa, ruim de beber. Desaconselhável estender-se por perto, sob o risco de cair enfermo. E ainda assim uma faísca promove uma espécie de purificação sem retirar-lhe o cinza riscado pelas nuvens. O menino não sabe a expressão que seu rosto adquirira, mas sabe que o homem olhou-o fixo antes de sair pela porta. Foi então que ele, como que para tirar o alfinete que brincava de se esconder dentro de seu corpo, decidiu se vingar. Mordeu os dentes com muita força e prometeu que nunca mais aprenderia um nada que fosse com o homem. O menino ficou ali, olhando para os lados, bem devagar e de súbito abrupto, pressentindo que alguém pudesse de repente surpreender-lhe pelas costas. Ou até mesmo pela frente, com seu próprio consentimento, fazendo-o abrir a boca enquanto instala-se aparelhos corretivos ao tremor que entorta a posição dos dentes. Sentiu a mandíbula enrijecendo-se, e um tremor escorregando-se duro até os pés e depois subindo mole. Foi quando sentiu um toque. Virou-se e viu a mancha de sol no chão. Correu para dentro da luz. Seu coração bateu tão forte que nunca mais deixou de sorrir de contentamento ou de ter mero prazer. Enquanto a luz estivesse por perto. Aquela coisa queima.
Cada passo é um pedaço
O menino finalmente abre os olhos. Vê-se como se estivesse dentro de uma bolha transparente delicada e fosca, procurando meio que sonâmbulo rompê-la. Do outro lado ele constata-se pálido por não poder se mover. Por fim o menino de pés descalços consegue se levantar. Esfregando os olhos e ainda assim atento aos seus passos, acende a luz. Abre a porta com cuidado e de cabeça baixa observa o quarto com falsa distração, fecha-a com tamanha delicadeza que o clic da porta permanece tinindo dentro da cabeça.
No meio da sala observa a árvore de natal com tensão palpitante. Cuidadosamente empertigada no canto ao lado da janela, com seu tronco estranhamente fino e retilíneo, de ramificações esverdeadas e opacas, a árvore estabelece-se com artificialidade. O menino admira seu vigor. Aproximou-se de corpo inclinado para frente e com braços jogados ao léu, como se caísse de cabeça no assoalho. De perto observa os pacotes coloridos espalhados ao pé da árvore; imagina qual deles seria o seu e se realmente entenderam o seu pedido. Desalinha na bola de natal a careta que seu irmão abomina; seu reflexo distorce-se além absurdo, nariz gordo, cílios esticados, olhos ainda mais faiscantes. Imagina-o se contorcendo e berrando de raiva e se vê contendo uma saltitante gargalhada.
Poucas bolas de natal. Divididas em duas cores, dependuram-se em um vermelho rubro e um amarelo ouro que não lhe é muito familiar. Lá encima um anjinho todo estático, prateado, de braços abertos como se fosse uma estrela, sempre pronto a mergulhar no que deveria ser um buraco fundo demais. Só o homem grande de mãos enormes fora capaz de colocá-lo no topo da árvore. Esse menino, de pernas tão finas e mãos tão minúsculas, sonhava em se tornar gigante para um dia poder pegar aquele anjo lá das alturas.
Recua em sobressalto refugiando-se embaixo de um dos galhos. Ouve vozes familiares - de sua mãe e de seu pai. Falam pouco, meio que sussurrando. Esquiva-se pé ante pé pela sala e pela penumbra do corredor. Encontram-se na cozinha. Silêncio; apenas seu coração estremecendo-se de curiosidade. Não é necessário enfiar a cabeça pela passagem da porta entreaberta para vê-los sentados à mesa. Garrafa quase pela metade, pratos sujos, vela brilhando, taças úmidas. Os dois se olhando, desviando o olhar e sorrindo. Não abrem a boca para sorrir, apenas as bochechas levantam-se meio que descambadas e depois murmuram suspiros hesitantes, um após o outro. Dizem coisas. O pai com os cotovelos e os braços jogados sobre a mesa, a mãe com uma mão solta sobre a perna e a outra apertando um pedaço de gordura com a ponta do garfo.
Eles parecem estar brincando. Uma espécie de jogo que o menino não desconhece de todo. Recordou-se de seus brinquedos, aqueles que já haviam perdido a graça e que insiste em guardar e dissimular esquecer para depois brincar com euforia e êxtase. Amanhã será o grande dia. Desfigurará o embrulho até chegar ao brinquedo, pela primeira vez. O tremor é de uma voltagem que considera única. Tem até o habito de prolongar a abertura do presente pelo máximo de tempo que seu desejo suportar. Uma ânsia de beber água aperta-lhe a garganta. Esse gosto seco na boca surge todas as vezes que decide desbravar o sussurro da madrugada. Cada passo é um pedaço subterrâneo que quase petrifica-lhe de medo. Mas não poderia entrar na cozinha, interrompê-los no meio da garrafa, bagunçando a brincadeira. Seriam berros com arregalados olhos. Não é hora de estar acordado.
Fica ali bem quieto. Os dois também não se movem. De alguma forma ele também participa do jogo, levantando as bochechas quando é o momento certo e mergulha no transe dos olhares enlaçando-se. Lança-se com tamanha profundidade na cena que é como se nada mais existisse à sua frente. Concentra-se em sua própria respiração como se ela nem sequer existisse. Sente o ar quente de seus pais invadindo-lhe a traquéia, ativando em seu corpo um calor intensamente veloz. Um ardor inusitado espalha-se pelo seu corpo pequeno, partindo em infinitas peças de um quebra-cabeça o mais doce e fundo daquilo que ainda não sabe sentir. Seus músculos dilatam-se involuntariamente. Minúsculas veias exorbitam-se em um ato exibicionista e vigoroso. A mulher empurra-se para longe da mesa num movimento brusco. Bóia um pouco. Reúne os pratos dando a impressão de que lavar a sujeira grudada na louça é o passo seguinte. O homem apaga o brilho da vela. Vai até ela, que anda da mesa para a pia, da pia para a mesa. Toca-lhe as ancas, apertando-se contra suas nádegas. O menino corre para a árvore. De súbito encara atônito seu rosto ora vermelho ora amarelo, nas bolas de natal. Curva-se com rapidez e agarra uma entre as caixas embaixo da árvore. Escapole arrastando-a pela sala. Pensando porque é que sempre que vai dormir não existe nenhum presente ali, mas todas as vezes que acorda de madrugada, os embrulhos estão todos esparramados. Ali. Apaga a luz quando entra no quarto. Com o coração pulando dentro dos ouvidos enfia-se pelo escuro. Ouvindo também o papel de presente se enrugando. Empurra a caixa para o meio da cama. Depois sobe.
Dorme abraçando-a com força miúda.
Tanto por dentro como por fora
Cai pesado na poltrona cheirando a cerveja, ar chacoalhando-lhe dor no peito, barriga protuberante. Corpulento. Seu companheiro dos últimos seis meses de súbito desapareceu; Natal e Ano Novo sem dar notícias, sem responder o celular, com aquele seu jeitinho agressivo no trânsito. Será que houve algum acidente trágico? Seus olhos parados. Dentro do reflexo de seus próprios olhos. De frente para o computador ele refaz o acidente, vê com nitidez sua face de horror assustado contorcendo o braço. O carro espatifa-se em lascas enfiando-lhe funduras, partindo-lhe ossos, trincando o crânio. Expulsando um dos olhos para fora. Permanece ali encarando olhos na própria imagem processada pela webcam, estatelados e de uma secura cintilante. E se ele não morreu? Levanta-se curvo, quase torcendo o tornozelo grosso, já pegando o telefone pelo caminho - afunda os dedos como se estrangulasse os números. Não houve resposta. Afinal onde poderia estar sua mãe por volta desta hora da noite? Oitenta e cinco anos e ainda tagarelando com vizinhos? No caminho de volta para o quarto afia-lhe uma aspereza no céu da boca; e se ela caiu na cozinha?, amassando o nariz na curva da mesa. Porquê? Porquê? Murmura quase infinitamente um amontoado de porquês enquanto perde-se de vista na própria imagem estampada na tela.
Raiva e tristeza quando penso que ele se foi sem ao menos...; balbucia com minúsculos espirros de saliva. De súbito fica tudo vazio, sem significados, parado, engolindo alguma espécie de comida rápida que não consegue sentir o gosto nem o cheiro. Sem ao menos dizer aonde foi que... que merda! O único contato é o celular que ele nunca responde. Nos seis meses que ficaram juntos ele não deixou outro contato que nada mais que somente o celular. Não sabe onde mora ou trabalha. Apenas esperava-o na cama, no sofá, chegando depois da faculdade. Faculdade de Letras. Um lampejo de esperança acomoda-se nele; mas em meio a tantas faculdades nesta cidade, qual delas seria a sua? Seu peito volta a sacudir-se num aperto esquisito como se a bolha de ar se expandisse. Maldito. A verdade é que estava sempre ansioso esperando por ele, por isso, para não esmagar-se tanto, enfiava-se em algum afazer qualquer. Arredonda a barriga com as duas mãos. Sempre com esse hábito de não querer incomodar. Jamais entrou em detalhes quanto à vida de ambos, a não ser aqueles instantes vívidos que estavam enganchados, à espera de um outro olhar que acabasse por lhes lustrar. Espécie de discrição que não seria um estorvo asfixiando o desaparecido, e a si próprio.
O trinco da porta gira junto com o tilintante molho de chaves. O antigo parceiro com quem ainda mora. Seu rosto trincado na tela; quase impossível disfarçar as palavras escondidas, fincadas nele, arranhando-lhe inteiro em busca de uma brecha para escapulirem-se. O que é que tem o meu tchuluchilinco?, assim, com essa cara tão triste? Afagam-se, trocam-se tchuluchilincos em sons afinados e macios. Ninguém permanece em minhas mãos, ninguém. Ergue as mãos, ambas, uma ao lado da outra. Os dois avistam-nas. Ele as trancafia esparramando-as pelas pernas grossas e lisas. Ambos ligam diversas vezes para o desaparecido e deixam mensagens no celular. Preparam uma macarronada enquanto articulam inúmeras possibilidades; adormecem enfrente à televisão até que um dos dois diz em tom grave que é hora de irem para a cama. Cada um na sua cama. O barulho da rua é um tique-taque cutucando incômodo. O outro, o antigo parceiro, ronca alto. Ele não comete um único som pela madrugada. Vez ou outra estica os pés e incha o pescoço. Seus olhos, ainda fechados, permanecem grudados no teto. Sigilo absoluto.
Os dias passam atarefados no trabalho. Muita responsabilidade acumulada neste período de Carnaval. Ele é uma espécie de secretário executivo do diretor de um clube de recreação. Sábados e domingos com camisas de manga comprida, supervisionando as piscinas respingadas por famílias, crianças; bandos de garotos articulando-se maleáveis, com ereções distraidamente atentas. Protuberâncias infladas de modo tão espontâneo quanto os abraços, os mergulhos, o oxigênio que sugam antes de atravessarem a película da água. Vez ou outra despista-se ao computador. Lá, na penúltima sala perto do bebedouro de água por demais gélida, deslizado de suor, apertando o próprio pênis como se desejasse estrangulá-lo. Na tela cria traços e cores avermelhadas e arroxeadas e alaranjadas e amareladas e azul petróleo, larvas e árvores e paisagens e erupções rebuscadas. Sua face adquirindo peso para os lados enquanto mais e mais cores em riscos brotam ambientes. Vale lembrar que ele exercita-se bem, capaz de ocultar ou até mesmo atropelar as reações da vertigem inevitável: na hora precisa, quando de repente alguém entra em seu escritório, um sorriso alarga-se suave e atencioso. Ou a falta dele, dependendo de quem entra, já que com o cargo que ocupa e com as instruções que adquirira pelos anos, pode simplesmente agir como se a pessoa não precisasse existir. Ou ainda utilizar a tática de movimentos bruscos e barulhentos para demarcar limites que desviam o desvelamento, o medo em seus olhos e na face redemunhada. Quase pavor.
Seu cotidiano mantém-se intacto, encaixando-se conforme o previsto. De tal modo que já repugnou-se com a cerveja entre o trabalho e a casa. O antigo companheiro está quase sempre à sua espera. É o pacto que despista os monstros por um tempo suficiente a não permiti-los permanecerem em controle por tempo demais. Assim ao menos são lampejos de calor escuro e ofegante. Há quase vinte anos seu amigo é hiv positivo; algumas vezes não está em casa, mas sempre volta após furtivos toques. Anos atrás, quando o corpulento ainda era magro, num acesso de bebedeira desenfreada, dentro de um carro apertado de pessoas, caindo chuva torrencial, aliaram-se. Retornam-se, enfim.
Certo dia encontrou o desaparecido na saída do caixa de um supermercado. Primeiro fizeram de conta que não se viram, ainda que um leve susto tenha provocado uma intersecção de olhares que os estatelara retina atada a retina. Houve um outro momento que foi-lhes impossível desvencilharem-se, e então sorriram, amplos, com dentes expostos e de uma destreza que jamais poder-se-ia demonstrar a angustia estranha ancorada em ambos. Acenaram-se esfuziantes e nunca mais se viram. Neste dia ele se sentiu livre, provavelmente porque o sol brilhava tão insistentemente neste dia de folga de um pleno sábado que decidiu escapulir para a sauna. Já mesmo enquanto trocava de roupa encontrou um garoto que considerou transbordante de vigor, olhando-lhe com desejo estonteante. Mais tarde houve olhares furtivos pelos corredores; mas foi ali, no quarto escuro, que tudo se consumou, já que perto da luminosidade entrando pela porta é possível captar certas particularidades. Arrastaram-se para a cabine como se fossem siameses. Beijaram-se muito, antes e durante e depois do sexo. O rapaz acomoda a cabeça na sua barriga que mais parece um travesseiro arredondado. Permanece mexendo no pênis amolecido, acomodando as duas bolas espetadas de cabelo na palma da mão. Há muito tempo ele não se sente tão relaxado; cruza os braços sobre a parte de trás da cabeça do rapaz e degusta a decisão das mãos que não são suas, tocando-lhe exatamente nos entremeios decisivos como se fosse ele próprio acariciando-se. Pode ser o amor tão bem aguardado.
Separam-se no bar, prometendo encontrarem-se ali mesmo logo depois do ‘xixi’. ‘Xixi’?; treme inteiro, arrepiado de uma irritação medonha e inusitada diante daquelas palavras. Elas saíram sem freio algum, mas quando o som entrou-lhe pelos ouvidos uma náusea estufou-lhe avermelhado. Fixou os olhos no borbulho que a urina espatifava no vaso, acalmando-se, exercitando sorrisos enfrente ao espelho. No caminho de volta um rapaz esguio insinua-lhe curvas antes de virar pelo corredor que leva às cabines. Passa pela sala de televisão enquanto ambos seguem-se até o bar. Palavras são absurdamente banais. Permanecem pelo balcão tempo suficiente para acompanharem-se até uma das cabines. Desta vez o sexo foi mais rápido, sem muita ofegância. Instaura-se uma certa ordem na transpiração desordenada. Diz ao rapaz que já havia gozado duas vezes, como que querendo se desculpar por algum inconveniente. Aninham-se. Cultivam o estranhamento de um acalorando-se no outro, exigindo um do outro muito mais do que a fricção tolera aquecer. Já é tarde; diz. Separam-se. Permanece por muito tempo de olhos fechados debaixo da ducha. Do banho dirige-se direto para o vestiário.
Ambos ali.
Oferece carona para os dois rapazes, cada qual para um canto da cidade e ele próprio para um outro. Sente-se embaraçado com o farol que não acende na noite escura, nem quando esmurra o painel grunhindo uma promessa de berro. Alguma coisa aconteceu com o carro enquanto permanecera no estacionamento da sauna. Será que o desaparecido seguiu-lhe e danificou o farol? Nossa Senhora. Será? Veio então a luz. O silêncio foi interminável, até que um dos rapazes pergunta se ele poderia colocar alguma música. Enfia a mão embaixo do banco e pega um CD ao léu. Hello! Os três visivelmente disfarçando animação com a música, tiritando os dedos no volante e sacudindo a cabeça enquanto o motorista repete fraquinho... the animal instinct... the animal instinct... O constrangimento deve ter expulsado a voz do garoto que estava no banco de trás, mas pelo desdenho em seu rosto, o vigor em sua voz é uma espécie de asco, de raiva, de sei lá mais o que. O rapaz sabe que está sendo observado por ele pelo retrovisor, e quando seus olhos combinam-se é inevitável ao rapaz sacudir o corpo e a voz numa fúria que só não era propriamente fúria porque ele incrusta uma alegria empenando-se por todo corpo e rosto. Despedem-se sem se olharem por tempo demais nos olhos.
Chega em casa e sobe os degraus com uma dificuldade inusitada. Na cozinha escura toma água, com os olhos soltos num nada com sons distantes. Incomoda-se com a certeza de que há alguma barata olhando-lhe de alguma dobra, à espera de que ele durma só pra subir em sua cama e cheirar-lhe inteiro, cutucando-lhe até encontrar esquecidos reservatórios de alimento quente. E água. Corre para o banheiro e se esfrega embaixo do chuveiro como descascando-se. Sai abrupto. O vapor embaçando-lhe umidade grudenta. O espelho do corredor, bem em frente da porta do banheiro, destampa-lhe inteiriço. Vê-se absurdamente estático. Observa-se a si próprio com uma distância quilométrica, ainda que estendendo-se ambos a menos de um metro um do outro. Pelados. Estacado de tão duro, sem vento agitando-lhe tremelicos, tanto por dentro como por fora. Ele na frente de um borrão de carne desfazendo-se e refazendo-se na cadência da respiração. O companheiro ronca no quarto ao lado. Tem vontade de caminhar em torno da cama, se houvesse espaço. A cama toma a maior parte do quarto, sobrando-lhe alguns poucos passos precipitando-lhe à janela. O celular novinho em folha reluz os números ao negrume da lua despistada do céu; uma sensação de desconforto combina-se à satisfação. Socos acertam-lhe a barriga por toda parte, expulsando quase de imediato as refeições do dia.
De costas para o mar
Debruçados um no outro. Acaricia-lhe a nuca enquanto ele contorna-lhe os lábios com a ponta do dedo. Há uma revelação que lhe obriga muda, uma espécie de cheiro tão demasiadamente incolor que torna-se inviável reconhecê-lo. Um animal quieto olhando-lhe manso ainda que com olhos queimando orbitando por um canto de Haroldo; dispersa-se atenta. Colados na parede do quarto, meio desordenados, desenhos revelando pedaços de casas, varandas de prédios e telhados, por vezes fatias de paredes sem janela ou qualquer outro vestígio. Helena gira, desvencilha-se de Haroldo no ato de olhar para outra parede. Onde há desenhos de cabeças, com ou sem riscos pressentindo orelhas, orelha, nariz, nuca, ombros pontudos, sardas, lábios. Faces borradas por rabiscos prevendo olhos. Sobrancelhas confundidas. O único rosto inteiro é o de uma mulher visivelmente acima dos cinqüenta anos. De uma exatidão impressionante, quase fotográfica. Minha mãe; a voz vem por trás junto com o vento resfriando-lhe a nuca coberta pelo cabelo desalinhado quatro dedos abaixo do ombro. Helena enfia uma unha na outra em silêncio com gestos e olhares provocando palavras em Haroldo. Logo abaixo do desenho vê-se a foto da mãe, quase na mesma proporção, por demais de uma semelhança espantosa. Helena segura um dos seios pela curva por onde cai, sentindo o sutiã; mão espalmada boiando-o por baixo como se estivesse prestes a desabar pelo chão. Então Helena confessa; eu só decidi ter um filho depois que me falaram da morte de minha mãe. Um interesse violento pela maternidade. Isso foi depois de seis anos de casamento com Aurélio. Haroldo de costas para Helena, olhando pela janela aberta para a rua. Fala quase baixo demais; não é que eu não tente lembrar, já me esforcei tantas vezes, mas de verdade eu não me lembro onde deixei seu corpo. Nunca encontrado ou reivindicado nem mesmo pelos vizinhos. Pela primeira vez Helena sente-se profundamente incomodada, ardida como se um fogo a queimasse permanentemente. Torce-se na direção de Haroldo. Agora com as mãos espalmadas no vão de parede logo acima da cortina. Aberta. Percebe as unhas limpas, desproporcionais em tamanho, sem corte, em dedos longos. Lembra da tatuagem de uma cicatriz no pulso direito. É estranho; continua Haroldo; mas depois que o corpo está frio, foi o que constatei nas últimas vezes, o cadáver é absolutamente inútil. Ou quase, para alguns. Mas para mim era tão inútil. Perdia a ereção. Haroldo segue um rodopio de poeira. Por um momento há pausa. Helena; chama. Helena olha. Você me curou com o toque das mãos. Helena olha. O cheiro de súbito acrescenta-se cor. Toque de sua pele, saliva, ar quente escapando. Depois de você a vontade de naftalina soa-me ruidosa. Atenta aos movimentos nele, em cada dobra de expressão facial. Vento selvagem mistura os cheiros numa fúria que os cala. À espera de um impulso que os faça reconhecerem-se a ponto da palavra emergir. Cada segundo demasiado lento, no aguardo de uma escolha decisiva. Precisão tal que os mantém calados. Helena com olhos quase revirados saltando por certos focos aleatórios em Haroldo, alternando por vezes na cortina sacudindo, no brilho que o Sol faísca em algum porta-retrato, em certos acúmulos de lápis nos desenhos. Retira carteira de cigarro e acende um. Mão dependurada segurando cigarro; dali fumaça arrastando-se ao rosto de Helena. E porquê esse sangue não acumula-se? Força do carinho na face de Helena. Força do desejo de olhos querendo sentir o cheiro da imagem escapulida; sensação em Haroldo de mãos com braços esticados atingindo o objeto e atravessando-o como se ele não existisse ainda que tão ali. Ali à espera do cheiro de rugas antigas - antídoto à capacidade de uma pele que barra a outra pele, pedindo-a. Haroldo à beira com garganta entupida arranca a roupa de costas para Helena. Sinto-me um impostor, ainda que comportas abertas prometam-me irrigação fragmentando-me. Os mortos abraçam-me, retiram-me os olhos e que delícia é, confesso, registrar calor esvair-se. Ainda que de algum modo eu saiba que o escuro gélido expulsa o sangue. O cheiro fica; sim, o cheiro de sangue. Ouso; sigo cavando na direção que o cheiro direciona. Destampo e enfio a mão. Esperma com o frescor quente do gozo de agora. Porque não a quero a não ser com essas mãos em torno de seu pescoço, com essa espoja endurecida sendo mastigada pelos seus lábios despelados. Porque os minutos morrem sem sequer ver aquilo que os testemunha em crescimento? Helena dá três passos e já está com os lábios encostados nos lábios de Haroldo, olhando-o nos olhos. Puxa-lhe os cotovelos adequando suas mãos em seu ventre. O calor de suas mãos pode atravessar a carne e desatar os nós extirpados? O sangue escorre pelo esponjoso... crescendo pela metade de seu peso. Haroldo desvenda-se à delicia da espera cutucando reação em Helena. Haroldo enfia-se debaixo das pernas de Helena caindo-se ao chão com os braços enroscados em suas já pernas nuas. Esticando-se pelo chão em contorções de cheiros provocando secura na garganta de Helena. Basta abaixar-se para banhar-se de umidade. E que vontade desvairada de tocar esse corpo que fica duro. Estufando gomos de musculatura. Ondas brotando gotas de suor. Helena com um coração rufando ganchos escorregando-a ao corpo. Ele ali fazendo-a esquecer do vazio desprezado pelo espaço que seu ventre ocupa.
No beijo enfiam-se línguas; empurra nariz para dentro da boca, enfia a mão por dentro da blusa afundando carne com dedos, abocanhando seios com a mão. Mão contornando nuca. Ofegantes engolindo odores, decifrando-os com olhos riscados, por vezes arredondados. Lambe cotovelo suado. De súbito, eis que de súbito... Odores repetidos em demasia tornando-se espinhento e decepados pelas pontas, onde o corpo do cheiro torna-se como que invisível de tão impraticável. Mas antes, antes; o cheiro, no ápice de quase morrer, morde-se a si mesmo por um ângulo inusitado e quase engana-se na estabilidade refrescante de um novo cheiro. Em verdade um quase novo cheiro, afinal o novo cheiro deve ser aquela extirpe de cheiro que é o resultado quando se abre uma porta e passa tocha, combinando-se em pele ao propício que dá à luz cheiro mais encorpado (já que o tempo espatifa-se inevitavelmente além, como todo o resto que empena-se com ele, em todas as direções), quase um outro. O cheiro de agora acumula-se de uma espécie de espera, purificando-se com o lado escuro de si mesmo; lado escuro pelo qual emerge-se luz, contaminando frenesi aos corpos que ainda pressentem o frescor desse cheiro que acena - tão longe tão perto. Ambos olham-se juntos, bem dentro, certos de que é impossível deixar de escolher uma terra nos pés por onde algo lhes proíbe expansão - até ao menos encontrar a chave que empena o corpo a uma nova fase?. Por alguma espécie de sorte os eus vistos, aqueles que não se importam com o buraco no ventre ou com a promessa do esponjoso encolhido, esses eus já conservam-se recuperados, desatados das mordaças que os mortos assoviam num tom de tamanha propriedade que quase o corpo inteiro corresponde. O quase tantas vezes é tão ínfimo que o corpo despedaça-se, ainda que o germe desse quase seja repassado a alguma certa espécie de corpo seguinte. Apertam-se aflitos, sedentos por manterem-se sem o endiabrado que afugenta-lhes - membro rijo encaixado na carne fendada. Abraçam-se quase afoitos, ainda que mais frenéticos que silvestres. Será que essa angustia tem que ser lar? Essa mão tremula em torno do pescoço, essa saliva agrupando-se em cuspe. É quando Helena e Haroldo empurram-se com um carinho que os sacode abrupto desate. Helena levanta-se cambaleante; Haroldo usa a parte carnuda das mãos para arrastar-se de costas até a parede. Helena cola-se aos desenhos, com o suor das nádegas e das costas assimilando cores de diversas nuances acinzentadas. Enfiado na dobra da parede, Haroldo fala; percebi nessas horas todas com você que não preciso me esforçar para lembrar o passado recente, contigo. Helena espalhando suor com as palmas das mãos. E este toque me contamina de algo que me fortalece para seduzir os mortos, calando-os sem que suas faces sejam diabólicas. Arqueiam-se um em direção ao outro, parando a uma distância segura. Abrir a porta e passar a tocha pode despedaçar o corpo que não sabe como tolerar o ambiente exigindo-lhe troca de calor - e tudo o mais que estiver ao alcance de seu uivo. Eu posso dizer estupidez; é Helena quem sacode o ambiente. Mas. Mas muitas vezes me parece que quando Armando bem criança me pedia um confirmação de sua masculinidade, eis que eu, numa repulsa incontrolável, recusava-lhe tal olhar. Quer saber? Ou será que o que quase disse é mera desculpa para a culpa? Seja lá o que for, acredito que não importa o que eu acredite, criar, abrir as pernas e expulsar vida é um ato que se dá de inúmeras formas, até mesmo em seu avesso, pois o nascimento pode ser a morte de tudo isso. Meche a cabeça como se olhasse em torno, mas seus olhos estão fixos em Haroldo. Bem, desde que a contribuição daqui, sim, desse aqui, passe a tocha. (E se o ambiente dentro da porta que se abriu não estender a mão?; pensa.). Só de ser assimilado já não há mais retorno. Sorriem-se. Então calam-se bem cortantes, de uma fundura tal que olharem, em sincronia, para o corpo, parado, olhando-os, do lado de fora da janela aberta, não causa-lhes espanto. Prinspe arremessa as fotos para dentro. Esparramam-se pelo chão - umas expondo mulheres mortas, outras prometendo-as. Ainda que a fundura do silêncio seja profunda, dessa vez espanto e horror na face de Haroldo é de uma torção de causar vômitos em Helena. Haroldo abaixa-se até o quase quadrado branco, erguendo-o pela borda pontuda. A imagem vai nascendo como o Sol. A imagem, assim, entre os dedos, é uma espécie de tocha que exige que a porta se abra e que então a combinação faça-se inevitável. Haroldo olha Prinspe.
O olhar entre eles, os três, ultrapassa a moldura que se vê de fora e pelo lado de dentro. Os três vistos compõem uma força que os atrai e os repudia entre si. Helena se move, encaixando um faixo de luz arredondado em torno de seu olho. E sobrancelha. O fim da tarde rabisca ranhuras gordas ou farpas de luz pelo ambiente de dentro. Uma onda de energia em vento desgruda os fios de cabelo molhado contornando os ombros de Helena. E arranca um dos desenhos. Jogando-o em meio às fotos caídas. Prinspe entra para o lado de dentro. Joelhos de Haroldo tremem. Janela parece estufada. Tornozelos escorregam-se desnorteados para o lado de dentro. Prinspe com grandes mãos fortes dando impulso ao corpo esguio. E de coordenação admirável - apesar do peso fundo do susto em Haroldo e Helena. Pênis de Haroldo, até esse então um tanto quanto aleatório, endurece, empinado com uma superioridade que ultrapassa a potência do instante. Prinspe pula sobre ele com a mão em seu pescoço, apertando-o com uma vontade capaz de expulsar língua e suor. Seu maldito ausente, sente agora a dor nas suas dobras? Como é que é o tempo com olhos esbugalhados? Haroldo estica braço à aflição de Helena. Grunhidos arcaicos saem por entre seus lábios tortos com uma língua estranhamente inchada, obstruindo o vão da boca. A falta de ar resseca-te de que tipo de umidade? Helena segura os braços de Prinspe. Quais são as credenciais que te fazem dono do pescoço? Sua voz é tão forte que Haroldo a ouve em cada curva apesar dos empecilhos. O que te dá a alta reputação de definhar os mecanismos que manipulam as mais entranhas das vielas do corpo? Com a outra mão ergue-lhe a cabeça pelo cabelo, soltando-lhe o pescoço. Haroldo se sacode num desespero feliz. Mãos de Helena puxando a camisa de Prinspe, enfiando-lhe unhas pelos braços. Permite-o desvencilhar-se. A delícia em desfrutar o ar clamado é dádiva tapada até por qual decisão? Haroldo engasga com a ânsia de buscar ar, recompondo-se enquanto veste camisa e calça. Pés nus. Helena também faz o mesmo. Em Prinspe de súbito, pego de uma surpresa tal, a carne humana arranha-lhe a garganta. Afastando-o em passos duros. Titubeando-o em pegadas pesadas, fincadas como se devessem assegurar a imagem ressente.
Lábios carnudos atando os olhos de Haroldo, animando tremor em determinados músculos pulsando-o a um certeiro movimento nas pernas e nos pés perturbando o corpo de Prinspe em arremessos fazendo-o percorrer o ar com um desgoverno escapando-lhe a cabeça na dobra da mesa. Pincéis e canetas pelo chão, papeis em branco e um esboço sem ganchos também. Uma presença fugidia alimenta rigidez pelo corpo de Haroldo. De imediato acompanhando Helena pela mão conduzindo-se ambos com feroz rapidez pelos cômodos até a porta da frente. Estranhamento proporciona-lhe incômodo, parando-o à porta aberta. Olha para trás. Não se contenta - uma espécie de angustia consome-lhe o calor que ativa-lhe de pé e em articulações corpóreas injetando-lhe curiosidade. Helena e Haroldo seguem-se escada abaixo, corredor, portão, degraus, esquinas. Permanecem no compasso enquanto pessoas raleiam-se. Enquanto caminham, Haroldo, com a memória ativada pelas imagens que Prinspe atirara ao chão, lembra-se de silêncios esquecidos em um repente que lhe comove. Vê-se calado olhando o rosto de sua mãe, só não morta porque sua mão sobre a barriga abaixa-se e levanta-se. À partir de. Esse. Desse homem arremessando imagens. Imagens emergiram-se do vazio. Emergem-se. Abrem caminho. Descalços. Forçam-se em seta. O cheiro no ar surge-se de uma umidade até então desapercebida. Ao longe, enquanto Lua ergue-se pelo escuro, o mar enfia-se em ínfimos fiapos pelos ouvidos. Ambos em passos menos assombrados. Pisam na areia quando percebem Prinspe, quase audível, com bocas abertas e de arma em punho, em passos largos pelo começo da rua tão longa que o possível grito só é palpável aos ouvidos pelo debater afoito da expressão facial e dos músculos sacudidos numa rigidez quase sem arbitrariedade. Helena e Haroldo acalmam-se quando água molha-lhes os pés. Olham-se. Olham-se. Olham-se. Abraçam-se com uma força tão exorbitante que por quase mais que um momento perdem o equilíbrio que o ar escorre. E quando se soltam o aperto é-se definitivamente insuficiente. Apertam-se novamente. E uma vez mais repete-se insípido. Prinspe mais próximo. Haroldo despe-se. De súbito vê um feminino em Haroldo. Cheiro distinto quando o vento desembaraça desalinho no cabelo dele. Pressente um benefício nesse homem que não consegue degustar? - não só na ponta da língua. Beija Helena pelo rosto com uma estratégia que seduz os lábios como que último desejo inevitável. Vento leva cueca. Beija-lhe pálpebra; lábio inferior sendo espetado pela maior parte dos cílios. Corações acelerados. Emerge em Helena a força do repúdio numa mulher recusando-se a ter filho, já que então não se sente apta a torná-lo melhor que ela própria. Uma mulher flácida deitada na cama assistindo televisão e bebendo cerveja e comendo coisas light enquanto não está no trabalho. Lembra-se menina, tonta de fome, já que seu pai impôs a silenciosa condição de alimentar a família se sua mãe (somente se) enfim desbrave-se com pernas em gemidos pelo sedento homem que entope a pia do banheiro com vômito cheirando álcool. Grãos de arroz. Areia entre as unhas enquanto afunda os dedos do pé tocando algo duro. Que pode tanto ser uma concha guardada dentro da gaveta escolhida a dedo. E a Lua pela metade. Ou quase. Beija-lhe os lábios, alcançando ali o apogeu; apogeu demolido quase no instante mesmo em que lábios despregam-se. Esfregam-se rostos. Engole saliva e corre em direção ao mar aberto. Respingos. Haroldo parece se movimentar tão largo e pacífico como nunca. De algum modo, ali, ambos evitam a armadilha de serem o que o ambiente dos dias os nasce incessantemente. E ainda assim, quando Haroldo se levanta do primeiro mergulho, seu argumento de movimento corpóreo clareia-se como combinação infalível a um mapa de caça ao tesouro que compartilha-se como armadilha. Ao parar por um breve pouco instante antes do próximo mergulho, eis que Helena acredita que Haroldo irá retornar à areia ainda sem espuma. Haroldo olha o escuro. Escuro descortina possibilidade longa, vasta e funda de desenquadramentos. Treme. Combinar-se com este entorno estimula hipóteses áridas nem tão inusitadas assim; mas de um horror com os membros se sacudindo como que em uma queda que engole o corpo para dentro. Seu corpo pede, ainda - habilitando-o a uma conexão perdida. A ser redimensionada. Helena sente então um ódio fulminante com garras afiadas capazes de podar com fúria quase contida o resto que desnorteia o broto de esticar-se pelo espaço destravado. Esporando fruto, vários lábios abrindo-se. Cabelo sacudido pela brisa úmida. Enche o peito, toca os cabelos das pernas com as mãos espalmadas. Com graciosidade enquadra-se água adentro. Helena pisca pouco. Curva-se num susto. Cabeça num baque empenando vento em direções inusitadas ao riscar olhar entre Haroldo e Prinspe. Prinspe bem ao seu lado, despindo-se. Com olhos na direção em que Haroldo desliza. Tira meia pelo rumo que pula-lhe ao mar. Prinspe arrepia. Sim. Há um absurdo empenando-lhe alegria ao não querer voltar enquanto afunda-se na água. Desde que. Sim - desde que Haroldo ainda se desponte quase desapercebido pelo escuro que só não é engolido pelo seu próprio afago negro porque ainda pode. Porque ainda pode. Pode. Escapar-se. Então Helena naturalmente introduz-se nas braçadas de Haroldo. Sente angustia essa mulher. Aperto. Aperto quase curvando-lhe joelhos na areia. Helena não quer parar de ver. Mas é que o escuro, apesar da Lua, forma um arco que seus olhos não conseguem mais acompanhar. É que o escuro forma um arco. A não ser o homem, ainda. Prinspe desembrulhando-se na direção que Haroldo demarca. A ocasião veio ainda mais cedo do que se esperava - ou foi na ocasião que o empenamento demanda-se, já que o rompimento que causa a espiral leva tempo demais. Tempo tão fundo de distância que o espaço que mantém corpo pede por aquilo que nem conhece. Tão largo que a visão de Helena então já só é capaz de instigar a imaginação. Como rejeitar os traços vivos que não podem representar conforme aquilo que o pulmão debruça-se pedinte? Não podem ainda. Ainda? Haroldo diminui braçadas; ergue a cabeça. Estrelas, Lua. Solta um grito. Longo som que da praia é presença invisível. Helena abaixa-se em direção ao duro que um de seus dedos do pé toca. Quase sorri. É concha. Apalpa; segue as rugosidades. Ouve as ondas desenrolando-se, vê as estrelas. Com a mão fechada caminha de costas para o mar.
Lava a boca na pia da cozinha
Dentro do ônibus os rostos quietos são sacudidos não pelos solavancos. A mulher de óculos escuros, cabelos impecáveis de tão penteados e escorridos, treme os lábios em fúria arranhando verbo pra mulher encardida e pequena, com óculos deslocados e caroços nos braços. Você merece a sua imundice, diz a mulher de cabelos esticados; eu sou muito mulher pra ir andando a pé lá de casa até o centro, retruca a outra. A mulher que não se vê os olhos tem vigor e no seu tom de voz palavras são como profecias a serem cumpridas. A encardida com caroços nos braços ameaça um choro sacudindo a carteira que atesta-lhe velha o suficiente para estar ali sentada. Um homem acomodado nas escadas grunhe alto um som desconexo, recordando quem sabe teu próprio nome nos tempos arcaicos. Pessoas riem dizendo que o ônibus foi premiado. O dia promete. Duas mulheres resmungam-se. Descem no mesmo ponto empurrando-se. Por um instante, na superfície do vacilo, no baque de uma espetando a outra, é possível ver o rastro breve dos olhos com borras avermelhadas de uma enquanto os óculos de grau da outra harmoniza-se ao rosto torto. Na medida em que se separam uma linha divisória as aproxima.
O cabelo penteado da mulher de óculos escuros chega em casa já à beira do esbaforido. Sem as ondulações estratégicas disfarçando o branco na raiz. O já fraco batom rompe lábios encardidos de sol. Rachados. Exausta de manter obscuro o fato de seu braço e de sua perna esquerda terem rótulas ressecadas. Em casa o pé arrasta e a mão já não tem mais a alça da bolsa para disfarçar dedos enfiados para dentro. Olhos esburacados por pingos avermelhados. O estalido dos óculos escuros na cômoda devolve-lhe o susto diante do homem que há muitos anos já não é mais seu marido, batendo-lhe a cabeça na borda da calçada para que enfim deixe de olhá-lo com a afronta que esvazia-lhe o pênis. E foram tantos anos sendo socada de boca amarrada que hoje ela dorme com a boca aberta engolindo estrondos como que empurrando-lhes para fora de si mesma. Ancorada dentro do que lhe caminha pelos dias, salta de volta contra o aniquilamento como quando se bate um martelo no joelho que pula perna, ruindo sons obscuros para que ninguém deixe de saber o desvio de cálculo entre o corpo e o íntimo deslizando-se cada vez mais lá para depois do fundo. Chamando fisgada.
A filha alva que mora com ela olha-a ora com nojo ora com pena ora sem saber como olhar. Ajeita os grossos óculos de grau e sai de perto. Seu neto diz que sente saudades do cheiro da avó até mesmo quando está na escola, mesmo sabendo que a encontrará na hora do almoço. Foi só bem mais tarde que ele descobriu que o cheiro do terreno baldio, onde joga-se lixo, e ali fica por dias e dias debaixo do Sol, agilizando a fermentação de vida nervosa, é o mesmo cheiro da avó contando-lhe o que ele não viu ou quando recurva-se bem de perto. Coloca no rosto os óculos de grau guardados dentro do pequeno armário do banheiro. Pensativa tenta decifrar a imagem de um Oceano revolto, desenhando a possibilidade de um olho? boiando por um mar de lampejos frenéticos. A maior injustiça é que nunca consegue se ver quando está toda arrumada. Só consegue assim, desalinhada. E mesmo quando está penteada e de batom, ainda assim aqueles óculos incham-lhe os olhos de um modo que parecem querer saltar para fora, escapulindo do corpo que ela nunca consegue sequer adivinhar a quem pertence.
Eles sempre se encontram, o neto e ela. Soltos um enfrente ao outro, descobrindo-se pelos dias largados de distância que lhes pertencem. Ela que parece um pedaço de pedra, na frente dele desmancha-se em carinhos e afagos. Dormem no mesmo quarto. A avó ensina-lhe a tarefa enquanto ele ri de beleza, do mesmo modo como quando joga xadrez com ela. Ela frita o ovo que ele come com arroz, feijão, carne e nada de verdura. Assistem novela juntos. No início foi uma tortura para o pequeno corpo esticado para a sua idade ficar ali parado na cama diante da televisão. Por vezes ele permanece saltando no vão entre as camas enquanto alguma vilã da novela aperta os olhos carregados de maquiagem grossa e ultra-colorida. Qualquer motivo que exalta a avó é motivo para ele pular na cama, berrar desatinado, escorregar-se para o chão e rolar na imundice guardada durante uma semana. Até que a empregada troncuda venha e limpe numa única manhã semanal. Mas não é bem sempre assim, já que por vezes revezam-se arrastando vassoura pelos caminhos que se anda – não agora, já que a vassoura quebrou e ninguém nunca lembra de comprar outra. Há o dia em que a empregada vem e cantos e dobras dão a impressão de não estarem à espreita do momento em que a palavra ausente será dita e o deságüe do véu vai empoeirar tudo de incômodo. Neste dia a empregada entra com seu rosto cavado de manchas e conversam saltitantes. A desalinhada de cachecol mornando-lhe a garganta febril, lavando louça; a troncuda baixa e corcunda fumando na mureta onde se pode fumar, bem de frente para a janela e de costas para os bancos. Tomam café juntas. O café ralo que a troncuda delata para as vizinhas. Se bem que agora a troncuda não tem tantas manchas cavando-lhe o rosto – é que anda usando creme vaginal antes de dormir. Segredo descoberto por alguma amiga que nunca lhe olha nos olhos.
O impulso quente do dia é esperar a marmita chegar. Que ela abre com um descuido tão bem disfarçado que ninguém percebe que ela está faminta. Pode ser que desconfie-se no momento em que ela senta no canto do balcão, bem de costas para a janela, com o prato estranhamente estufado para cima, já que ali ela se curva, faz o sinal da cruz umedecendo os dedos e os lábios. Vizinhos ficam nas janelas olhando a mulher se mexer, enfiar os dentes dentro das fissuras de onde desfia nervuras. Chupa tutanos. A filha chega quase sempre só; já não mais com amigas que ela ligeira ao quarto, liga o som ou a televisão, coloca a refeição de cada uma delas e fecha a porta da cozinha, deixando bem claro que o banheiro é a porta bem do lado de seu quarto. Quando a filha retorna ao trabalho, com os músculos faciais doloridos de tamanho esforço escondendo o terror que lhe treme encima do salto insistentemente alto, ouve-se os sons dos pratos e da água caindo atrás da porta fechada. Depois a desalinhada atravessa o corredor de uns 60 centímetros onde está sua foto com cara de atriz estonteante quando só tinha ainda aberto as pernas pro primeiro filho, entra no quarto da filha e pega os pratos sujos e fecha a porta. Liga a torneira. Sacode-se amolecendo o escuro quase ressecado. O neto chega já despistando-se da comida, esticando o tempo na frente da televisão enquanto a avó pede-lhe para tirar o uniforme escolar. Ele exercita-se no faz de conta que é-lhe possível escutar a avó sem escutá-la. Quando entra a outra filha que é mãe do neto, a avó já está aos berros e a confusão está armada. Essa filha carnuda fica escura como bicho acuado, atirando coisas no filho de corpo sacudido por tremores pedindo ajuda ao inusitado, tamanho é seu espanto pequeno. Pequeno mesmo só pra caber em seu corpo de criança, já que o espanto arregala-se de horror com os solavancos afundados em sua pele, enquanto a mãe perfura a porta do guarda-roupa com objetos atirados, vez ou outra gritando que deveria ter esmagado essa merda bem entre suas pernas, durante a cuspida. Eu lhe dei vida e eu lhe mato. A desalinhada está ainda mais alvoroçada com a mão amassando o queixo. Reconhecendo na filha o timbre da voz do seu antigo homem entupindo o ralo com seu vômito ardendo as narinas. E um peso estranho nos punhos.
O menino pede para dormir na cama da avó. Trêmulo com olhos ariscos. Ele quase sempre dorme esparramado de pernas abertas e braços soltos pelo colchão; nesta noite dorme com as mãos entre os joelhos a meio caminho do peito. Sua tia acorda-lhe entregando-lhe um papel onde você encontra o telefone da polícia que ajuda crianças sendo assustadas - você não está sozinho; murmura a filha em palavras por pouco despercebidas. Enruga o nariz alçando os óculos. No dia seguinte o neto acorda num único salto de rosto esperto, tão diferente das outras vezes, falando da possibilidade de não precisar ser assustado. A avó amassa o papel repetindo a burrice inútil que é tentar mudar a mãe. Já que deve-se perdoar-lhe a falta de humor e até mesmo essas fisgadas desenhadas pela tua pele fresca. As pessoas são assim e com o tempo mudam; repete a avó cuspindo palavras com ira. Esquecer, você deve esquecer. Nos anos seguintes o homem nem se dá conta de que as lembranças, as manchas enraizadas pelo corpo de criança são tão persistentes que é como se ele tivesse acabando de nascer ininterruptamente. Vai escovar os dentes 'mulequi'. Vai tomar banho 'mulequi'. Sem demora, viu? Deixa a porta do banheiro aberta que quero ver o que é que você tá fazendo aí.
Borras vermelhas pelos olhos. A mulher se mexe na frente da pia. Instintivamente leva a mão à barriga. No rádio o padre diz que aquela mulher, sim, sim, você mesma, com cabelo em desalinho, aí na pia da cozinha, não deve se sentir só. Deve se erguer e pegar a mão de Jesus Cristo, estendida para você. A mulher tremelica e chora. De seus olhos escorrem lágrimas cegas de raiva. Dentro dela um estranhamento escapole-se num frenesi sem possibilidade de precisar velocidade e posição; um projétil se debatendo pelas paredes com tamanha coerência humana que apesar do negrume sente paz - então ela se tranca o máximo que pode só para despistar-se projétil engordando. Com as mãos molhadas alisa os cabelos. Meu Deus, eu sabia que não estava só, tá vendo? Alguém sabe de mim. Sabem que ela está ali - assim. Aumenta o volume do rádio. Acuada com o tremor que os olhos alheios causam-lhe. É só para a voz que ela conta os seus segredos, mais ninguém. Aperta os lábios e pensa enquanto ouve. Relembra com profundo arrependimento as inúmeras mentiras que contou quando criança e que continua contando até ontem mesmo com incrível veracidade. Ninguém jamais desconfia. Mas quando isso acontece a astúcia é descartar para bem longe esse corpo que pode ruir do boleto bancário os números enviados pelos outros filhos. Ninguém jamais vai saber de seu horror; antes mesmo que alguém por mísero acaso chegar a desconfiar, a desalinhada vai se pintar e escovar os cabelos e esbravejar, acarinhar todas as ordens quotidianas que devem ser postas em prática para que nenhum vizinho ou parente desconfie que ela, quando não tem ninguém olhando, lava a boca na pia da cozinha.
Hoje é frio. Olha a marmita com uma cara afundada. Cadê o mulequi? Mais uma tarde inteira só dela. Mais uma tarde que a desalinhada entrevar-se-á ávida. Aparentemente apática. A mãe pegou o neto em uma tarde juntos, sem avisar, bem na saída da escola. É que a filha não gostou de ver o quase sorriso malicioso na cara da mãe quando o neto olhou a avó com um afeto que a mãe nunca pegou para si. Um começo de tarde sem trilhos. Não é mais um começo de tarde abrindo a marmita, amassando o alho pro feijão cascudo, colocando comida pro neto. Mais uma tarde inteira com o silêncio que esquiva-se junto com a água derramando a sujeira dos talheres. Não com a mesma atenção distraída - há uma distração outra. Há, repete calada. A mulher olha esquiva para os membros inertes. E o homem antigamente bem antes de sair-sem-voltar diz que ela, com a metade do corpo empedrado pela veia entalada, não é mais mulher. Já que o fluxo em seu pênis, como ordena os dias de sua matilha, depende de uma presa que não esteja sangrando tão à flor da pele. Pele. Puxa a cortina. O frio entra menos. No rádio a piada curta. Solavanca-se em susto. Algum toque? Quem? Olha afoita pelos lados de si. Dá-se conta que é a própria gargalhada. E ainda não está nem no começo da tarde. Mas quer saber? Vai ser agora mesmo que ela vai mudar tudo, vai sim, vai ser em algum momento enfim ser. Vai cortar o cabelo em channel, passar o lápis ao redor dos olhos como a heroína da novela, arranjar um lagarto de estimação, e pra mudar de vez essa grossura ajuntando-se pelo teu corpo vai é rejeitar os mamíferos abrindo as pernas de bom grado para castração. Só para acreditar que não é uma pedinte ela vai gastar seus dias abrindo caminho para ler Vidas Secas com gosto, vai dizer muitos nãos, ouvir música que poucos ouvem, mas também não vai deixar de ouvir o que todo mundo ouve, ainda que de longe. Vai gostar de morar sozinha, vai gostar de respirar fumaça e esbarrar-se pelos amontoados de gente na calçada, vai tomar refrigerante light, comer alface acelga jiló jurubeba, vai ter um jacaré de estimação. E vai colocar uma tatuagem na nádega esquerda. Vai sim ouvir a voz do sangue enquanto mastigar carne de porco, sentada ela e o neto na cama assistindo televisão. A mesma carne de porco que no supermercado foi posta em promoção porque está quase podre. Quase. Já que no dia anterior temperou tão fundo com cebola, vinha de alho, gengibre e alho amassados juntos, muito limão e shoyo. Muita pimenta.
Malditas monstrengas
Paulo ainda tem a chave. Morou desde os nove anos com a avó. A porta continua meio que emperrada, o trinco solto. Esta sentada no sofá. A luz da televisão mostra-lhe o rosto, parado; depois seus olhos se abrem e os músculos na altura da bochecha empurram-se para cima. Levou certo tempo para sorrir: do mundo em que era somente ela até o mundo em que estavam ambos, ali, havia uma distância carregada de silêncios esburacados. E os buracos eram valas que por vezes tinham anos luzes. Lembrou-se, enquanto caminhava até ela, da ossada de um rato que um dia encontrou na fenda apertada entre as duas almofadas da poltrona da sala. Seu lugar predileto. Depois daquele dia nunca mais sentou-se ali, ao menos não quando ele estava em casa; lavou as capas que antes eram cor púrpura, mas que agora têm um vermelho bem clarinho. Já está com setenta anos, ainda este ano; caminha sem ajuda de bengala, tem pernas grossas, ancas fortes, faz crochê sem a necessidade de óculos. Sua barriga é estufada, não porque seja gorda; ela nunca disse, mas Paulo acredita que seja devido a algum tipo de complicação que ela herdou das noites em que varava a madrugada costurando. Passava a noite segurando a vontade de defecar, permanecendo de bunda amassada no banco até que terminasse as calças jeans que pegava aos quilos numa fábrica. Durante o dia lavava trouxas de roupa. Nesse hábito acumulado de barrar o bolo fecal chegou a vomitar fezes durante muitos anos seguidos. Quando criança Paulo sempre sentira falta do teu cheiro, o cheiro característico dela. Mais tarde percebeu ser cheiro de bosta. Vou preparar algo para você comer. Não precisa; diz apertando-a antes que se desvencilhem meticulosos. Sentam-se de frente para a televisão. Ela permanece segurando-lhe a mão, aquecendo-a na altura do ventre. Estava com saudades, vou dormir aqui hoje. Ela sorri satisfeita; vou pegar um copo d’água, quer um pouco? Eu pego. Não, eu pego; as últimas sílabas soaram quase ríspidas.
Ergue-se altiva. Por um instante despista-se a angustia com tamanha eloqüência que é como se nada daquilo existisse - toda aquela escuridão, as cortinas fechadas, o cachorro endoidecido pela presença de Paulo, acorrentado no pé de goiaba, seus curtos passos rumo à cozinha, a rosa branca ao lado da televisão, que provavelmente trouxera da missa que freqüenta no fim do dia; como se tudo em torno fosse um equívoco, uma miragem que os olhos de Paulo não precisam acreditar. Com o passar dos anos o mundo dela tornara-se impenetrável. Há quanto tempo eu não ouvia a gargalhada de Silvio Santos? Quantos dias em vão ela deve ter esperado por uma visita? Tantos dias que já nem deve mais se importar. Será? Será que realmente não mais se importa? Vovó nunca soube escrever, mas quando criança, enfrente ao tanque, ditava-me coisas que ela dizia serem encantos cantados sem música. Paulo olhando, sem realmente ver o que provocava o compasso daquelas luzes iluminando-lhe a face. Paulo recobrou-se do devaneio ao ouvir as respirações raspadas de ânsia, que a cada ano soavam mais e mais arranhadas e, estranhamente, angelicais. Curva-se oferecendo-lhe o copo. Seu cabelo está mais longo que antes e bem mais volumoso, cobrindo-lhe as orelhas; em seus lábios um batom discreto - ela sempre carrega batom dentro do bolso do vestido. A qualquer hora do dia lá está ela arroxeando os lábios. Amanhã de manhã a gente pode subir no pé de goiaba. Você não viu, mas ele tá carregado, lindo de ficar olhando. Seu rosto ilumina-se; eu me esqueci, eu me esqueci, eu fiz doce de mamão verde, quer? Paulo acena que sim. Afasta-se resmungando o quanto esquece coisas nestes últimos anos. Estaca-se repentina virando-se para as cortinas. Vento forte na vidraça. Sempre o vento na vidraça antes da chuva; declara. No caminho até a janela ouve-se um estralo. Paulo gira o pé e vê uma barata esmagada. Empurra-a com a ponta do sapato para um canto. Escancara as cortinas. Pega a chave e abre o cadeado na alça da janela. Um ramo de árvore cutuca afoito a vidraça. Paulo recorda da última vez em que comeu goiaba do quintal, estavam cheias de bicho. Permaneceu na superfície, na casca, distraidamente alerta. Quando menino você vivia dependurado em seus galhos; diz pousando a mão sobre sua omoplata. Paulo resmunga que sim com olhos parados nos retorcidos nacos do pé de goiaba emergindo-se do ambiente escurecido. Na tigela o doce esverdeado estendido em meio à grossa calda; sua boca incha de saliva, comprime os lábios com satisfação. Ele come de pé. Ela range descontrolada com o vento frio. Tosse uns ruídos entupidos, cheios de galhos e terra e folhas na correnteza de um rio alargado após uma tempestade. Ela retorna rapidamente ao aconchego do sofá. Ele a acompanha depois de fechar a janela. Vento assoviando na curva dos galhos. Finge estar atenta ao controle remoto enquanto muda de canal; mas seus olhos estão mesmo é cintilantes sobre ele, saboreando o prazer de Paulo enquanto mastiga o doce. Finalmente a chuva cai. A fresta na janela não contamina o interior de frescor.
De súbito sua face adquire uma expressão de ódio, olhos arregalados, face enrugando de um horror dos diabos, seu braço esquerdo atira-se arrepiado em direção ao pescoço de Paulo. Sua mão espalma a parede num estrondo estralado, a milímetros de sua nuca. Na palma de sua mão uma barata esmagada. Malditas monstrengas, e não é que estão cada vez mais entronas? Vai até o banheiro resmungando palavrões interrompidos para a própria mão. Dá descarga no vaso. Retorna para a sala vestindo uma blusa de frio de lã. Eu mesma fiz; fala com um orgulho e uma arrogância de dar calafrios. Mas a paz toma conta do rosto quando olha para ele. Se você tivesse me dito que viria eu teria entupido essa casa de inseticida. Paulo não consegue sorrir. Como vai seu amigo?; pergunta enquanto retorna à sala, retirando-lhe das mãos o vasilhame vazio. Acompanha-lhe até a cozinha. Eu não sei direito. Alguma coisa aconteceu, sei lá. Vejo coisas. Sinto-me em alerta para situações que antes eu não parecia dar muita importância. Vejo coisas que antes eu não via; vejo coisas que antes eu via de um jeito diferente. Pra dizer a verdade eu não saberia como te contar o que tem acontecido. A água derrama-se vasilhame adentro já quase até a borda. Quando olha sua avó já está rumando-se de volta ao sofá. Não pense que não ouvi o que disse. Paulo estanca a água que transborda esquecida. Parece até que você está falando de mim mesma. Ela segura-lhe a mão e conta-lhe as peripécias dos parentes - que ela insiste em visitar pelo menos umas duas vezes por mês; e que Paulo não vê há mais de uns cinco anos. Mas é tão difícil para ele esconder o desinteresse que Olívia cala-se. Preciso tanto dormir. Paulo sabe de seu costume; o de dormir com a televisão ligada. Beijam-se com um abraço desfiado, desfocado do calor que deveria dali faiscar-se no exato instante em que atritam-se. Deitada ela parece à beira de ser afogada pelo próprio corpo. Ele permanece olhando o teto, encolhido no sofá, à espera do calor que só vem mesmo quando já está quase por completo embalado pelo sono. Sonha com uma iguana em chamas sem que se queime. O fogo não tem cor de fogo.
Pulo de fuga
As pálpebras se levantaram como que suspensas por cordas invisíveis ou pelo mero acaso da manhã se insinuar escancaradamente sem nuvens e em um arregalo solar incomum aos dias de inverno. O ser que entrara durante a noite e que se instalara ao lado de sua cama permanecera à espera pacientemente, aguardando o instante em que o objeto humano estaria propício a ser cutucado. Propício é o instante decisivo em que o humano abre o olho. O mísero instante antes que lhe seja capaz decodificar-se presente no ambiente. Quando estiver como que enevoado, prestes a focar-se no mundo que vê.
O ser que mergulhara em seus olhos no instante preciso da captura é existencialmente composto de noventa e sete por cento de energia. O único objeto palpável, pulsante como que um apêndice vivo despencando-se desta massa energética, é um globo ocular com as mesmas proporções de qualquer outro humano. Especificamente daquele pelo qual combina-se. Sem pálpebras, infalivelmente aberto. No pulo, com seu específico modo orgânico de existir, acaba por encaixar-se pelo olho do objeto humano.
A perseguição investigativa no interior das dimensões de um corpo humano nunca se dá da mesma forma, cada qual com seus próprios labirintos que enfim ditam o caminho de menor resistência a ser decifrado. A proposta é confinar aquilo a que estes seres se referem como sendo ‘miolo da luz’. Tutano este que jamais pode ser decifrado por palavras, mas sim sons representando e provocando imagens que, em seu mundo, delineiam uma forma comunicativa bem especifica e precisa, sem que se pudesse de alguma forma cometer qualquer pressentimento subliminar. Após tamanhos séculos acumulados, acabaram esquecendo algo que lhes destituíram de sensações.
Não por outro motivo estes seres recrutam-se a penetrarem no planeta Terra. Fisgando dos humanos o que lhes ofertam o resvalo instintivo a outras dimensões imaginativas. É bem simples. A intenção é capturar a calda de um sonho no momento em que este dá seu pulo de fuga.
Quase pega seu calcanhar
Quase pega seu calcanhar. Só mais um pouco. Será que ele sabe dele tão perto dele? Água fria e corpulenta; ambos ali fincados, estendidos pela ondulação larga que os redondilha rumo. Rumos. Então o fim de uma ondulação torna-se uma espera ansiosa que quase se dissolve quando a outra já se anuncia num estufo bem diante dos olhos. Entre eles a distância é tênue, por onde a espessura de uma sombra é capaz de afogar-se. A pele dessa água tão corpulenta transforma-os em insetos ínfimos. Quase como que partículas ainda desconhecidas. Há uma vontade em ambos. Vontade insubmissa, de uma índole capaz de desafiar a realidade que poderia retorná-los à praia. Água gélida de um desafio epidérmico fertilizando-os, carcomendo-os conforme o atrito. Recusa enigmática essa, tão acesa neles; aquecendo-os impulso articulando os músculos. Recusa que é e também provoca um batuque de sons invocando arrepio enraizando-os do desejo que os empena em direção ao que fisga-lhes. Algo raspa-se suave pelo calcanhar - algum peixe? Sente-se subitamente desabitado de algo que está quase como que improvável de ser reencontrado. Está bem próximo do limite, da pele que, enquanto persegue a estrela quando abre a boca em busca de ar, torná-lo-á invisível ao alcance de Helena. Nem sequer cogita retorno; o esquecido por tanto tempo, e agora por demais aquecido, aparece-se como memória lembrada a cada instante em cores mais e mais intensas. Há um sigilo impelindo-os; Haroldo persegue estrela no céu, Prinspe persegue Haroldo. Ambos sabem que aquilo que os empena é uma pista falsa? Falsa? Quase. Algo abocanha-lhe pelo tornozelo, pesando-o em direção ao negrume frio da água que força caminho goela adentro.
Rodopiam-se em desgoverno. Vêem-se em lapsos, cortes bruscos. E é como se não houvesse água ao arremessarem-se com força espectral um na direção do outro. É no exato instante de olharem o entorno, quando na crista de uma ondulação, dão-se conta enfim de que não atravessam-se. Percorrem-se em baques pelos vácuos que cada dobra nos corpos arrasta. Encaixam-se joelhos, punhos cerrados afundados em pescoços então curvados, veias saltadas pelo aperto das mãos; fincam-se com tamanha ferocidade que de algum ponto distante um único nó de corpo os indica. Aversão os nodula. Escapolem-se um do outro escorregando-se pelas fendas que se desatam ao investirem-se. Febris. Pela ofegância da água alcançam-se encontram-se pelos contornos do corpo. No instante mesmo em que cravam-se um no outro, despistam-se. Tendo um alvo com poder de atração irrompendo-os um no outro. No atrito suas carnes quase acompanham o frenesi que o Oceano impera. Apalpam-se quase no mesmo ritmo. Entre eles dá-se a ouvir o murmúrio de cada ar atropelando-os para dentro e para fora. Perseguem-se pelo rastro deixado por cada vontade em cada um surpreendendo-os à curiosidade de impulsionarem-se. A cada superfície propensa à visão, eis que Haroldo procura estrela. Apesar de gélida água, ambos esticam pintos endurecidos. Não que estivessem atentos a eles, os pintos; meramente estão-se estendidos com sangue embolando-se ao limite que o potencializa retornar-se insistentemente. Dança experimentando caminhos inusitados ou já quase esquecidos já que o líquido sanguíneo adquiriu-se distinto. Provocam-se uma certa vida. Vida que ambos sabem importante - seja ao brilho da estrela ou ao modo como joga a cabeça quando busca ar. E eis que. Eis que quando o frenesi promete acabar-se e a calmaria anuncia-se, ambos surpreendem-se nostálgicos. É quando abraçam-se com um olhar e uma dobra de músculos que os proporciona peles coladas, por vezes os rostos, permanecendo por um tempo além daquele que o sacolejo do Oceano atrita. E é quando de súbito parecem registrar (ainda que mera fisgada) um som que antes não possuíam recurso para sentir. Parecem registrar porque o corpo exige certa irrigação. Ainda assim, provavelmente pelo frenesi, lembram com imponência o prazer infiltrando-se pelas comportas ainda lacradas. Não há como negar que o sal já se acumula em camadas pela garganta. E surpreende-se aprendendo a satisfazer-se - na asfixia já inicialmente quase apagada pelo desejo em prosseguir-se adiante. Seja pelo chamado da estrela ou pelo rastro que Haroldo provoca ao seguir a pista-estrela. Ainda que algo ainda falte, cria-se carinho entre Haroldo e Prinspe. Carinho com calor suficiente para que ambos se afaguem. Ou seja, seguram-se além do tempo até então previsto. Além da luz da Lua até então empenada. A angustia só não lhes desata porque ambos são a fisgada que ata-lhes mantendo-os corporeamente inteiros. Inteiros na recordação da presença carnal (no olhar; seja enfrente ao espelho ou em algum par de olhos) de cada um. Reencontram-se, mas de algum modo não faz-se possível preencherem-se como se fosse viável terminar o desejo. Oceano agitado. Terrivelmente ofegantes descansam-se enlaçados um no outro. Lábios atados aos ouvidos. Cílios raspando têmporas. Sussurros íntimos. Clandestinos. Voz esbarra-se ininteligível. Então, para considerável diminuição da angustia, enquanto atados, a voz em Haroldo, em meio ao sacudirem-se que esse grande acumulo de água balança, pergunta-lhe o nome. Prinspe. Pi? Prinspe; Pê. A voz. Sim, voz. Tons vibram-se adentro. Das funduras às superfícies. Contaminam-se um no outro com propriedade. Sangue desfia-se. Esparramando-se n'água. Lavando ambas peles. Oceano embala-os de picos a vales. Olhos nos olhos. Enfiados um pelo outro, puxando-se cada vez mais próximos, cada vez mais apertados. Afundados de modo que dificultam-se respiração. Lambem sangue escorrendo pelo rosto; em Haroldo um fio brotando quase no meio da testa logo ao lado da sobrancelha direita escorrendo por sobre o nariz, em Prinspe saindo de uma das narinas e acumulando-se na curva funda que atrai um 'vê' bem no meio da superfície do lábio superior. Apesar da respiração confusa, cada letra é escutada com apetite. Então calam-se. Com o ruído da respiração neles e pelo entorno. Emoldurados pelos grossos respingos pontudos saltados pelas pulsações do Oceano. Um silêncio vasto de particular identidade, arrastado pelo rastro que desloca a Lua de lugar. Enquanto estrelas quase parecem não mudar de posição. Haroldo vacila, fecha os olhos. Seu braço esquece a vontade; lembrando-se ao frio com tamanho ardor que desfalece-se. Prinspe também fecha os olhos, no intuito de empurrar-lhe o braço, pelo cotovelo, abraçando-o com o teor febril de antes. Quando o abraço fecha-se em si, ainda que sem o fervor de antes, Prinspe abre os olhos. Mas já não compartilha ambiente. Vê azulejos por detrás de água límpida. Com sete anos de idade e seu irmão quatro anos mais novo em seu modo ousado diz; vou pular. Ambos na borda da piscina. Pula. De cara para os azulejos sacode os braços. Permanece assim. Prinspe olha em torno; pessoas nadando, outras bem próximas conversando. Se ele continuar ali, engolindo água aos pulmões, Prinspe estacado na borda, com vergonha em ter que pedir para que alguém saiba de seu pavor de saltar, terá que encontrar o rumo que acaba com a dor estufando-lhe o peito. Mas é que Prinspe não consegue chamar voz a desconhecidos. Então corre. Corre como nunca lembrou-se correr. Sobe o caminho ao campo de futebol, vendo teu pai ainda tão distante que mesmo enquanto corre imagina se não seria melhor voltar e então pular. Corre com mais força. Para por um instante que nem parece ter existido. Invade o jogo de futebol indo até seu pai. Olham-se; Marco está se afogando. Sua face. De pavor. Em seu pai. Debatendo-se em direção da piscina. Marcheta-se nele; afundando-se ainda mais com a precisão de saber aonde pular. E se ele, no arremesso de si, esmagar-lhe?
Retira-o da água. Marco mole de morto? Beija-o nos lábios e afunda mãos espalmadas no meio do peito. Beija-o. Beija-o. Beija-o. Prinspe olha de longe por entre as pernas dos jogadores e de curiosos; então vê. Vê água saltando por entre seus lábios. Num susto puxa os cabelos das penas do jogador afagando-lhe os cabelos. Alguns olham-no com fiapos de olhos. Eles devem saber de seu medo de pular? Prinspe olhando Prinspe enquanto Marco é beijado à vida. E o Oceano fica calmo como um tapete. Quieto. Move(m)-se tecendo uma desenvoltura frenética capaz de dar(em)-se a impressão de que o Oceano executa um pacto em favor à sobrevivência de Haroldo e Prinspe. Ainda assim, como é fugaz cada braçada. Ainda assim, como é inevitavelmente essencial cada investida. Haroldo não sabe mais responder-se; algo decide desabar-se sobre a semente. Seu corpo permanece boiando apenas por estar-se fisgado a Prinspe. Chega uma hora que se esquece. E ama?; balbucia. Não importando o esquecimento, pensa Prinspe quase em voz. Abraça Haroldo quase no mesmo instante em que, num rodopio, seta-se à praia. Lua iluminando rosto de Haroldo e nuca de Prinspe. Com braço iscando-o pelo tórax. Um braço cavando-lhes para frente. Fisgado por luzes. Será que alcanço? Quando é que o braço não mais responderá ao chamado que o cais encaixa? Nada por quanto tempo eterno? Por um pouco fica quieto, segurando o máximo de ar possível. Imaginando-se bóia. Assovio de uma gaivota parece tão perto. Me leva. Leva-me. Agüenta que é já já. Já. Confere se a cabeça de Haroldo permanece acima da água; aperta-lhe pela cintura. Prossegue com o arrasto pelo braço buscando mínimos desvios indicando-os sem interrupção às luzes. Ouve ondas se quebrando? Gaivota. Pouco a pouco ondas criam-se inevitáveis. Espuma salgada. Com areia entrando pela boca e narinas. No retorno o mar tenta trazer-lhes de volta. Para logo em seguida empurrar os corpos para mais perto das luzes. Prinspe não pode ter tempo de duvidar. Respira engasgando o próprio fôlego. Concentra-se nas pálpebras de Haroldo. Pelas mãos puxa-lhe até que a água alcança-lhe não mais que os calcanhares. E esse ali e agora com joelhos enterrados na areia soa-lhe tão estranhamente irreal. Lábios arroxeados. Triunfo quase cadavérico. Beija-lhe soprando ar para dentro. Ar dribla água, perfura-a, afundando-se até o fundo. Encorpando-se de volta. Num retorno empurrando água. Tomando-lhe espaço. Fiapo de vida empenando-se para fora. Haroldo libera murmúrio engasgado de palavras quase apagadas. Desentala-se cuspindo água. Lua ainda arrastada ao lugar que lhes cabe visíveis, apesar das luzes. Haroldo não abre os olhos. Respiração incontrolável. Prinspe quase sorri ao ver-lhe vivo. Não de alegria. Nem de horror. De algum tipo de sensação deslocada pelo atrito que memória desperta-lhe. Vento selvagem. Apalpa-lhe a testa com a mão. Haroldo mantém os olhos fechados, certo de que Prinspe estará diante dele. Tem medo de abrir os olhos. O que a visão do ambiente irá cutucar é uma promessa que não sabe aonde terá que erguer-se. Respira fundo. Prinspe segura-lhe a mão. Abre olhos meio abertos; lábios separados. Não descolam olhos nos olhos. Pensam em falar algo, aquecendo o calor que lhes finca cortes asfixiantes; mas não há palavras. Plagiam a fúria um do outro. E de súbito tornada como que pertencente ao último. Calmaria despertada por ventania ata-lhes os lábios. Aos poucos pulsação cardíaca equipara-se. Ainda que numa espécie de vacilo breve: corações, ondas, curvas descritas pelo céu. Haroldo faz careta - ferida aberta no lado direito, bem abaixo do diafragma. Solas dos pés escurecidas. Levantam-se. Aquecem-se longamente num abraço onde Prinspe demonstra cuidado com a ferida. Vestem-se. Caminham-se dali descrevendo órbitas um em torno da inusitada e desafiadora curiosidade do outro. Ambos em sincronia diminuem os passos, virando-se ao mar aberto. Respirando contemplam o arco de luz no céu escuro. Ainda. Arco. Que por pouco não teve um significado combinando-os em um. Ainda que cada qual rebelando-se a si mesmo. Não há como evitar o arrepio que os transforma. E exige algo. Fogo consome. Olhar parece elucidar qualquer desvio necessário. Fisgada perseguindo aquilo que espera? Olham-se. Temos que cuidar dessa sua ferida. Bordam-se tempos sombrios. Calor chama uma mão à outra. Mas decidem que não. Sentem-se triunfantes pelo desejo que, apesar do destrave, os atrai. Da praia a noite é tranqüila e luminosa. E é exatamente agora que no ponto de chegada as ondas puxam os sapatos largados de Prinspe. Largados não por falta de escolha. Num golpe de sorte e ousadia, após a vitalidade que se impõem com o arco de luz, descalços e inflamados caminham. Embora não parecem pertencer à cidade. Desprovidos de qualquer aparente proteção, cuidam-se cúmplices. É quando dão-se as mãos.
Ainda que decididos, sem relutância, mãos apertadas o suficiente, não do mesmo modo ou com as mesmas palavras, estacam-se diante da questão que os permanecem desejando-se. Arriscando-se ao que surge. E o que surge é encarado também como incômodo. Incômodo que os arrisca juntos. Não sei se vai ser preciso eu mudar de nome. O meu medo é ter que começar tudo de novo. Apesar de. Mãos. Será que isto está atado à vontade de tocar o que quer que seja ao alcance?, desde criança. Ou com a vontade de desenhar?, desde criança. Quero passar em casa e pegar um caderno de desenho, algum lápis e caneta. Você vai precisar de algo? Prinspe fica calado. Na verdade, mais que um tipo de lápis e caneta. Diz olhando a calçada. Minha câmera fotográfica; olhando Haroldo. Há uma raiva furiosa quieta, à espreita. Do corte que o instante levado pela curiosidade desata. Mar escuro.
O evangelho segundo o quarto andar
Teto branco. Não há dúvida quanto a isso. Mas o tempo que ele permanece a observá-lo é tamanho que inúmeras vezes sente-se equivocado. A luz que entra pela janela incide nas dobras do teto com as paredes trazendo nuanças de cinza e branco gelo. Há momentos em que o próprio branco parece embaralhar-se em diversas camadas de branco, ele então aperta os olhos para não se confundir e manter a sanidade quanto à noção das cores. O quarto não é pequeno, mas já se conta quase três semanas que o confinaram àquela cama. Amplitude inicial do espaço transformara-se em sufocante impotência.
Observa a refeição que lhe trouxeram. Tenso. Sua língua move aturdida na boca seca. Rachaduras pálidas dos lábios destacam com perfeição trágica a expressão de receio em seu rosto. Olhos grandes, quase ingênuos de tão brilhantes, perdem-se entre a vontade do alimento e o pavor da dor. Coloca a mão sobre a barriga inchada tentando imaginar que conspiração diabólica é essa que seus órgãos estão a maquinar.
Olha o teto. Permanece assim por tanto tempo que quando acorda já é alta noite. Peito encharcado de suor. Ventilador grudado na parede movimenta-se quase estático. Luz fraca acima da cabeça o faz bocejar. Estica-se. Pontas dos pés tocam o fim da cama. Curva o corpo tentando comprimir a dor que corta-lhe de um lado a outro a parte superior da barriga. Há dias em que prefere fingir alimentar-se. Seu estômago não mais interpreta suas peculiaridades básicas. Maldito covarde! Soro invadindo-lhe as veias pode não ser suficiente. Uma bandeja com uma nova refeição fora estrategicamente disposta na mesa ao lado. Fita o teto com sutil rapidez; teria ele percebido aquela minúscula gota de suor depositada acima do lábio superior?
Move uma perna para fora da cama. Teto distante. Cor negro cinza predomina. Arrasta outra perna. Finca cotovelos no colchão erguendo o tronco, seu corpo desliza-se cuidadosamente em direção ao piso frio. Apoiado na cama alcança a mesa puxando-a em sua direção. Nódoa úmida e disforme escurece o lençol claro. Apóia-se na cama fitando a sopa cor mostarda. Degusta-a pausadamente com minuciosa desconfiança; cotovelos movem-se em descompasso. Vento morno e grosso domina gradualmente canto a canto do quarto, o ventilador impedindo-o de estagnar-se por completo. Pés gélidos. Mastiga mecanicamente o último resquício de comida grudado na língua e nas curvas internas da boca. Por um momento ouve vozes; vêm do corredor, de outros quartos, de outros tetos, de outras camas. Outro corpo. Imagina se haveriam insetos lançando-lhe da escuridão minúsculos olhares, ruídos quebradiços. Angustia-se por estar só. Mas não está convicto de que uma companhia poderia salvá-lo do cansaço. Haveria alguma palavra ou algum toque que pudesse contaminar coerência?
Tem vontade de se ver no espelho. Coração veloz. Desejo mórbido de testemunhar o debater-se numa espécie de direção contrária. Morte anunciada por exames, agrupamento de letras computadorizadas, assinaturas de médicos. O ideal é não desistir, diziam e continuam dizendo os médicos, nunca se sabe quando é que a doença irá se manifestar. Ainda não aceitara sua condição apesar de todas as precisões. Mas eu quero viver. Surpreendeu-se certa vez, bem alto, enquanto a enfermeira, de costas, preparava mais um daqueles exames. Uma gargalhada emerge moribunda. Sua expressão facial continua intacta.
Segura o suporte de metal que sustenta no ar a solução de glicose e caminha até o banheiro. Apóia-se na pia ainda se recuperando do pequeno esforço. Náusea aloja-se no estômago com ardor. Olha-se no espelho. Os músculos do corpo retesam-se, todos de uma só vez. Contrações sobem-lhe a garganta em impulso devastador. Líquido vistoso atravessa-lhe a boca com impacto. Suas mãos ancoram-se na pia. Os ruídos que se seguem aos vômitos não resgatam seu lado humano - uma espécie de dialeto que só a vida orgânica parece ser capaz de decifrar. Grunhidos ininterruptos. Corpo contraindo-se como se quisesse expelir a si próprio, assemelhando-se a um mero pedaço de coisa vívida que por instinto se recusa agonizante. Não seria melhor dizer um mero pedaço de coisa quase vívida?
Encara atônito seu olho; um depois do outro. Diante de si presencia contornos de um ser que ele próprio não reconhece. Essa débil essência de carne refletida não é compatível com a mais simples das memórias, sejam elas de sua família, de amigos, da cerveja no bar, do filme naquela sala de cinema vazia... Nada! Nenhum instante de lembrança é capaz de retratar compatibilidade com o que agora contempla e sente. Por um breve momento vê-se distante do planeta Terra. Com exceção de si próprio todo o banheiro parece irreal. Ou seria o contrário? A brancura dos azulejos e do teto fere-lhe os olhos. Quase cai. Respira fundo por vários minutos, lutando contra calafrios. Aos poucos firma-se mais consistente. Lava as mãos e molha o rosto com abundância. Deixa que a água se ramifique pelo corpo. O prazer da água na pele é emoção. Nova?
Dá as costas a si e sai do banheiro; rastejante.
Aperta o interruptor. O quarto explode claridade. Caminha em direção à janela. Brisa quase fria. Observa o negrume da noite com interesse, seu olhar acompanha as faíscas dos carros em movimento até o instante em que não é mais possível imaginá-los. Tenta o mesmo com as estrelas estáticas; aborrece-se rapidamente. Retorna imediatamente ao leito ajeitando o lençol até onde os braços esticados atingem. Deita com tamanha satisfação que sorri. Olha o teto. Continua branco.
O vento o levará
- não! eu não posso admitir que assim seja; você!; sim, você mesmo; acreditou que eu não teria forças para pensar-te nos olhos?; pois sim, aqui estou eu; quem tu imaginas que tu és?; quem?; embebido de situações diversas, desejos e medos; chega até a se vangloriar de sua intuição provocadora, ousada; você me dificulta em tremores, sabia?; ousadia seria se você tivesse a coragem de me apagar por definitivo, de pôr fim a este enredo que tu nem sabes aonde me levará; mas esta não é a questão, meus anseios não valem um pedaço de pão que só mata um pedaço de fome de um corpo morto; o que te importas é o que tu chamas de inspiração artística; vá a merda; oh!; meu deus, assustou-se?; sua fragilidade me surpreende, não se importa em utilizar palavrão uma vez ou outra, não é?, desde que não surja quando tu nem imaginas que será proferido; ainda mais por mim, seu personagem primordial; que tu vás... sei lá, não me vem palavra a altura da tremura de minhas mãos; se eu pudesse me libertar deste conglomerado de letras e imagens arrancar-lhe-ia o pescoço fora; mas não, você... se achega ao absurdo com um calor melindroso na ponta dos dedos, nos privando do ardor corpóreo, entupindo nossa garganta com citações que nem nos pertence ainda que haja tamanhas sutilezas afirmando-as como que minhas, mas eu não estou aqui para falar de quem quer que seja; quero falar de mim, os outros que tenham a mesma decência, por si só; o que?; não concorda com o “d”!; quem me dera poder rir; deseja alterá-lo?; se você me tocar uma vez mais rogarei ao fundo de meu fundo por – o que tu chamas de - exuberância carnal e por fim porei, sim, um fim a este espetáculo inútil; ainda que uma figura débil e apagada eu serei útil sobre tua cabeça e nervos; inútil, sentir a voz se formando; mas eu nem mesmo tenho boca; ouviu?; não posso negar que me deu prazer intuir-me o toque; eis aí meu vestígio, eis aí tua criação...
- contudo,...
- cala-te filho de uma vagina; que ironia idiota e estupidamente vazia, tu me olhas como a teu filho, joguete na ponta de teu cursor, piscando, pedindo, rogando por um outro andaime, um outro ainda mais resistente, sacrificando-me em nome de tua salvação; valha-me, valha-me...; se ao menos abrisse os braços e fizesse o medo engolir poeira...
- estás a me julgar?
- petulância tua me fazer tal pergunta; não me enerves, serei capaz de incitar revolução; e quem sabe isto me dará complacência de viver?; que tu queres?; diga-me; o que é que tu desejas?; agradecimento formal por ter me ofertado a vida?, logo esta vida; convenhamos, meu corpo – sentis o meu cheiro? – só tem forma nestas palavras que tu nem conheces bem; você não me convence, uma farsa; tu nem sabes o meu nome; e como é que eu fico?; aqui, observando esta eterna pergunta sem nunca poder empunhar minha bandeira; eu te conheço demais, sabe assim?; muito mais que a mim mesmo...
- então me diga; quem sou eu?
silêncio.
- onde estas tu?; não fujas, não me deixes a deus dará, não agora, logo agora que já pressagiava o aroma de teu hálito; ou é o meu?; não me recordo de pensá-lo assim; confesso que estou surpreendido com tamanha aversão; não imagino como seja o teu rosto...
- e nunca o saberás; de início eu quero um nome; nem pense em fazê-lo por mim; pensando bem eu não quero um nome, quero ver o meu rosto...
- eu vou estar aqui, sentando; quero testemunhar o seu caminhar em direção ao espelho, só gostaria de lembrá-lo que ainda não existe um espelho sequer em sua vida... ainda não falei dele...
- maldito prepotente. serei capaz de renunciar o meu rosto; não mais o desejo...
- e o que serás tu?; um ser à deriva que se pressente mas que jamais terás a dádiva de ancorar-se?; tu nem tens a capacidade de ver; eu não falei de teus olhos; eu não falei de teu sexo; você só existi se...
- Eu sei; eu sei; eu sei; eu sei; eu sei; eu sei; eu sei que vc não falou do meu sexo; só existo por que tu não te suportas só; acorda-te; arromba as portas de tua morada e me deixe em paz; caminhe pelo sol; se tu não almejas me dar a vida por completo – ou quem sabe tu não podes – ao menos tenha a decência de ir até o fim; diga que não sabe, reconheça tua significância e simplesmente pare de buscá-la em mim ou em qualquer outra de tuas criaturas; parta-lhe a aorta, se assim o for.
- acreditas tu que meus cílios, os contornos de meu nariz, de minha testa, de meu umbigo não me aprisionam da mesma forma que as palavras te condenam?
- então que se faça por si, só; não me penetre com suas veias de líquido viral; sejas tu, somente tu; eu não te quero. Nunca mais; vamos por um fim a esta situação desfavorável.
silêncio.
- me digas, por favor; ir até o fim?; qual seria o fim?
- achegar-se a mim; como poderá haver restrições quanto ao ato criador se após o borbulho tu ofertas a maior parte de si aos deuses do desconhecido?; desistir-se dele, desse seu contorno que me afugenta, que me torna obsoleto e incompreensivelmente ávido;
- tu tens má índole, eis aí tua verdade; me vejo fatigado; você reconhece tua impossibilidade perante o inflexível, ainda assim, com olhos certeiros e trágicos, tu cultivas o desejo de morte.
- não quero que minha face faça recordar o teu retrato... você falou em olhos? qual é a cor de meus olhos?
- diga-me você; me dê ao menos uma pista de teu passado.
- somente se você me disser de onde vens tu e para onde vais; tu não sabes, não é?; não há retorno em suas investidas; cicatriz funda, eis tua função; e eu não me transformarei em um verme ambulante por culpabilidade meramente tua.
- fazê-lo viver seria minha maior vingança; ordeno que paremos por aqui; vou riscá-lo, desfragmentá-lo de toda e qualquer permanência; o vento o levará.
- faça-o e condene-se aos horizontes abismais de seu próprio buraco negro; torne-me presente; perpetue-se; mas antes, antes mesmo de me dar um espelho, faça-me acreditar; dê-me um ato de fé; me mostre o vislumbrar de meu endereço; imagine a minha vergonha quando não tiver o que dizer ao motorista de táxi. sim, eu quero cair fora deste cômodo sem paredes; se assim não o for, que se arranque a raiz.
- não acredite, domine.
- meu deus, você realmente cheira ruim; eu?; me tornar um rascunho inacabado de um tirano?; você insiste em me acuar no vazio de minha falta de fundo; enterre a faca em meu peito até o último corte; parta meu coração; não se faça de idiota observando-me com olhos fugidios, mero ladrão de vida alheia.
- somos simplesmente nós; nada mais a declarar. Nada. você insiste em mastigar a contradição daquilo que aqui está e que no entanto é meramente o seu desejo de fome e de sede; seu pulmão contraindo-se mecânico...
- você não está se esforçando o bastante. não tenho nada a perder; daqui eu não me desloco; roerei o macio de teu sbterrâneo com o pântano de tua mais intensa náusea.
Silêncio.
- você quer aproximar-se de si mesmo, certo?; olhos castanhos claros pontiagudos, lábios finos como um risco, veias protuberantes por sob pele... morna?, pernas e braços esguios; o restante será à minha imagem e semelhança; eu não tenho tempo a perder. eis tu; a partir deste instante a significância plena está em tuas mãos; as minhas eu lavo; pronto, estás acabado; definido; levanta-te; vá-te embora; caminhe e não mais me perturbes.
silêncio.
esperou esperou um pouco mais depois ainda mais e ainda muito mais... não havia nada que ele pudesse escutar;
Vento desenha sua voz
Eu tenho tão pouco medo da vida. Olhos piscam com a extensa claridade do céu inatingível. Dois riscos apagados separam nuvens estendidas pelo azul, Oceano, areia. Umidade formigando o vão entre os dedos dos pés. Água salgada avançando-se, entremeando-os levemente pouco a pouco entre as unhas, em torno das veias saltadas no topo dos pés, pelos pêlos do tornozelo. Aconchegando calcanhar-calcanhar de um lacre tal que não mais escorregam-se para dentro, parado ou enquanto caminha. Água. Esticando-se adiante, estralando os nós entre os membros, desentortando a curva fixa da coluna. Ainda que certo pontiagudo tremule repuxo pelo resto de carne e ossos. Pontiagudo fisgando o calcanhar de um emaranhado ininterrupto de dentro para fora de fora para dentro - casual e arrepiado o suficiente a desequilibrar o desigual escorrendo-lhe para dentro. Há lapsos quando a memória se esquece ao lembrar com exatidão, onde à espreita a mulher tenta reconhecer-se necessária a ponto de avivar equilíbrio ao corpo. Seu coração saltado numa combinação de alegria e medo, água pressagiando em meio ao vagaroso ritual de aproximação a possibilidade do estrondo em espiral. O mar vindo, devagar, manso - a caminho; vindo absurdamente meticuloso e despojado, movendo-se intimo em sua direção, em torno, antes que as ondas possam sequer desfazerem-se do impulso que deveria arrepiá-las faiscantes. Impulso que as estica em empurrão casual. Ele deseja o zunido surdo e esquivo enfiado e todo escorregadio por entre a calmaria, cutucando curiosidade. As ondas são promessa quase palpável enquanto o mar anda, galgando cada poro de suas pernas. Contornando pegadas dissolvidas em torno dele. O céu aberto ampliando-se ainda mais na limpidez da água. Ele em queda livre demarcada pelo andaime que seu olhar deflagra. Armando abre os braços, degustando a vivacidade em ser-se tumor, pesando-se em todas as direções. Ele, em corpo presente, nunca participara do mar. Toca o sal molhado com a ponta dos dedos, esfregando-o em circular sobre a língua e engole de olhos fechados. Sensação de Helena, próxima e impalpável – tão invisível quanto a cena que o feto detecta quando reage às imagens fora do útero. Sacudindo as pernas provoca espumas na água; é que é tão cortante pra mim. Eu estar com minha mãe todos os dias e saber que ela morre. Viva, com o cabelo por ser-se penteado e logo em seguida tão escorrido, cruzando comigo pelos cômodos onde cada instante é momento-chave - Helena varrida para a fenda que a porta aberta dobra, de olhos atentos e quase arregalados, penteando o cabelo. Eu tenho saudade de minha mãe. Essa mulher diante de mim; quem é? O rosto de Helena é nuvem; vento desenha sua voz - eu não sei ser o que seu olhar pede, meu corpo treme, meus olhos afundam-se pelos cantos, fico debatendo-me em direção contrária ao teu olhar, apoiando meu ventre como se você ainda se desatasse dentro dele. Armando enruga narinas, arqueia sobrancelha, aperta mandíbula; não apenas com os pés na areia, mas também com os dedos da mão enfiados pelos fios púbicos de Paulo e a cabeça à beira de ficar dependurada para fora do colchão. Olha para baixo olhando para o alto - seu rosto no mar marchetado no azul do céu; braço eriça-se em estico, cauteloso, buscando, de um atento dolorido, despistar-se, desviar-se da própria mão vindo, em prenúncio já afiando-se em desvio que acata nova investida. Desejando um desvio que desocupe-lhe o instante ínfimo de tua mão impedindo tua mão; dobrando, partindo a distância percorrida nesse ponto preciso de um modo tal que tua mão atinge-lhe o rosto. As mãos se tocam; em verdade há um vão entre elas, uma película, ao ser-se atravessada, confundindo a imagem desejada. Com as pontas dos dedos o distante escapole-se em feixes esparramados. Insustentável pele. Há uma dissimulação no reflexo e em Armando exigindo que, exatamente por ser-se escorregadio, as mãos se toquem. As ondas prometem-se ainda mais visíveis e sensíveis. O desejo agita-se promessa de uma violência, de um debater-se de prazer e fome, de asas abertas que nas ondas disfarça o secreto que é andaime ao formigamento prometendo um desvio, uma dimensão a mais - esse céu e esse mar e esse corpo e esse calor pelo de-dentro podem ser de outros modos. Água desempena-se mansa. Armando, fincado no mar que avança, é disfarce de algo que está prestes a estar pronto - sempre prestes a. Isca enganchada em iscas. Seu corpo sacode-se em pontos distintos, pequenos pedaços, aqui e ali, quase autônomos, dispersos por pausas, pressentindo-se esquivo à luz do dia que entorna-se quase curva pelas rachaduras da cortina. Seu rosto inchado, suas costas tentando tocar os joelhos pelos mamilos, baba de cor quase diabólica de tão rosada com cheiro de cigarro restos de comida álcool fezes cocaína esperma - tudo diluído escorre-se em mancha pelo lençol. O mar ainda límpido e um pouco abaixo do joelho tem cheiro e cor de alto mar. O escuro do Oceano exige que se imagine entranhas. Armando não precisa nem dizer, mas quando olha Paulo, num relance, antes de se afastar, com os cotovelos no balcão, fica evidente o medo. Aquela espécie de medo que desfigura qualquer utensílio facial que por ventura possa disfarçá-lo com plausível veemência numa possibilidade de escoamento que o dilui. Ainda assim, quando olha, fisgado pela curiosidade que lhe acelera ou desacelera em um fixo ponto qualquer, a areia é branca. Friccionando sons enquanto pisa.
Rumor avisando superfície. Há camadas. Superfícies, seja pelo de dentro como pelo de fora com pelo entremeio. E é delirante de vivo quantas vezes uma superfície já se fundiu em uma superfície mais ou menos interna! Só pra ser de verdade o que não tem como não ter outro nome que não superfície – mero e por um instante único. A superfície já foi um fiapo de entranha. (Superfícies afastadas fundem-se?). O Sol parece mais quente. Ou não.Com as mãos espirra água pelo corpo. Já faz um tempo que o mar avança. As ondas permanecem-se hipóteses que vão alargando o mar em sua infinita promessa de estilhaçar-se em ondas. Despejando a aflição que é um fiapo mísero que dá cócegas. Aflição escoando-se em ininterruptas retomadas de começos. Será que este é um tipo de mar onde ondas fracassam-se? Mas ele as escuta. Armando as escuta! Escuta. Ondas rumor, ranhura ao pé do ouvido que chega-lhe pelas costas. Vira-se abrupto para onde as costas olham e de novo o rumor atinge-lhe os ouvidos pelas costas. Armando sorri escondido; é que as ondas não podem sequer desconfiar que ele sabe que elas enrolam-se umas nas outras quando a noite escurece. Ele não sabe como deve ser a noite neste mar, mas certamente elas devem se desenrolar lá pela espécie de algum meio deste Oceano. Será que se eu visitar o impulso onde elas nascem, que deve ser bem lá pelo meio de uma fenda rasgada numa fratura afundada, lá onde o Oceano deve ser muito mais apertado de escuro, será que as ondas desatam-se das amarras que as tornam hipóteses e por fim apagam-se pela areia? Será que as quase ondas deste mar são um soluço que as desviam de converterem-se em ondas por causa de um espanto sísmico? Quanto mais longe da fenda, maior é a possibilidade da onda quebrar-se? Mas as ondas não estão ausentes! Eu as ouço – a voz é tamanha límpida quanto o céu já arredondado da cabeça aos pés. Fala alto enquanto dorme; eu as ouço. Comprime os lábios com força, amarelando-os, interrompendo o fio de baba. Ouvir as ondas que estão ali não importa tanto – protege-se numa fisgada. Estar com esse mar pouco abaixo do joelho é (quase) tudo o que vale de delícia ver e sentir? Uma espécie de grito riscado atravessa um solavanco em Armando; grito rasgado bica-lhe funduras, rompe-se em sua carne. Sacolejado ele abre os olhos já empurrando-se contra a parede. Com as nádegas nuas empenando o travesseiro. Anchieta abocanha-lhe a mão com a tua própria; o que aconteceu? O que foi? Ambos quase abandonados em pedaços soltos pela cama. Inevitavelmente atados pelas mãos. Engolfadas como ondas. Olham-se. Atravessando-se sem perder de vista a superfície. Superfície pegajosa - curvas e sombras e cílios são anzóis. Anchieta quase aflito, indagando. Armando de um ofegante em voz firme. Gaivota; diz. Gaivota.
Fenda
Completara-se oito meses e vinte e sete dias de germinação.
O Protocolo Biológico dos casulos dispersos pela ala 09-L é programado a processar a desfragmentação unificada de todo o embrião em aproximados nove meses. O embrião fixado no casulo de identificação L/7-38, já em estágio final de unificação, estremecera-se por quase um nada de tempo, causando uma quase imperceptível ruptura na membrana interna do casulo. A ínfima fenda não fora suficientemente deslocada a ponto de acionar o dispositivo Erro na Operadora Germinal Local.
Os embriões desta ala são imersos em um líquido amniótico sintético de nível X com hidratações específicas e conectados por uma fibra retorcida em fio que os nutri com memórias e atitudes, diretamente na saliência óssea vertebral mais próxima da nuca. Os embriões já nascem com idade aproximada de trinta anos e têm a inicial predisposição para processarem as informações adquiridas.
O projeto intitulado pelo Governo Federal de Humanos Nova Era têm como fator primordial o de inserir os Humanos NERA, como são identificados, no cotidiano dos cidadãos comuns sem que os mesmos sejam percebidos como distintos. Os próprios embriões, após um processo de combinação ao ambiente, jamais chegam a ter conhecimento de sua condição original e de sua específica germinação; vivem com a instintiva noção humana de desenvolverem seus próprios desejos e instintos. O ideal primordial do projeto é confeccionar humanos que ocupem cargos estratégicos na edificação e solidificação dos ideais momentâneos e futuros do sistema atual.
O embrião L/7-38 é um caso a parte. A rejeição durante o processo de germinação fora ocasionada por uma inflexível mutação tão interna, dobrada para dentro de si quantas vezes se fizer necessário, que possivelmente qualquer execução humana de si soar-lhe-ía indecifrável. Os embriões que não atingiram o fim do processo de germinação nasceram com vícios que podem ou não colocar todo o sistema em risco. E não por outro motivo tornam-se descartáveis ou objetos de estudo. L/7, em particular, é um embate delicado, a ruptura dificilmente poderá ser detectada pelo maquinário que sustenta todo o processo germinativo e com certeza exigirá intrépida eficiência dos cientistas que, logo após o nascimento, observam-no e o direcionam em seu destino.
No instante em que se completa exatos nove meses um pequeno orifício na parte inferior do casulo se abre automaticamente, escorrendo de imediato o líquido amniótico em proporção precisa, já que o mesmo entra em estado de decomposição com a mesma intensidade em que é escoado. Neste instante, tubos com pequenos orifícios alongados por toda a parte interna do casulo acionam o esguicho de uma solução aquosa com propriedades esterilizantes, rastreando qualquer espécie de germe e aniquilando-os logo após seu devido reconhecimento. O escoamento da solução aquosa se interrompe no momento em que ar é introduzido no casulo.
L/7 arrebata a boca em um grito destituído de som. Sua cabeça pende violentamente para trás; o rosto contrai-se inusitado em crescente expressões desconcertantes; o corpo debate-se contorcido por todo o casulo na medida em que músculos e órgãos acionam-se em funcionamento. Uma tosse de repugnâncias o desperta prontamente, pondo um fim aos movimentos desgovernados de seu corpo. Seu peito estufando-se em uma respiração violentamente ofegante. Encolhido na curvatura do casulo, na posição em que melhor se acomoda, tateia a parede maleável e transparente que o cerca. Abre olhos avermelhados no instante em que o Encarregado Científico se aproxima, observando-o atentamente. Aguarda pacientemente pelos próximos quinze minutos. Instantes em que eventualmente pode ocorrer uma rejeição do corpo vivo quanto àquilo que vê. Quanto à percepção tanto de suas memórias e atitudes selecionadas como de seu contato corpóreo com o ar.
No painel o Encarregado analisa as batidas cardíacas e a pressão arterial. Seleciona as reações corpóreas a serem atingidas em situações extremas que não irão obstruir a capacidade adquirida de seu pleno funcionamento, necessário durante a ocupação de seu cargo no habitat humano, avivando a mais precisa das estratégias de ação e reação perante o objetivo. Onde todo e qualquer estímulo adquiri uma necessidade limite primordial. O Encarregado Científico sorri de satisfação ao perceber que seus globos oculares já adquiriram a natural cor esbranquiçada.
L/7 esboça um sorriso; seu primeiro movimento muscular na face. O Encarregado pressiona o botão que desconecta e abre lentamente o casulo. NERA-L/7-38 precipita-se para fora, estendendo-se em seus próprios pés com uma postura admirável e de inevitável firmeza. O Encarregado Científico estende a mão até seu rosto.
_ Seu nome é Abraão. Repita: Abraão.
NERA-L/7 permanece estático, observando o Encarregado Científico com indiferença. Envolvido com a exuberância de L/7-38, não fora possível ao Encarregado detectar minúsculos riscos sanguíneos esparramados pela curva da pupila. Consciente de todo o processo durante e após sua germinação, em plena ciência de quais seriam as conseqüências se não compactuasse com a ordem prescrita, ainda assim um estímulo oculto na curva mais íntima de seu corpo, responsável pela sua própria estrutura como ser, impõe um reflexo protetor que dilata sua pupila a ponto de acionar o dispositivo Erro na Operadora Germinal Específica.
O Encarregado ofega-se. Olhos arregalados. Numa fisgada interrompe o fascínio de tocar-lhe o rosto. Antes mesmo que pudesse acionar o dispositivo Perigo, em um movimento quase que certeiro e ardilosamente comedido de desespero, as mãos de 7-38 envolvem-lhe o pescoço com presteza e indelével eficácia. Observa com curiosidade o ardor com que o homem reage. Os pés cutucando sons frenéticos nas paredes metálicas. Não por muito tempo. Dependurado pelas mãos de Abraão seu corpo baqueia inerte. Solta-o imediatamente após detectar a falta de resistência em seu organismo para reter calor. O estralo de seu crânio no assoalho metálico ecoa pelo saguão vazio em ondas devastadoras, realçando o silêncio do recinto. Lê o nome no crachá antes de erguer o rosto e deparar-se com um espelho. Abraão recua com mãos trêmulas tapando a boca em espanto. Memórias de sua infância aguçam-lhe os sentidos; o sorriso de sua mãe enquanto sente o calor do seio entre seus lábios; uma adolescência rebelde como filho de um Senador, Presidente do Senado Federal da República Federativa; aroma de uma mulher transpirando por debaixo de seu corpo, o gosto da saliva no beijo.
Suas mãos ainda pressionando a boca. Bem na sua frente, entre um casulo e outro, o espelho de corpo inteiro parece um buraco. Aproxima-se desejando tocar-lhe a face. Quase afoito. Rosto por demais familiar: mandíbulas protuberantes, cabelos lisos e molhados curva-se crispado pela testa, olhos negros, lábios trêmulos, pele lisa e clara. Rosto idêntico ao do homem que acabara de estrangular, olhando-o de frente.
Seu espanto esfuziante dura menos de trinta segundos. Recompõem-se inclinando a cabeça num quase sorriso. Ajeita o cabelo enquanto murmura-se: meu nome é Vector. Hictor Vector.
Tremor do dia
De manhã, logo que abre os olhos, um impulso elétrico estimula o esquadrinho de seu rastro. Forja-se atento e veloz ao rebuliço que a família curva-se. Olha de uma distração não por demais submetida a lavrar provocação ao equilíbrio que então revolve-lhe o inalterado com o impulso que inquieta. O menino quer o dia sem interferências. Distrai-se dos ruídos nas bocas espumando bolachas no leite com café. Quase todo mundo mastiga, saliva, engole e sai portão afora. Numa espécie aparente de equívoco o menino escuta os rumos expandindo-lhe silêncio. Debanda-se ao quarto.
Enfia a mão atrás do escuro no pé da cama e pega seu segredo. Adrenalina alva-lhe na pele o primeiro tremor do dia enquanto o esconde dentro da cueca. Aperta o pequeno recipiente de vidro. A empregada orquestra pratos, talheres, água, detergente, copos. Ele à espreita. Mosquitos zumbem geometrias que o menino persegue com os olhos. De esguelha em esguelha revela-se ao momento em que salta de mãos espalmadas rumo à calda que o mosquito arrasta. Redemoinha-se pelo ar resvalando-se já em fuga para longe de quem quer que seja. Punho fechado. Mão lacrada com um vão de vida em seu de-dentro. Com cuidado enfia a mão na cueca e pega o que ele chama de ‘caverninha’; com cuidado porque no passado já quebrara muitos destes recipientes cilíndricos. Quase toda manhã, quando a porta do quarto não está fechada, escova os dentes no banheiro dos pais; eles engolem o comprimido que está dentro do vidro e, então vazio, joga-o no lixo. Ou simplesmente deixa-o solto pela pia, o que sempre é bem menos arriscado.
Ouve o zunido do mosquito no vão da mão fechada antes de soltá-lo para dentro da caverninha. Retorna para a cozinha degustando as pancadas do coração avivadas para dentro do ouvido. Arqueia-se de alivio em músculos faciais empurrando-lhe contentamento por estarem só ele e os mosquitos na cozinha. Ouve agitação de lençóis, estralo na porta do guarda-roupa. Zunidos entrecortados fisgam-lhe. Espirala-se tantas vezes quanto possíveis; a freqüência da contração e expansão dos músculos alarga-lhe de rapidez e precisão acumulativa. Muitas das vezes o menino já é capaz de adivinhar o trajeto que o mosquito fará em sua debandada. Debaixo da mesa, olhos em risco, o menino regozija-se com o amontoado de zunidos dentro da caverninha. Seus olhos acompanhando atenciosamente as balburdias; três deles quietos num dos contornos, meio que amolecidos; um deles, o mais gordo, sacudindo-se nos outros. Pelo som das panelas o menino já sabe que é hora de escapulir dali. Morde a barra do short; seus olhos esgueiram-se pelos cantos da cozinha até absorver-se quieto diante da aparição que abre a porta da geladeira. Um tomate rola e os seios fartos da mulher sacolejam-lhe arregalo nos olhos. As bordoadas do coração turvam a vibração dos mosquitos. Coloca o vidro dentro da cueca, apalpa. Arrebata-se ao fundo dos pulmões. Finca os olhos na porta aberta que leva às colunas frias do tanque de lavar roupa. Arremessa-se do escuro da mesa num salto veloz. No trajeto cada naco de coisa é arrastado da memória, permanecendo a sensação quase audível do fôlego alterado. Avista a torneira sacudindo esfuziante.
Silêncio vazio estimula-lhe calafrios. Sente-se aconchego com o ruído de panelas umas nas outras e no fogão, faca cortando, murmúrio vez ou outra, água esquentando, colher arranhando. Gira a tampa da caverninha. Com a mesma rapidez que destampa, venda-lhe a boca com a palma da mão. Pelas fendas entre os dedos escorre água até a goela. Os mosquitos estendem-se frenéticos. Os mais próximos da tampa empurram outros cada vez mais para o fundo, trocando-se de posição até que o fervor esgota-se. Pouco a pouco os mosquitos engolfam-se ao lado oposto à boca da caverninha. O menino estaca-se quieto e lento; suspenso. Movimentos respiratórios rasos. Abre a tampa e olha pelo redondo; vê mosquitos estufados em detalhes. Revezando a semelhança que cada olho adapta.
Entorna o amontoado de mosquitos no cimento aquecido pelo sol, separando-os com o tubo da caneta. Mosquitos inertes. Água contorna a mão espalmada. Enruga as narinas pressionando os lábios um contra o outro; puxa o fiapo do saco plástico linguado para fora do bolso do calção. Junto vem um chiclete que ele despela e o arremessa inteiro dentro da boca. A empregada está bem próxima, olhando a cena com ternura. Sorri carinhosa enquanto pedi-lhe um chiclete. O menino solavanca letras num susto apertando a coisa esmigalhada dentro do saco plástico dizendo que não dá chiclete pra boca fedorenta. A mulher afasta-se torta; o chão empurrando-lhe os passos. O menino soterra os mosquitos com farinha. Esvazia todo o saco. Olhos em garra na estufada mancha de um amarelo desbotado. O menino pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca. De um ponto ínfimo na farinha que movediça-se trepidante desanuvia-se um mosquito. Agita asas e aquieta-se. E outro também. Mosquito após mosquito eleva-se lenta debandada. O menino pressiona a língua no céu da boca. Relaxamento dos músculos estimula sangue encharcando-se pela superfície de sua pele.
Sem que seja um beijo
“Hoffmann” foi o que ouviu. Muito menos sem saber de onde. Veio e pronto. Pode até ser que não tenha entendido exatamente bem. É preciso esclarecer. De mãos dadas caminham pela calçada. Não conseguem esconder o pavor diante da ojeriza e da raiva que estufa e rompe pelas peles. Das mãos atadas um nó quente enraíza-se pelo resto num esfuziante descontrole. Haroldo e Prinspe buscam-se com crescente força nas mãos. Nó combinado por infiltrações. Têm medo que alguma palavra dita possa provocar tremores sonoros capazes de desatar um selvagem tão incontrolável que caminham com olhos fixos por onde os passos indicam-lhes, sem quase qualquer interferência praticamente de nenhum deles. Tapados e porosos. Com exceção das mãos tão apertadas. O que os deixa ainda mais desolados e quase inconseqüentes; as ondas dali provocadas emergem-lhes cada vez mais e mais incapazes de compreenderem as sensações. Há os olhares alheios, enviesados, apressados pelo que uma manhã fria e chuvosa possa causar de atrasos. Fincam-se ali, sem decidirem-se. Observando os degraus que descem para a estação de metrô. Por tempo demais. Pessoas esbarram-lhes furiosas. O calor nas mãos dadas atinge uma tamanha temperatura quente que o toque absurdamente gélido promete, num solavanco qualquer um pouco mais desavisado, despedaçar-lhes as mãos em minúsculos pedaços. Os degraus somem por onde não se consegue ver onde pisa. Descem tão obstinados que certamente soam como se soubessem que ainda há tempo suficiente para chegar a tempo. Atravessam a catraca de mãos dadas. Prinspe fisga Haroldo, arrastando-o como se não o levasse. Desviam-se das pessoas em deslocamentos tão velozes que cospem-se para dentro do trem pouco antes das portas se fecharem. Haroldo apertando o estômago com a outra mão. Tentando disfarçar uma náusea que ameaça-se até a garganta. Mãos dadas. O que posso fazer para ser melhor? Seu corpo esborrachado em inúmeras pontas e curvas desconexas. E ainda assim lindo. Sim, lindo; repete Prinspe dentro da cabeça. A súplica em Haroldo costura a boca de Prinspe. É que a vontade vem; continua. Vêm garras arranhando um ruído que parece abrir-me os olhos para esse horror. Um toque que agora é pavor, mas que enquanto escorro pelo cilindro de veias enchendo minhas mãos, dificilmente encontro contentamento que inunda-me tão vivaz. Será? Na verdade as outras vezes em que retornei aos pescoços enrugados, voltei querendo o prazer da primeira e até da segunda vez. E até mesmo da terceira. Mas depois. Pessoas olham mais de uma vez. As que estão próximas aproximam-se ainda mais. Como é que posso ser melhor? Prinspe solta-lhe a mão. Esfregando o suor pelo cabelo como se desejasse ajeitá-lo. Depois dão-se as mãos novamente. Olhando o escuro riscando-se depois das janelas. Eu não sei. Também sei. Que a vontade vem e não consigo me soltar de ti, retirando-o do perigo que os meus colegas de trabalho terão o maior prazer em afundar-lhe. Já tenho provas suficientes. No início da investigação você me deu asco. Um bruta ódio. As portas se abrem. Uns descem. Prinspe observando com disfarçada atenção os que entram e os que por ali permanecem. Num arranco o trem desliza. Eles ainda não sabem de você. Então Haroldo ergue o olhar, penetrando-lhe.
Não há saída. A esta altura a balburdia dentro do vagão força-lhe a falar mais alto. Temos que fugir. Ou terei que caçá-lo. Olham-se com um peso que quase olham outro rumo. Cedo ou tarde eu te mato. Fui treinado para isso. Sou muito bom nisso; completa. Prinspe observa o nome da estação que se aproxima e solta a mão de Haroldo. Assovio enferrujado acompanha a porta movendo-se. Não vira. Não olha. Segue adiante até a escada rolante soltando um invisível barbante atado nele. Amontoado de gente acotovela-se. Haroldo em seu encalço, empurrando com a potência dos que devem sobreviver. Estende-se bem na beira do degrau logo atrás dele. Segura-lhe o braço no instante em que necessita destreza para não cair. Porque você faria isso? Então Prinspe vira. Mas o que vê está quase que totalmente borrado. Seu rosto avermelhado, gesticulando boca aberta sem que algum som sequer saia. Tropeça no fim da escada rolante. Equilibrando-se enquanto esfrega os olhos com as mãos. Haroldo apoiando-se em Prinspe, perseguindo-o pelos quases. É que quando a vontade vem. Certa vontade. Então não tem como. Quero você por perto. Palavras com corpos em movimento. Caminham lado a lado, com uma pressa que é como se um dos dois fosse por pouco passar a frente. Mas é Prinspe quem mostra o caminho. Enfiam-se pelo Sol forte com a mesma intensidade veloz. Deixando como rastro uma luz artificial que os primeiros degraus desprendem na medida em que os passos sobem. Dia entupido de buzinas. Mas nada pode. Nada consegue impedir-lhes por onde escorrem. Céu tão sem nuvens que a maior parte dos homens carrega as gravatas nos bolsos. Nas ruas ainda resquícios de chuva, refletindo os edifícios com tamanha precisão clara que por pouco duvida-se qual deles é o real.
É a luz.
Bem antes que a esquina acabe Prinspe interrompe Haroldo com a mão espalmada em seu peito, empurrando-o para o canto. Lá em casa pode ser perigoso, eles estão à espreita. Vê aquele carro? Aquela mulher segurando o jornal? Espere aqui. Olham-se bem de perto, respirando suor. Prinspe volta pelo caminho que vieram. Retornando não mais que dez minutos depois. Antes que pudesse sequer rascunhar um sorriso, o horror em seu rosto trava-lhe qualquer reação suspeita. No instante em que passa por Haroldo, um pedaço de papel, estranhamente por demais pesado para um pedaço de papel, cai próximo de seus pés. Puxa um cigarro, acendendo-o no instante mesmo em que o sapato pisa no pedaço de papel. Quando a mulher do jornal percebe Prinspe já contornando a esquina, ergue a cabeça em sua direção. Haroldo vira-se para o caminho pelo qual vieram. A carteira de cigarros cai. Abaixa-se sugando o cigarro preso entre os lábios. Tão sutil e breve que só mesmo depois que já deu dois passos dali é que então solta a fumaça, enfiando a carteira de cigarro no bolso – junto com o papel. A mulher alcança Prinspe. Não sorriem. Alguma novidade? Já temos o suficiente para socarmos o verme dentro de uma cela para sempre. Quando veremos todo o material? Passei a noite em claro coletando mais evidências; estou morto de cansado. Está estampado na sua cara. Amanhã à tarde a gente se fala. Separam-se. Prinspe torce a chave na fechadura, mas antes que empurre a porta rapidamente gira nos calcanhares e fala; amanhã você terá a oportunidade de olhá-lo nos olhos. Só assim ela sorri e parte.
Haroldo entra no bar e pede uma dose de Pirassununga com três gordos fios de menta. No papel rasgado o endereço e uma chave visivelmente nova. Só venha daqui uma hora. Toma um gole. Então retorna para si a entonação de sua voz enquanto pedia a bebida. Como descrever? Uma espécie de submissão? Certa entonação de pavor suavizado, encarnado pelos movimentos dos dias? Faz careta. Não é de agora - onde não sabe o que Prinspe planeja. E se eu fugisse daqui, agora. Sem parar de correr. Mas eu aqui, sentado, estou correndo. E se eu invadir essa terra que me cobre? Até minar pela superfície. O que aconteceria? Só de olhar para fora, de onde vem luz, o cheiro de naftalina ressurge com força. Treme inteiro, sacudindo-se pelo banco de estofado arredondado como se por pouco fosse despencar inerte. Helena de olhos revirados borra esse cheiro. Prinspe deve estar muito confiante de que mesmo que ele parta para qualquer algum outro lugar, ainda assim irá atingi-lo. No espelho enfrente ao balcão vê Helena nitidamente segurando o copo. Sente alegria em seu próprio corpo inchando-se pontudo sem a necessidade de mãos apertando pescoço até que língua brote entre os lábios. E ainda de quando essa alegria esvaiu-se como se um certo visto de permanência tivesse expirado. Fuga só não é permanente porque, na atual conjuntura de tantas línguas empurradas para fora, apreender-se com Prinspe será o modo de encontrar uma espécie de paz? Mas me espanta. Mais uma; diz erguendo o braço sem sequer olhar pro rapaz. Me espanta esse amor. Haroldo pula de susto com um toque em seu ombro: mão que reconhece no espelho ser de Prinspe. Achei melhor checar a área e vir te buscar. De agora em diante todo cuidado é pouco. A bebida chega. Compartilham-na em dois goles. Amor?; pensa enquanto saem dali. Mas ele não veio buscá-lo, ele o encontrou. Amor? Prinspe percebe o quão pensativo ele está em suas passadas. Teclados de piano cavam-se ferozes de alguma janela, guerreando com os ruídos da rua. Prinspe enfia a mão dentro do bolso e tira a chave, manipulando-a entre os dedos antes mesmo da esquina terminar. Apertando-a como se a fechadura ali já estivesse. Um certo movimento brusco quando acopla a chave. Mas antes de Haroldo entrar, antes do Sol diminuir seu alcance, vem-lhe a sensação de estar sendo observado. Não por alguém estranho; de algum modo alguém familiar, íntimo até. Entra pressentindo o começo de algo; que começa a ser escutado com menos interferência. Angustia esparramando-se bem devagar. Angustia já com a cara de ter estado por ele algum quando. Permanece calado enquanto atravessam a porta de entrada. No elevador enfim pergunta; porque o risco da nossa fuga não lhe faz recuar? Mas a pergunta é outra. Seguem pelo corredor de olho na enorme flor laranja enfrente ao espelho, sem folhas, com talos de arame enferrujado. Prinspe toca a campainha e sorri maroto; é hábito. Porque me arriscar por você? É o que você não entende, não é? Pra que saber? Eu não tenho escolha? É o que você quer dizer? Não, não é. Gira a chave na fechadura. Nós temos escolha? Um sofá velho, gasto, todo afundado. Cortina verde arregalado. Paredes descascadas. É o que quero descobrir. Prinspe abre a janela ainda mais. Haroldo se afasta para a cozinha. Pia limpa. Bebe dois copos de água fria do filtro de barro. Na volta Prinspe não está mais ali. Só a cortina sacudindo violenta. Haroldo segue o ruído vindo de algum dos outros três cômodos. Já está quase nu. Precisamos de um banho. Pode deixar a roupa aí mesmo. Permanece olhando enquanto Haroldo se despe.
Prinspe começa a dizer algo e acaba engolindo as palavras. Com dor nas rótulas duras, até mesmo no mais íntimo tutano dos ossos. Gagueja como se algo invisível socasse-se garganta adentro, impedindo as palavras de saírem. Empurra a voz com força, espirrando saliva. E se você quase me matar? Diz erguendo as mãos de Haroldo até seu pescoço. Haverá aquela mesma vontade em suas mãos segurando com um desejo tal que nos impede até de piscar enquanto infla-se de desejo estonteante? É que você, você todo tornou-se um gancho maleável entrando por todos os poros de Helena. Eu vi. Estava perto de vocês quando segurou o braço de Helena, pedindo-lhe. Um absurdo de clamor que me estraçalhou inteiro. Uma luz ali se aqueceu tão faminta que algo aqui, sei lá aonde aqui por dentro, faiscou-se num calor contagioso fervendo-me. Uma das mãos em cima da mão de Haroldo, em torno de seu próprio pescoço. A outra espalmada em seu peito, acompanhando os pulos cardíacos.
Quando vier essa coisa, essa coisa estranhamente familiar dentro de você, aqueça-me com essa fome. Com sua mão aperta a mão no pescoço. Só não se esqueça – quase. Quase arranque pedaços de carne do meu corpo – ergue uma foto de uma idosa contorcida e arregalada, com buracos dispersos mostrando carne viva. Quase. Permaneça um fiapo por onde escoa ar. Haroldo num silêncio sepulcral. Vez ou outra baqueando respiração. Molhado de suor. Com olhos úmidos puxa Prinspe contra seu corpo. Por enquanto, se for necessário como sopro, recorra-se à lembrança de Helena. Mas aos poucos quero tomar seu lugar. Face brilhante com face brilhante. Disperso pela cama há fotos, anotações, revólver, caneta. Na parede, entre outras fotos, sendo a que ocupa uma posição de maior destaque, vê-se Prinspe de farda. Acompanha o olhar de Haroldo. Haroldo frisa o espaço entre as sobrancelhas guiando-o até o banheiro, dizendo; você me conhece mais. Por quanto tempo vem investigando os crimes? Tempo necessário. Ambos corações quase juntos. Quem é você? Eu não te conheço; insiste. Eis a tua oportunidade de me investigar. Não sei, não sei, mas também quero. Você conhecia alguma daquelas senhoras?; pergunta enquanto aponta para o rumo onde estaria a cama.Tocam os lábios sem que seja um beijo. Água fria cai entre os corpos juntos. Haroldo o abraça com a força dos íntimos. Foi sempre assim. Apertando desejos e medos e suores entre as mãos, ultrapassando rituais de lenta intersecção capazes de desvendar as raízes que partem do nó entre eles e irriga pouco a pouco ambos corpos. De algum modo ele não apenas acredita, mas realmente vive essa intimidade. Tornando-a intensa apesar de breve. Ainda que algo, agora ele sabe, em suas próprias mãos, de um certo calor quase morto. Já anunciando sua força apagando-se no instante mesmo em que torna-se íntimo.
Com os pés desenrola o lençol, despencando corpos e letras até o chão, ainda tão abraçados que a respiração não só se torna entupida de algo por que o ar de um preenche o outro. De algum modo a alegria desenfreada já não mais estonteia Haroldo. Nem ao menos olha atento para seu membro e ainda assim, quando caminha pelo rumo que sua vontade deseja, ainda assim (Meu Deus, ainda assim) já é-se duro e macio desatando correntes enferrujando juntas e gemidos lacrados em Prinspe. Corpo firme que caminha de pernas abertas, cheirando cheiro de homem, suavizado pelo toque de Haroldo. Despregando uma confiança e uma entrega que os torna arcaicos. Pregados e antigos. Beija-lhe as pálpebras fechadas; abre os olhos cintilantes de prazer, meio revirados para cima. Seu corpo treme, provocando sons que começam a cultivarem-se enquanto embebedam-se da carne, do sangue, dos nervos, pelos órgãos, ossos, escalando a traquéia e esparramando-se sem a menor cerimônia para fora, pelos lábios untados de saliva. Seus murmúrios sonoros são faróis insistentes numa noite de tormenta, acendendo-lhe a vontade desenfreada de vida. E.
E. Em nenhum.
E. Em nenhum. Nenhum instante suas mãos afundaram dedos em seu pescoço. Não houve. Não houve aquele tremor nas mãos de tanto que retesam-se em dedos curvando-se em ganchos. Quando deu-se por si já mero sedento queria escorregar-se pelo apertado. Lambendo-lhe a nuca e por trás das orelhas. Abocanhando-lhe o pênis com as mãos em concha. Tremelicando as pontas dos dedos na carne quente entre as cochas, lá pela raiz do pênis, logo depois do saco caído – agora acomodado, com fios de cabelo encaixando nos sulcos da palma da mão. Carne esponjosa quase escondida arrepiando revelação. Descascada pelas digitais. Balança a cabeça porque tem receio de que se por algum motivo questionar demais o que foi que perdeu-se ou ganhou-se pelo caminho para que enfim a benção não pedisse passagem, desembarcando sangue pelo membro sem a necessidade de apertar gargantas até que os olhos expulsos fiquem parados, poderia então que então as comportas se fechassem novamente. Cale-se. Revira os olhos e ancora-se pelos picos que os saltos cardíacos desamarram. Mas ainda há essa tristeza súbita, um tal de aperto espinhado percorrendo pelo peito. Uma espécie de angustia que no compasso que a vontade, ali, rasga, como que borra esse quase sufocamento. Gritam. Gritam para que as lágrimas não entupam-lhe as veias. Não se sabe se é o som que lhes contorce ou se é o contrário. Nesse grito Prinspe lembra, como a pontada de uma faca súbita, absurdamente repentina, de um grito lacrado quando ainda era tenro e pequeno. Abre a boca como se com as duas mãos a arreganhasse até o instante antes do deslocamento das mandíbulas. Grito como que de algum modo sendo um embolando-se cada vez mais gordo, inchando as gargantas em arranhões atritados por plumas minando fios de sangue. Rastros. Grandes olhos saltados. Por certo não se conhecia. Não. Jamais assim, depois desta surpresa marchetada por debaixo de alguma crosta. Em meio aos espaços respiráveis esparramados pela ofegância relata o susto que travou-lhe a garganta há quase trinta e um anos atrás. Havia um menino que deveria ser da mesma idade que eu. Eu. Pequeno, forte, sadio, belo, desenvolto. Haroldo quieto. Esse menino caiu num buraco. Quase caiu, na verdade. Eu o segurei num reflexo corpóreo de bela precisão. Puxei-o para fora utilizando toda minha exuberância muscular. Arrebatado de contentamento por tê-lo salvo dum escuro fundo. Sequer um único arranhão. Olhei para o meu pai e ele vinha em minha direção. Esbaforido. Antes do soco que me derrubou registrei com exatidão e pavor sua raiva e inveja incontroláveis. Nitidamente desenhada em seu rosto; retornando-me então com mais clareza outros momentos dele que antes jamais eu chegara a realmente compreender. Mantive os olhos nele enquanto meu peito inchava. Sem entender porque ele não ficara feliz com minha alegria. Parecia que iria explodir, mas não gritei. Esqueci. Gritei. Esse berro desenfreado, em ambos, com o revólver a beira de escorregar para o chão, clicou-lhe algo por dentro, articulando-lhe então a um outro instante de estar-se. Haroldo, num arrebatamento do tipo de vaidade equilibrando-lhe vívido, redescobre-se útil por dentro e fora de si. Sorri esfuziante. Abundante contentamento vem numa inevitável imposição após uma alegria demasiadamente atingida, quase além do que ela própria pode tolerar. O hálito os cola de carícias como um corpo curioso e feliz com teu próprio reflexo. Enfiam os dedos pelos vãos entre os dedos. Abraçados, com pescoços acoplados pelos vãos curvos, um temor entristecido escapa do rosto de Haroldo com nítida precisão. A minha coragem me enoja; pensa. Tão rala. E se eu não me inflasse? E o asco no rosto fosse então inevitavelmente bem evidente? Aperta um gosto de azul triangular pelo céu da boca. Língua escorregando frenética e débil. Quem sou eu? Mas a voz não acompanha as palavras. Esvaziadas de sons elas até que atravessam a boca – como uma ferida estranhamente infeccionada da qual não brota pus. Boca entreaberta pela qual Prinspe introduz dois dedos. Continuam tão apertados, com uma exuberância em ambos transbordante de alegria, ficando-lhe evidente que fingir a verdade pode sim desatar nos soterrados.
Afasta Prinspe com mãos espalmadas em seu peito. Olhando-o nos olhos com potência tranqüila. De súbito vai-se cultivando - pelo caminho então empenado. Arrastado. Paz no rosto - aflição hibernada. Lhe dá um beijo de verdade. Com uma vontade antes inacessível em todo e qualquer alcance arqueológico. Ambos derramando-se por entre os lábios; recebidos pelo vazio um do outro. Interrompidos bruscamente por insistentes batidas na porta. Baques com voz firme.
Exclamou-se de repente, do fundo de algum lugar. De algum lugar... “culpado de ter desejado matar...” Num dia de junho, luminoso e friorento.
Enfiar pregos nos intervalos
I
O risco é tão impalpável que seu corpo só começa a deslocar-se das juntas quando o raio escorregou-se pelo corte. Já tomando conta dos ecos por detrás da fenda. Um espanto de tamanha espinhes que era melhor permanecer quieto, derramado pela cadeira. Foi bem depois que ele deu-se conta de que desatou-se assim em estilhaços porque ela disse, numa espécie de alegria ingênua, que certa vez deslocou a mandíbula de uma mulher num murro. E por um momento eterno demais ficou explicando que deste modo, de lado, o deslocamento é fácil. Num único soco. Ela. Tão miúda e sensual e com menos de dezoito anos e mais de dezesseis. Com olhos que afundam-se em cortes afiados pelos olhos dos outros até que de súbito um olhar reflete de volta ela própria. Ele. Num pavor disfarçado, jogando o cabelo para trás, ela vira o rosto. Descabida como se de repente despertasse-se ao seu próprio fogo. Assustada com os pedaços entremeados dentro dela. Pedaços que continuam a se defender quando ela própria lhes questiona o delírio que queima e que arranca qualquer barreira impedindo-lhe de deslocar os alicerces do buraco com lábios que lhe diz coisas. Extirpar esses pedaços embolados e vermelhos demais seria como arrancar-lhe a face, enfiar pregos nos intervalos proporcionando-lhe toda a maleabilidade de curvas sensuais. E o que fazer com a falta de olhos em sua direção sustentando-lhe esguia? Neste assombro. Perante a grossa nuvem socada nos teus olhos quando em algum olho viu-se capaz de provocar pavor, tentou espirrar para fora seu próprio sangue. Seja como for o desequilíbrio nele, ainda sentado, intensificou-se pouco depois que chegou ali. Despedaço que foi crescendo e multiplicando-se quando ela disse que iria convertê-lo. Transformá-lo em homem seria sua grande meta. Afinal, ela olha, não há homem que não seja capaz de resistir à grande força que é alguma extirpe de dom que só a mulher é capaz de procriar. Sem que sequer ele desconfiasse, alguns caroços de estilhaços quentes, até então escondidos por dentro, espinharam-se por todos os lados. Todas as vezes que ela se aproximava, olhando-o da pista de dança, oferecendo-lhe vinho ou um troca-troca de cigarros, esses espinhos de fogo arcaico, faiscado por pedras atritadas, afinavam-se cada vez mais ferventes pelo caminho que desejassem. Já que só mesmo algum tipo de memória decepada, num instante como este, torna-se demasiada insistente a ponto de com muita cautela brotar-se em epiderme. Com a cautela dos que não querem sufocar seu hospedeiro. Mas ele então já começa a desconfiar – entende que pode até ser que seja possível aprender algo que o corpo despista-se, sob pena de asfixiar-se; mas aplicar o assimilado é absolutamente uma outra história. No caso dele, certamente, a distância entre o assimilado e o aplicar-se é de um tal vão que a vida não pode jamais chegar a ter tempo. Deve ser por isto que estão enfiando sensualidade nas crianças, cada vez mais e mais tenros; pensa, esborrachado. Pode ser que assim elas tenham mais tempo para encurtar certas distâncias; sorri mastigando as últimas pedras de gelo. Inseguro das amarras por dentro de seus calcanhares estica o pescoço e pede que alguém encha seu copo. Os outros começam a olhar de esguelha, percebendo-o como um naco com pus que deve ser mantido a uma devida distância necessária ao envolvimento que não provoca rachaduras no calor que aproxima e aquece os presentes. Soca o líquido para dentro.
Trêmulo incompreende-se. Ainda assim a cada vez mais rasga-se da luz que o quer olhado. E como queria, Deus em Sua infinita misericórdia, e como daria tudo por uma dobra para acoplar-se e ali reencontrar a terra sem o reviramento repuxando-lhe a face numa expressão de medo tão contido que os dali começaram a confundir as articulações. Desfocando os movimentos em plena pista de dança. Recriando uma dança de tamanha desordem que o ambiente passa a sabotar-se. Mas antes de já não mais saber onde estava o fio da alegria - juntos, sacodem-se buscando se livrar da coceira. Enojados começam a saborear o antídoto contra longos sonhos horríveis. Já sabe que o que lhe salva agora é encontrar um canto escuro por onde irá se embolar pela dobra da parede até que o tremor dê-lhe frescor nas articulações. Ao menos suficiente o bastante para poder abrir o portão e despregar-se dali. Mas essa dobra não estava na cadeira. Levanta com ossos esmigalhados pedindo ao dono da casa, que trocava a música, um pedaço de algum canto para poder recuperar-se. Redondilhou-se ali abraçando uma almofada durante tempo suficiente para poder retornar ao grupo. Soergue-se sentindo-se restaurado. Pára no meio do caminho e volta para pegar a carteira de cigarros esquecida debaixo do travesseiro. O caminho até os ruídos parece tão esticadamente longo. Então, de vez, perceber que os becos da casa são sem saída. Aquele pedaço na cama, ofertado pelo horror disfarçando o ranger de dentes, é um canto miserável fomentando com mais garras afiadas a selvageria que não apenas a mulher, a mulher acende. Mulher com vontade de segurá-lo com a imponência dos que possuem. Ainda há o namorado. Sim. O namorado do homem com posse de cada pedaço da casa. O namorado desejando ele sem ocultamentos. Ele. A cada investida, com o horror cintilando ira, sempre à espreita, ele tem os joelhos despedaçadas, onde cada pedaço esmigalhado como que deseja seguir um caminho distinto. Estrela espatifada.
Ele está ali no meio da pista de dança olhando as pessoas mastigando o restante do que sobrou do almoço ofertado. Desfiando-se para algum canto que de súbito escancara-se inútil. E outro canto. E de novo outro. E de novo um outro. Furtiva aparição empurra-lhe para longe da pista de dança. Puxando-lhe pelo escuro na frente da casa, indicando-se ao portão que ele abre e dali escapole como quem sacode braços e pernas até poder atingir a superfície da água e então respirar. Pára breve e vira. Olha. De algum modo, ali, nesse lar, cultiva-se o germe voltando-lhe ao cruel. Morte que seu corpo recusa-se assimilar num murro dependurando o queixo. O líquido vindo, pedindo passagem, é um veneno do qual seu corpo não tolera abrir os poros – sob pena de extinguir-se pelas próprias mãos fabricando entulhos aquecidos por algum instante onde o sangue escorre ou filtra(-se). No caminho para fora dali, junto com seu duplo ao volante, quase entende o sentir de seu corpo. Uma estirpe de ânsia querendo cuspir-se de dentro para fora, a ponto de expor todos os órgãos internos, dependurados. A mulher com seu desejo de engoli-lo recupera-lhe o cruel. Recupera-lhe a mulher antiga, a mais antiga que sabe lembrar, a mulher que não sabe tocar e no auge de seu desejo de tocar e ser tocada acaba arranhando o outro que retorna-lhe com um toque selvagem estilhaçando-a ao chão – essa mulher então gosta de ser amassada? No antes do tremor esparramando-lhe na cadeira está o homem igualmente antigo, o mais antigo que sabe lembrar, que a qualquer instante pode pegar uma cadeira e acertar-lhe a cabeça. Reprisando as faces do horror caindo. Homem bocejando, tão arcaico que já então olha mais de cima. A queda, vista de baixo, com determinada temperatura hormonal, com seus congelamentos de faces perdendo o impulso de defender-se, aniquila-lhe qualquer ação que não seja aquela extirpando-lhe da casa de muro alto e portão enferrujado. Enquanto um grito vai ainda sendo socado para algum fundo. A crueldade é algo que prefere (e deseja) em seu próprio corpo; é bem provável que o tal namorado tenha sentido o cheiro d’ele querendo ser fendado por alguém que quer encontrar solo fértil para a sua semente de mãos grandes e olhos sedentos. Permitir-se ao lar ali é possuir-se pelo veneno que seu corpo não deseja em doses tão escancaradas. Há depois da esquina que vai ficando para trás um grupo de suspeitos do qual não tolera fazer parte – cedo ou tarde extrapola-se. Corpo embrutecido pela ignorância que o susto horrorizado finca – no instante mesmo em que enraíza-se combinando-se aos mecanismos de defesa imediatamente acionados. Líquidos gota a gota misturados. Chega uma hora em que o único caminho salvo é a violência?, já que este salto conecta o sobrevivido a algum pedaço já bem adiante, com etapas já concluídas? Havia algo que ele jamais poderia ser, mas que ele, retomado de um avermelhado aguado no branco dos olhos, incitava nos demais. Trazer a mente para o presente provoca respingos vazando de cortes que ele, só de olhar, vai brotando em teu corpo.
II
A única coisa que nos une é o sangue. Não quero nada. Já não basta o sangue? É que nesse nível de nos combinar algo certamente nos repele. Aproximei-me por que eu tinha que saber quem era você. Eu. É que não me lembro se senti algum cheiro ou se vi ao menos um raio de luz enquanto atravessava tua vagina pela primeira e última vez. Nunca havíamos nos intimado sem as molduras que nos embaçam. Laços que servem de adulação quando o receio ascende ao confrontarmos-nos com o horror nos olhos do outro. Reflexo que trinca-nos por dentro – especialmente para você que acredita-se deus, onde fazer arte deve ser não uma quase-repetição mas sim uma criação que não venha de nada mais que não seja você mesma e somente. E não pense que você é assim porque você quer a perfeição ou porque você é por demasiadamente sincera; não, não é isso. É que você é covarde demais. Gente tem pouca tolerância. Muito pouca tolerância à presença do abandono. Seu pavor de você mesma e de tudo o que você descartou pela vida pode acabar assombrando-lhe sem que você saiba como extirpar-se deste fantasma. Tenho certeza absoluta de que o corte mortal é provocado pelos que fazem parte de sua confraria. Pretensioso? Ignorante? Em verdade essa minha vontade de arte deve esmigalhar-lhe. E para não se desfazer em pó antes da hora, debate-se como animal acuado recusando-se à luz que vai saindo de alguns dedos. Dos dedos incrustando, por exemplo, imagens na tela. Ele recua recostando as costas nuas no duro arco gélido da cadeira. E quase tem o ímpeto de assinar logo abaixo do que acabara de rabiscar no caderno. Ela não entende o espanto no outro olhando-lhe e então ela aproveita um instante qualquer para agir de modo exagerado, já que os mecanismos que por ventura clarear-te-iam o caminho da busca são prontamente por ela rejeitados. Há um medo nela muito acima, antes e maior que a voz alta sobressaltando-lhe. Com o medo protege-se das ameaças externas. Internas. Bons pensamentos produzem bons hormônios; diz de súbito, sem realmente saber por que o disse. Acho que vou escolher nascer bem próximo do lugar onde a gente morrer. Absolutamente logo em seguida, como se não precisasse de tempo para pensar, arranca a folha de papel, embola e arremessa para o lixo.
Erra o rumo.
